quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Parto, precisamos saber sobre isso



Cada vez mais a gente percebe que informação segura é uma preciosidade. E graças aos esforços de muitas pessoas e profissionais de várias áreas, situações que estavam condenadas a se perpetuarem na "cultura" estão sendo trazidas à luz, como é o caso da violência obstétrica.

É urgente e imperioso que a população, homens e mulheres de qualquer idade, tome conhecimento do assunto para que possa refletir, decidir sobre o nascimento de crianças e se equipar com informações que possibilitarão sua segurança nessas ocasiões ou mesmo o triste mas necessário reconhecimento de ter sido vítima desse tipo de opressão.

Ao assistir ao documentário "O renascimento do parto 1" (de Érica de Paula e Eduardo Chauvet), ao lado de minha filha já adulta, é que me dei conta do quanto o obstetra fez para me desviar do desejo de um parto normal.

Os documentários 1 e 2 estão disponíveis no Netflix. E o 3 -específico sobre violência obstétrica- está no Now.

Na última terça-feira o jornalístico Profissão Reporter sobre Violência obstétrica foi exibido muito tarde da noite, mas o link acima permite a sua reprodução.

O nascimento pode ser sublime ou traumático. Vale muito a gente adquirir conhecimento sobre esse tão premente assunto.

domingo, 25 de novembro de 2018

Infância roubada




Ontem, sábado, me programei pra assistir ao GloboNews Documentário sobre as crianças suecas apartadas de suas famílias pelo governo, pelo fato de suas mães serem adolescentes ou não terem marido, ou simplesmente por serem de famílias pobres. Encaminhadas a orfanatos religiosos, eram vistas como "fruto do pecado" e expostas a terríveis situações. Com "sorte", eram conduzidas (ou vendidas e até leiloadas) para fazendeiros, que as tratavam como empregados, muitas vezes em situação de escravidão mesmo, submetendo-as a abusos psicológicos e sexuais.

Eu já havia tomado conhecimento disso há alguns anos. Um de meus alunos, brasileiro mas de família sueca, surpreendeu a toda a turma ao revelar essa prática em país que elogiávamos momentos antes. Coincidentemente, naquele final de semana encontrei na TV este filme de 2011, dirigido por Markus Imboden, que recebeu o título internacional "The Foster Boy". "Der Verdingbub" pode ser traduzido como BUB / criança, pirralho; VERDING / contrato. Até meados do século XX essa realidade permaneceu no país, e só recentemente o governo reconheceu o fato, se desculpou com os afetados e deu cerca de R$ 100 mil a cada um.

Bom, foi apenas assistindo ao documentário ontem que me "caiu a ficha" de que convivi diretamente com pessoas que passaram por isso na família.

"Irmãos de criação", "Filhos de criação" de parentes, nem sempre negros mas sempre vindos de famílias pobres, sempre tratados como empregados e nunca como filhos adotivos. Algumas vezes negociados por seus pais, ou deles simplesmente apartados, trabalhavam pesado sob o véu social de filhos adotivos: _Foi quando adotei uma negrinha.

Já ouvi essa frase. Essas "casas de família" pareciam constituir a única saída para essas crianças, e elas chegavam com cinco, dez, doze anos lá. Abusos terríveis que nunca se apagaram e que vieram a afetar suas vidas, as famílias que formaram depois, a postura, o olhar. Conheci quatro pessoas, muito, muito próximas que passaram por isso, e que mesmo a um certo momento libertas, carregaram o peso o resto da vida.

Crianças ... Há muitos anos também levei um choque ao aprender com Philippe Ariès, em seu livro "História Social da Criança e da Família", que apenas a partir do final do séc. XVII a sociedade ocidental começou a deixar de ver as crianças como adultos pequenos, a deixar de impacientemente aguardar que crescecem para se tornarem produtivos, passando a infância a ser reconhecida como uma fase de desenvolvimento, formação.

Eu hoje troquei as carinhas que compõem o plano de fundo do blog. Estou bem mais craque em desenhar bebês e crianças, como poderão ver em um produto a ser lançado no ano que vem. Mas isso é só um parêntese.

A história da Suiça inclui esses fatos; a minha história inclui fatos semelhantes; o mundo nunca esteve para brincadeiras, embora tentemos nos agarrar às coisas belas, corretas e boas.

A infância precisa ser cultivada e respeitada.

Toda a minha admiração, respeito e reconhecimento por aqueles que tiveram a infância roubada.

domingo, 21 de outubro de 2018

Mamadeira, eleições e consumo




Eu fico me perguntando o que há de ter feito pessoas acreditarem que o candidato à presidência Fernando Haddad, implantaria nas creches do país mamadeiras cujo bico reproduz o órgão genital masculino ...

Eu diria que o absurdo está na notícia falsa, está nas falsas notícias que assolam o país neste momento tenso e surreal, mas nem tanto no produto asqueroso, montado mais do que grosseiramente, para causar pavor nas pessoas, já que meu arquivo de imagens inclui algumas propostas também inacreditáveis e chocantes que compartilho abaixo com vocês.

Talvez a pior delas seja esta. Acreditem, ela está à venda no site da Amazon. E por estar lá ... há de vender:



"Dando independência aos bebês desde 1972". Um produto que existe há tanto tempo ... E não se trata de fake news.

Na verdade, e acabo de ser avisada por uma leitora do blog, trata-se de um "produto-pegadinha", que tem como objetivo brincar com o presenteado:

"Nós nos orgulhamos de nossa incrível atenção aos detalhes. Pensamos em tudo, desde o ridículo produto fictício em si, até as imagens hilárias e a descrição detalhada do produto. Esta caixa terá qualquer destinatário realmente convencido de que você acabou de dar-lhes o presente mais bizarro de todos os tempos!"

Eu me impressioneie acreditei que era verdade ....

Mas vamos aos próximos produtos.

Que tal este aqui?



Muito feio? Traquitana? Mas foi pensado também para dar "independência" ao bebê!

Tá bom, tá bom, o pessoal reconheceu que tava feio e fez um mais fofinho, com bichinho e tudo:


Pra terminar, uma bem humorada mamadeira, pra brincar com os amigos e amigas, tão bem feitinha que parece até cerveja de verdade!





Acontece que estamos acolhendo tudo que nos é oferecido para consumo, sem parar pra pensar no que essas propostas representam ou significam.

1. Como assim dar independência para os bebês se alimentarem? Bebês são dependentes e seu contato com produtos precisa ser supervisionado por adultos sempre. Pouco se comenta, mas o risco de engasgo com mamadeira é grande, pois a vazão do leite precisa ser interrompida pelo bebê, que para engolir o líquido, precisa elevar a língua até o céu da boca (movimento este que ele não nasceu sabendo fazer e que ocasionará alterações na formação de sua arcada dentária e sistema respiratório).

Independência ao bebê limitando ao berço seus movimentos e acondicionando em um bebedouro uma grande quantidade de leite que, passadas duas horas de exposição à temperatura ambiente, inicia a proliferação de bactérias?

Caso não se pense nisso, como aceitar passivamente esse "curral"?

Poxa, caí feito "um patinho" acreditando que o produto era verdadeiro ...


2. Acessórios para bebês têm feito muito sucesso e são adquiridos antes mesmo de eles nascerem. Que interessante esse sistema que acopla a mamadeira ao moisés pra que a criança se alimente sozinha! É de feltro, molinho, em várias cores. Querem saber?, pode ser até bonitinho, mas duvido que funcione, pois exigirá um controle motor que os bebês ainda não adquiriram.


3. E que engraçada essa mamadeira que imita uma garrafa de cerveja ... Só que não, por motivos óbvios.


Há de tudo nesse mundo. E cada vez mais esse sortimento nos afasta da capacidade crítica. Isso nos fragiliza, nos expõe ao medo quando a ameaça de fato se esgueirar à nossa frente. E embota nosso senso de realidade, abrindo flanco para a crença em tudo que nos apareça pela frente, verdade ou mentira deslavada. No caso das crianças, apaga nosso compromisso com a responsabilidade que temos por elas. Que é nossa, e não dos produtos.

Que essa nefasta experiência das eleições brasileiras sirva para trazer à pauta o alerta feito há anos por Umberto Eco:

"Talvez seja mais sensato duvidar de tudo quanto depressa demais se nos apresente como definitivo".

Boa tarde. E boa sorte.


domingo, 9 de setembro de 2018

Pipoca doce ou salgada?



Gosto muito de pipoca. da doce e da salgada. 

Hoje comento aqui algumas notícias que reuni nas últimas semanas e, ao contrário dos tipos de pipoca - tão simples e ao mesmo tempo surpreendentes ao paladar que quer se alegrar, além de sinceros (doce e salgada)- seu gosto
pode enganar aos sentidos.


1. Me pareceu doce a série de matérias publicadas pelo jornal Metro sobre o que está por detrás das táticas da indústria de fórmulas infantis, porque constatei uma coragem elogiável no jornalista Rafael Neves em trazer à tona o gosto amargo da doçura cantada em verso e prosa da indústria do desmame. A coragem é doce. 

Em Indústria muda táticas para competir com leite materno, o primeiro dos cinco artigos, a gente fica sabendo da superioridade do leite materno, mas também do quanto isso vem atrapalhando o mundo dos negócios, que de maneira falaciosa só faz crescer a adesão aos modos artificiais de alimentação de bebês, fornecendo argumentos que insuflam o descrédito das mulheres-mães às suas capacidades biológicas. Sim, amamentar pode não ser simples ou pode não ser possível em alguns casos, mas a intimidade das empresas com pediatras, intimidade histórica - diga-se de passagem- não é a troco de nada. Vale muito a leitura. E não posso deixar de comentar a surpresa que tive ao deparar com a série jornalística, pois considero o jornal Metro uma leitura rasa de notícias de poucas linhas para atender ao triste fenômeno contemporâneo de não se ir a fundo em nada: leio rapidinho e estou atualizado. Então, reconheço aqui o esforço editorial empreendido por todos os profissionais envolvidos nessa mudança (mesmo que esporádica) de rota. 


2. Prova da força estratégica da indústria, outro artigo me chamou a atenção: Agosto dourado e o perigo da mamadeira no berçário: uma prática que precisa ser combatida. Em um sincero depoimento, a jornalista e nutricionista Mariana Claudino relata sua experiência de impotência diante do oferecimento de mamadeira com fórmula infantil a seu filho Mateus na maternidade, sem o seu conhecimento, alertando sobre a necessidade dessa prática ser denunciada e apontando que a informação (informação é doce) pode ser a alma do negócio. 

Quantas gestantes não devem estar lendo este texto agora? E é para elas que eu escrevo com muito amor: ajudem a mudar essa realidade, informem-se sobre o assunto, não deixem que seus bebês recebam o leite de vaca na maternidade. Questionem o médico, empoderem-se, peçam ajuda, perguntem, rebatam. Não fiquem conformadas se disserem que "o jeito é mamadeira".

3. E como "chave de ouro", recebi a notícia de que a Panda Feeding Bottle, uma mamadeira com jeitinho de urso panda, foi premiada no iF Design Talent Awards de 2018, tirando o décimo (e último) lugar. Mais uma vez, MAIS UMA VEZ um projeto de mamadeira é realizado por designers e premiado em um dos mais importantes concursos da área ... Repito: quem projeta mamadeira não pesquisou sobre os gravíssimos problemas provocados por esse produto; design sem pesquisa não é design, e sim total irresponsabilidade. Eu só fico imaginando que não havia de ter no juri desse prêmio uma mulher, uma mulher informada como aconselha a autora do artigo comentado acima, pra dar um basta nesse projeto e mandar os designers assumirem seus compromissos éticos.

Arg ... nem sei que gosto isso tem ....

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Improdutivas?!?!





Estive presente ao Seminário Estadual da Semana Mundial de Aleitamento Materno desse ano, no Auditório do Ministério da Saúde, e desejo comentar a fala de uma integrante da mesa de abertura (infelizmente não anotei seu nome, mas ela é gaúcha e representante do Governo Federal ... desculpem pela fragilidade da referência, tá?). Ao citar a questão das mulheres trabalhadoras que amamentam, uma de suas colocações ficou martelando na minha cabeça, pois alerta para uma mentalidade em vigor que precisa ser transformada:

As mães em licença maternidade são consideradas improdutivas.

Caramba ... E não é que são mesmo? De diferentes formas, a tendência geral é a de entender esse período como uma paralisação, um afastamento das atividades produtivas ...

Será que a palavra utilizada para nomear essa fase contribui pra esse entendimento? Será que a palavra LICENÇA contribui pra ideia equivocada de que nesta fase a mulher fica parada, improdutiva? Porque licenças costumam ser por motivo de doença, de impossibilidades e sempre significam uma paralisação da produtividade.

Mas a mulher que tem filho está no auge de sua possibilidade, tendo dado à luz a uma nova pessoa! Essa é a tarefa mais estrutural da humanidade. Só que a cultura capitalista faz com que ela seja considerada improdutiva ao produzir e cuidar, com proximidade, de um novo ser pra habitar esse mundo. Maluco demais, né?

Se você produz um relatório da empresa, ou projeta um edifício, ou organiza um evento, dirige um trem, opera um guindaste, cuida de pessoas doentes, limpa residências, varre as ruas, representa a população etc, você é produtiva. Mas se você gera e cuida de uma nova VIDA, é considerada improdutiva, afastada dos movimentos que movem o mundo, alheia a tudo o que acontece. Você está de licença do mundo.

Felizmente estamos em uma fase de intensa revisão de valores (questões de gênero, raça, preconceitos diversos a serem encarados). Então eu acho que devemos, também, rever o conceito de que a mulher se licencia do mundo para gerar e cuidar dos primeiros meses de uma nova vida.

Eu até tentei pensar em algum outro termo que pudesse substituir este, mas não encontrei nenhum, ainda mais porque qualquer afastamento da tarefa produtiva recebe esse nome, mesmo a licença prêmio. Mas fica a sugestão pra todo mundo pensar.

O fato é que as palavras são muito importantes, elas são definidoras, moldam as ideias que representam. Tanto que, realmente, as mulheres são consideradas e mesmo se consideram improdutivas ao cuidarem de seus filhos recém-nascidos.

Caramba ...




domingo, 15 de julho de 2018

Vida real



Na última semana tivemos notícias de extrema gravidade sobre os assuntos de interesse desse blog:

- a tentativa de Donald Trump de desestabilizar a resolução da ONU em apoiar, promover e incentivar o aleitamento materno;

- a retirada do mercado de lotes de fraldas descartáveis Turma da Mônica, um recall de fraldas - fato inédito até onde eu sei;

- a condenação da Johnson & Johnson por usar amianto em talco, isso está acontecendo há muito tempo.

Quanto a Trump, a iniciativa tresloucada não chega a surpreender diante de tudo o que ele vem fazendo. Mas o que desejo comentar é que o assunto chegou aos telejornais das redes de TV tão cuidadosas em preservar a indústria de fórmulas infantis pelo fato de ela ser um de seus fortes anunciantes. O fato abriu chance para os jornalistas dizerem -do jeito que lhes é possível dizer, que lhes é permitido dizer nessas grandes redes- que essa indústria foi uma das maiores investidoras de sua campanha à presidência dos EUA. Essa foi a informação de fechamento da ótima matéria que assisti na Globo News.

Sobre o recall das fraldas Huggies, da Kimberly-Clark Brasil, divido com vocês a informação de que o fabricante, não só ele como vários outros, recorrem a universidades para contratação de pesquisas que legitimem seus produtos, suas estratégias de projeto e de marketing. É um sistema meio velado que pode trazer bons e maus resultados.

E sobre o uso de amianto no talco, não muito recentemente fui a uma palestra sobre o assunto e reproduzo aqui algumas de minhas anotações: O amianto ou abesto é um tipo de "cabelo" da pedra, misturado com argila, gerando um material que não pega fogo, utilizado para isolar as máquinas desde a Revolução Industrial e em navios durante a II Grande Guerra. Hoje quem o utiliza são os países asiáticos e o Brasil é o terceiro maior exportador do material misturado ao cimento. Aqui ele foi muito usado em telhados de casas populares, mas hoje é banido em 11 estados. Ele provoca placas na pleura de quem o fabrica ou com ele convive em telhas e outros produtos. Em Goiás há uma mina de amianto, contra a qual diversas organizações lutam, esbarrando no terrorismo do desemprego pregado pelas empresas que argumentam que "o amianto brasileiro é melhor e não faz tanto mal". Mas a OMS afirma: não há nenhum limite seguro de exposição ao material. Veja em Associação Brasileira de Expostos ao Amianto.

Isso é o que veio à tona. O que mais não vem à tona? Produto industrial pode ser bacana
, mas ele não é virgem, não é perfeito, não é inocente.

domingo, 3 de junho de 2018

Estudar é preciso



Assisti à primeira temporada da série australiana Turma do peito (The Letdown), disponível na Netflix.

Minha primeira reação foi ficar atônita com a situação desesperadora daquelas famílias, mas depois fui acatando o fato de que ter filhos hoje é completamente diferente de há 30 anos atrás, quando passei pela experiência.

Eu sempre quis ser mãe e isso foi acontecer láááá quando pensava-se ser o limite final para isso (eu engravidei com 29 anos e com 30 anos isso se tornava muito perigoso). Tive baixa de progesterona, tendo que colocar supositórios diários que vinham de São Paulo. Fui proibida de encarar a hora do rush, indo e voltando do trabalho no centro do Rio de táxi, em horários alternativos. Tive baixa séria de ferro, cuidando super da minha alimentação e tomando injeções diárias nos últimos três meses e tendo que escalar minha irmã para uma possível necessidade de transfusão na hora do parto. Queria parto normal, mas o obstetra me enganou, dizendo que eu tinha um problema que eu nunca tive e que meu bebê correria sério risco caso não optasse pela cesariana. Essa foi a gravidez: tensa, crédula e longa.

Na segunda temporada da série, à qual ainda assistirei, a personagem principal terá um segundo filho e, então, a fase de espera de um bebê será certamente contemplada. Mas a primeira temporada tratou de bebês nascidos. Então faço um parágrafo de como isso foi pra mim, há quase 30 anos, pra depois comentar sobre os dias de hoje.

"Entrei numas". Marquei o parto pro dia 7, às 7h, exatamente um mês depois do aniversário de meu marido (sempre simpatizei com o número 7!). Acordei na maior paz. Minha filha nasceu às 7:12h e foi naquele momento que eu comecei a realmente curtir a ideia de ser mãe (porque antes disso tinha sido muito stress). Ficamos três horas separadas, foi um suplício. Mas quando ela chegou ao quarto, eu a coloquei no peito e ela mamou. E mamou, e mamou que foi uma beleza. Embora eu não tivesse exatamente um exemplo de que era bom fazer isso (eu na verdade achava aquelas mulheres das Amigas do Peito umas hiporongas! imagina isso! eu que hoje sou fã delas!), eu simplesmente fiz. Livros? Eu tinha um, todo velhuxco, do Dr. Spock (sei lá se é assim que se escreve), e confesso que não devo te-lo consultado uma única vez. Tudo foi simplesmente acontecendo e a gente encarando as alegrias e brabeiras de toda a situação. E a menininha foi crescendo e a gente também.

E como as coisas acontecem hoje? Caramba ... estou apta a comentar porque ganhei um netinho há pouco, filho de meu enteado, tendo acompanhado todo o processo.

Se eu tinha um livro, hoje são inúmeros. Tem internet, APPs, uma profusão enlouquecedora de informações que "brotam do chão". Hoje existe uma consciência muito maior da importância do aleitamento materno, mas tem gente que trabalha sério nessa conduta, aqueles que fingem trabalhar sério e quem valoriza os lançamentos da indústria, o que acaba sendo coerente com o enlouquecimento de nossa realidade.

Minha conclusão? Parece que ter filhos se tornou uma coisa muito mais complicada mesmo!!!!! Você percebe que as maluquices que acontecem na série são reais!

Qual a saída? Eu me arrisco a dizer que pode haver uma saída bastante razoável pra esse delírio de informação, de realidades e de demandas. Acho importante estudar, em fontes seguras como OMS, Unicef, colocando-se a par do que está rolando no mundo. Lá estará defendida a amamentação.

E quando chegar a hora H, tentar. E se não rolar direito, pedir ajuda em lugares confiáveis com os bancos de leite. Insistir e acreditar. Noites insones todos já causamos aos nossos pais. E a indústria estará lá querendo te conquistar a qualquer preço, tenha certeza disso.

Se de todo não rolar, pelos motivos que são muitos e que ninguém tem competência pra enumerar, a história é sua. Mas certamente aquilo que você estudou vai blindar suas atitudes e escolhas, fazendo com que ao invés de embarcar com tudo naquilo que insistem em te dizer que é bom, você saiba o que está fazendo, e que está fazendo o melhor possível.

Estudar é preciso.


domingo, 29 de abril de 2018

E segue a indústria a nos cercar de novidades



Não param de surgir novos modelos de mamadeira. E eu não paro de me perguntar como é possível profissionais (dentre eles meus "colegas" designers) seguirem ignorando solenemente a imensa quantidade de informações disponíveis, de fontes hiper confiáveis, sobre os males que esse produto provoca, para prosseguirem sendo guiados pelos atrativos do sucesso mercadológico.

O lançamento da vez é a Collapse and go, cujo conceito se pauta na praticidade, facilidade de armazenamento e portabilidade. É que ela é um fole que encolhe, colapsa e pronto! Eles dizem: por que prosseguir com modelos tradicionais, se essa é tão inovadora a ponto de você poder carregá-la no bolso? Mas para que uma pessoa há de carregar no bolso uma mamadeira vazia?



No texto promocional, argumentam que "a forma é uma reminiscência do seio de uma mãe, tornando mais confortável para o seu bebê usar! Além disso, possui um design anti-cólico." O que é um design anti-cólico? Quais hão de ser os atributos de um design anti-cólico? E ... reminiscência do seio da mãe? Ou simulacro de desentupidor de pia?


Listagem de suas qualidades: cresce junto com a criança (!), BPA Free, Organic "Like Mom" Shape (!) ....




O fato é que essa flexibilidade do corpo, proporcionada pelo fole, agrava as dificuldades de higienização. Multiplicam-se, em cada dobra, os cantinhos para que as bactérias se escondam e se multipliquem, ainda mais com a natureza do silicone, que por menos que percebamos, tem poros e tendência a ficar "colante" com o tempo.

O problema é que as pessoas confiam na indústria. E que para a indústria trabalham pessoas que não pesquisam (ou que simplesmente dão de ombros para os graves alertas das agências internacionais de saúde).

 

domingo, 22 de abril de 2018

É super importante, Super Interessante



O artigo Leite materno: a bebida mais valiosa do mundo, publicado na revista Super Interessante, de Amarílis Lage, edição de abril, é excelente.

Completo, com depoimentos do premiado epidemiologista Cesar Victora e do pediatra Roberto Issler, dentre outros, nos traz um alento ao ver o tema tratado com o cuidado que ele merece.

Mas a imagem que ilustra a matéria decepciona ... por quê a mamadeira ao invés de uma mãe amamentando? A mamadeira e muitos símbolos de riqueza, como o diamante, as barras de ouro, o saco de moedas e o porquinho estão ali para ilustrar o grande valor do leite materno ...



É preciso apontar o quanto é equivocada essa imagem, o quanto ela contribui para prosseguir valorizando a cultura da fórmula artificial e da mamadeira.

É preciso atenção com as imagens.

Imagino que a intenção de todos (ilustrador, redatora, editores) tenha sido a melhor possível, dada a qualidade da matéria. Mas a presença da mamadeira contradiz a mensagem, demonstrando o quanto esse produto tem lugar cativo em nossas mentes para a representação da alimentação de bebês. E o efeito de sua presença é a perpetuação (subliminar) de seu lugar na cultura.

O emoji que abre esse post é um exemplo do quanto imagens de amamentação, ao serem disponibilizadas, têm sido acolhidas com alegria pelas pessoas.

Dou a maior força pra que fiquemos todos atentos com as representações. Elas são importantíssimas.

domingo, 11 de março de 2018

Textos. O que querem os textos?



O post de hoje é pra comentar o quanto, sem perceber, recebemos notícias que podem nos influenciar à adesão a correntezas de mercado que nos conduzem à realização do interesse de outrem.

Há alguns dias, recebi de um amigo, pelo zap, o link para a matéria Como a invenção do leite em fórmula revolucionou o mercado de trabalho, publicada no site da BBC.

Interessada, parti para a leitura. Já pelo meio da coisa comecei a identificar a presença de sinais muito mais ou menos no artigo, suspeitando da presença de intenções comerciais nas entrelinhas, mas também nas próprias linhas do texto. Ao voltar para o cabeçalho e constatar a ausência do nome do autor, decidi dedicar mais tempo à questão.

Hoje reli o texto e investiguei um pouco mais, deparando com características de publicação que serviram para agravar minha suspeita inicial:

- o artigo se apresenta de maneira idêntica (com as mesmas fotos, nas mesmas posições de diagramação) em vários sites confiáveis enquanto fonte de informação: BBC Brasil, Folha. UOL, Terra, News Below e Brasil News;

- a forma é tão igual, que lá pelas tantas surge um subtítulo em inglês - Rigorous study - que nos parece um errinho na edição, mas que também pode ser entendido como uma forma subliminar de impressionar o leitor quanto à seriedade da informação que ali está, pelo recurso do uso da língua inglesa, que aprendemos a respeitar mais do que qualquer outro idioma, a adjetivar o conteúdo apresentado;

- em nenhuma dessas publicações o texto está assinado. Não tenho certeza, mas acho que isso caracteriza as "matérias compradas", que são artigos escritos por empresas que pagam por sua publicação.


Sugiro que, antes da decupagem que vou realizar agora, o texto seja lido por vocês. O fato é que ele está totalmente palatável, simples e aceitável, e é justamente esse o problema: a gente tende a absorver naturalmente seu conteúdo sem questioná-lo.

Vou fazer então uma pinçagem de trechos da matéria, demarcando o modo com que foram redigidos e encadeados.




Após o título, vem imediatamente a data (julho de 2017) e essa foto de mamadeira aparece com  o crédito da Getty Images, importante banco de imagens.

É então narrada a erupção do Monte Tambora, na Indonésia, em 1815, que provocou o bloqueio da luz do sol no hemisfério norte devido à espessa nuvem de cinzas que as explosões produziram. A agricultura entrou em colapso, trazendo grave escassez de alimentos às populações. O desejo do químico alemão Justus von Liebig em prevenir a fome, conduziu-o a criações como fertilizantes, extrato de carne e, em 1865, à Comida Solúvel para Bebês, "pó feito à base de leite de vaca, farinha de trigo e bicarbonato de potássio".


Agora passo a citar o artigo (os grifos são meus):

"Era o primeiro substituto comercial para o leite materno derivado de um estudo científico rigoroso. Liebig sabia que nem todo bebê tinha uma mãe capaz de amamentá-lo".

O texto descreve que naqueles tempos ("antes da modernização da medicina"), muitas mães morriam no parto e que "algumas mulheres tampouco conseguem produzir leite suficiente - estudos sugerem que o problema pode atingir uma a cada 20".

Comento: Essas frases se referem ao passado (séc. XIX), mas suas palavras são inclusivas às mães de agora. Tão inclusivas, que em uma delas o autor emprega o Presente como tempo verbal (algumas mulheres tampouco conseguem produzir leite suficiente), emendando com um dado pretensamente científico, mas vago, de que estudos sugerem ... Quais estudos? Não é fornecida nenhuma informação. Realmente há mães que não conseguem amamentar, claro, mas guardemos essa frase no Presente e continuemos na leitura.


Seguindo, surge uma indagação que faz a primeira relação com o tema da matéria, a revolução do mercado de trabalho:

"O que acontecia com os bebês, então, antes da invenção da fórmula?" A tarefa das amas de leite é citada, assim como o recurso do leite de cabra, papas de pão e água "servidas em recipientes difíceis de limpar - e possivelmente infestados de bactérias", fator que é utilizado para justificar que um índice altíssimo de bebês não amamentados tenha morrido precocemente naquela época. Este é um alerta claro à falta de higiene. Mas vejamos como prossegue o texto:

"Coincidentemente o bico de mamadeira acabara de ser inventado. E como as pessoas já sabiam da existência de germes, a fórmula rapidamente alcançou um mercado maior do que apenas o de mulheres que não podiam amamentar".

Comento: O texto diz que as pessoas, já cientes da existência dos germes, foram aderindo à fórmula mesmo que pudessem amamentar. A mensagem transmitida, então, é a de que o receio dos germes e do seu potencial de infecção fez com que a sociedade substituísse a amamentação pela fórmula, mais "higiênica", mais "limpa" do que o seio materno. E vejam, a menção aqui não foi às amas, e sim às mulheres que podiam amamentar e optaram por não fazê-lo.


Seguindo:

"A Comida Solúvel para Bebês democratizou um estilo de vida anteriormente apenas disponível para os mais abastados".

Comento: Antes, o oculto autor da matéria havia dito que apenas os mais ricos tinham como contratar amas de leite. Que seja. Mas a fórmula não democratiza aquele estilo de vida de entregar os filhos ás amas. A fórmula é um novo tipo de procedimento para alimentar bebês, por intermédio da mamadeira. A frase mistura as duas ideias - que precisariam ser explicitadas - numa síntese que se vale de termos como democratizou, que têm muito apelo para o leitor. Mas são dois estilos de vida diferentes: entregar o bebê para a ama é um deles; alimentar o bebê com fórmula é outro. O efeito disso, em nossa leitura, é considerar a fórmula democrática, não mais restrita às famílias mais abastadas. Ou seja, uma informação truncada...


Seguindo:

"Trata-se de uma opção que moldou o mercado de trabalho moderno. Para muitas novas mães que querem - ou precisam - voltar a trabalhar, a fórmula é uma dádiva. E mulheres têm razões para se preocupar com a ausência do trabalho e sobre como tudo isso pode afetar suas carreiras".

Comento: A rigor, não há mentiras aqui. Sabemos o quanto essa situação se fez real, por mais perversa que seja. Mas adjetivar a fórmula como uma dádiva é sintomático dos interesses da matéria. Ainda mais quando a frase seguinte aponta o risco de as mulheres mães perderem seus trabalhos e ferrarem com sua carreira. No meu entender, o texto é direto, dizendo sem meias palavras: _ Ou você adere à fórmula ou a sua vida profissional dança. E tudo isso é dito antes de o artigo se referir à questão da licença maternidade, ao fato de que o leite materno é insuperável em qualidade para a saúde do bebê. Apenas depois dessa "sensibilização" ao uso da fórmula e da mamadeira é que virão informações sobre tais pontos.


Mais adiante, sob o subtítulo "Fosso salarial", o texto diz que, ao formar uma família, as mulheres têm mais motivos para se ausentar do trabalho do que os homens, comentando que países escandinavos dão licenças-paternidade mais extensas. E emenda:

"O leite de fórmula torna muito mais fácil para o pai assumir o controle enquanto a mãe vai trabalhar. Claro, existe a opção da bomba-extratora de leite materno. Mas, para alguns, isso é mais complicado do que usar a fórmula".

Comento: Alguns países têm como política de Estado a concessão de longas licenças que podem ser administradas, em sua duração, pelo homem e pela mulher que tiveram um filho (na Suécia a duração da licença é a mais longa: um ano e quatro meses). Nesses lugares (incluindo os demais países escandinavos - Dinamarca, Islândia, Finlândia, Noruega) entende-se ser um investimento social, político, econômico e ambiental proporcionar condições favoráveis ao casal que gerou uma criança. Mas o texto se vale desse fato para afirmar que a fórmula é muito mais fácil de ser administrada pelo pai que assume os cuidados com o bebê na licença que lhe é concedida. E antes que o leitor se lembre de que a mãe poderia retirar seu próprio leite para o pai dá-lo à criança, o texto se apressa em dizer que "para alguns, isso é mais complicado do que usar a fórmula".

Devo dizer que, nesse ponto da leitura, eu já estava convencida de que a matéria havia sido escrita por encomenda da indústria de leites artificiais e que nada seria dito sobre a superioridade do leite materno, sobre a diretriz mundial de defesa a amamentação...

Mas eis que algumas frases vêm me surpreender, fazendo referência a estas informações, inclusive citando a revista científica The Lancet, onde recentemente foram publicadas pesquisas de sumo interesse sobre o assunto. Frases curtas, parágrafos curtos onde ideias complexas são tratadas como anotações ..., menção a fabricantes de fórmulas inescrupulosos logo seguida de um tipo de mea culpa da Nestlé, que ao anunciar que adotaria as recomendações da Organização Mundial da Saúde foi "a primeira empresa do mundo a fazê-lo".

Bom, se eu estava tendendo a pensar que, tal-vez -pelo fato de o artigo ter tratado, mesmo que em pinceladas, do valor do leite materno, da revista científica e da OMS- a indústria não estivesse por trás do texto, voltei atrás depois dessa frase que coloca a Nestlé num podium: "a primeira do mundo a fazê-lo".

Seguindo:

"Mas recomendações não são leis, e ativistas argumentam que ainda são ignoradas ao redor do mundo".

Comento: Que frase é essa? O Código Internacional de Controle de Substitutos do Leite Materno, em toda a sua importância, é reduzido na frase a um "conselho", e ativistas ... quem são eles? talvez uns agitadores que reclamam ...


Então o fechamento do artigo, no subtítulo Rede de abastecimento:

"Mas se houvesse uma forma de termos o melhor dos dois mundos: oportunidades iguais para mães e pais, e leite materno para os bebês sem as complicações da extração? Talvez já haja.

No Estado de Utah (EUA), há uma companhia chamada Ambrosia Labs. Seu negócio? O comércio de leite materno: a empresa paga mães ao redor do mundo por seu leite e, depois de testar a qualidade, vende para mães americanas.

Custa caro - cerca de R$ 315 reais o litro -, mas esse custo poderia diminuir com a ampliação do serviço. Governos também poderiam aplicar impostos sobre a fórmula para subsidiar o leite materno.

Nem todo mundo aprova a ideia. O governo do Camboja, um país em que Ambrosia operava, baniu as exportações de leite materno.

Mais de 150 anos depois de Justus von Liebig praticamente extinguir a profissão de ama de leite, a cadeia de suprimentos global pode acabar ressuscitando-a".


Vamos por partes.

Ambrosia. Ambrosia é o doce que eu mais amo nesse mundo! Durante toda a minha vida, no dia do meu aniversário, minha mãe fazia ambrosia, o doce mais delicioso do mundo, à base de ovos, leite e açúcar.

Mas fui procurar o significado que essa palavra tem para justificar sua adoção em uma empresa que comercializa leite materno: alimento dos deuses do Olimpo, que concedia e mantinha a imortalidade.

A companhia Ambrosia Labs paga às mães por seu leite para vendê-lo a mulheres americanas.

Eu e muita gente já sabíamos disso. Sabíamos também que grandes corporações estão tentando identificar os inúmeros componentes do leite materno, considerado o melhor alimento do mundo, para reproduzi-los sei lá como e vendê-los.

Sempre a venda, o comércio.

O que pensar sobre a comercialização do leite materno?

O artigo lança palavras ao vento pra que a gente ache que isso é uma saída incrível, maravilhosa, revolucionária.

É? Vendemos ou doamos sangue? Vendemos ou doamos órgãos de um parente morto?

Vende-se esperma. Alugam-se barrigas para gerar crianças. Isso já é naturalizado em muitos lugares do mundo.

Enfim, pensemos nós sobre a questão.

Cuidado com textos.




sábado, 24 de fevereiro de 2018

Agentes e mamadeiras usam capas

Eu fui olhar quais novidades a indústria de mamadeiras vem lançando, como faço volta e meia.

Encontrei algumas, mas logo de cara deparei com um monte de mamadeiras novas com CAPA.

Logo me lembrei de meu pai a nos corrigir a grafia: "a gente, somos nós; agente usa capa". Pois informo que, além dos agentes, as mamadeiras também usam capa agora. Às vezes pra viabilizar que produtos de vidro (material mais recomendado) sejam segurados pelas crianças com menor risco de acidentes (quebra), mas muitas outras vezes as mamadeiras com capa são plásticas mesmo, e a capa vem pra adicionar ao objeto o aspecto lúdico. Eu diria que essa "ludicidade" é direcionada aos pais.

Vejam as capas para mamadeiras de vidro. Os recortes e relevos no silicone têm finalidade ergonômica também, evitando que o objeto deslize nas mãos da criança e isolando termicamente o toque:



Agora as mamadeiras plásticas com capa. Acessórios ... só faltou o echarpe para os pinguins!







Plástico, silicone, vidro, colorido, gracinhas formais ... Não deixe de tentar o recurso da imagem a seguir: 
_ a "embalagem" mantém o alimento em perfeitas condições nas 24 horas do dia; 
_ o alimento é considerado o melhor do mundo, fabricado na hora; 
_ e é grátis. 



Capa quem usa é agente.


sábado, 13 de janeiro de 2018

Mamadeira: modos de ver






Tenho muito interesse por História, mas principalmente pela história das pessoas que viveram os momentos históricos.

De uns anos pra cá, quadrinistas como Ars Spilzman e Joe Sacco vêm se dedicando a fazer esses registros, Spilzman com a famosa HQ Maus, que trata da relação entre judeus e alemães durante a Segunda Guerra Mundial, e também do 11 de Setembro (NY), e o segundo fazendo incursões muito impressionantes durante a Guerra da Bósnia e também na Palestina. Esse trabalho de relato da realidade histórica recebe o nome de Reportagem em Quadrinhos.

Hoje quero falar de um lançamento recente (2017) que quadriniza o Diário de Anne Frank. Super-recomendo a leitura para jovens e adultos, pois a consagrada obra nos fala sobre o que aconteceu, pelo olhar de uma menina de 14 anos. Delicado e perspicaz, o relato de seus dias no esconderijo, em Amsterdã, durante a Segunda Guerra, é capaz de manter vibrantes fatos que não podem ser esquecidos.

Atenta que sou sobre a questão das mamadeiras, deparei com a página abaixo, que desencadeou em mim algumas reflexões.


Amplio as imagens:



Anne refletia sobre o quão injusto era considerar a mulher como cidadão de "segunda classe" perante os homens, estes sim valorizados por sua liderança e coragem: "As mulheres, que sofrem e suportam a dor para garantir a continuação de toda a raça humana, seriam soldados muito mais corajosos do que todos aqueles heróis falastrões, que dizem lutar pela liberdade juntos", diz ela.

A imagem é forte. Como se a gestação, o parto, os cuidados com o filho durante a infância e a adolescência, estivessem fadados à geração de soldados para as frentes de batalha, onde imperava a perspectiva de uma morte precoce.

Logo abaixo, a manifestação de seu alívio, a mudança positiva que se processava na sociedade:


Na imagem, uma oficial graduada ensina a uma turma de soldados, incumbidos dos cuidados aos bebês, sobre as propriedades e o uso da mamadeira.

Compreendo que a publicação se dedica a dar visualidade às ideias de Anne Frank, reproduzidas com fidelidade pelos textos.Ou seja, a autora do Diário não cita as mamadeiras, mas os realizadores da HQ a utilizam para ilustrar um certo contentamento de Anne com mudanças que "abriram os olhos das mulheres", relativas à educação, o trabalho feminino e o progresso, concedendo-lhes espaço para pleitear "o direito de ser completamente independentes".

A gente precisa se transportar para aquela época pra entender como um objeto, um produto, conseguiu reunir atributos e representar valores tão ansiados pelas mulheres. Presas à função de alimentar os filhos ao seio, ou aos filhos dos outros, como amas-de-leite, às mulheres se abriram novas perspectivas e oportunidades sociais por intermédio do produto, que as libertava de amarras que até então pareciam eternas.

Mas, consultando minhas anotações e as confirmando na internet, chegamos a dados importantes que, desde aquela época, comprometiam seriamente a mamadeira e os leites artificiais:

- entre 1899 e 1902 -portanto muito antes da Segunda Grande Guerra, foi constatado que 50% dos homens jovens da Grã-Bretanha -arregimentados para a Guerra dos Boers, estavam inaptos para o serviço militar, devido a uma "deterioração física nacional" provocada pela administração de leite em pó desnatado àquelas outrora crianças que então se alistavam (Mike Miller, The Baby Killer, 1995:49). A mamadeira industrial já existia naquela época;
- em 1946, um inquérito da Dra. Margaret Robinson, relatou que a taxa de mortalidade de bebês amamentados no primeiro ano de vida em Liverpool - Inglaterra, era de 10,2 por mil, enquanto a de bebês alimentados por mamadeira alcançava a cifra de 57,3 por mil.

Essas informações não chegavam às pessoas, ficando restritas a círculos militares e científicos.

Então nos transportemos de volta aos dias atuais, quando temos acesso facilitado -caso a gente queira- a informações sobre a superioridade da amamentação e os riscos da alimentação artificial de bebês.  Eu tenho assistido, pessoalmente, a situações em que se recorre à mamadeira depois de esgotar as possibilidades de uma amamentação natural, com mães cientes de seus perigos mas aliviadas por, finalmente, verem seus filhos engordarem como se espera.

Sinceramente? Estou pra ver outro produto que tenha conseguido criar lugar tão cativo na mentalidade social, apesar dos riscos que acarreta ... 

Mas isso está mudando.

Está mudando.