sábado, 5 de junho de 2021

Não dá pra ignorar esses fatos


Há uns poucos anos eu recebi em casa o técnico que avaliaria um defeito na impressora. Figura simpática, me viu em meio à papelada de preparação de um artigo sobre os problemas da mamadeira e papeamos um pouco sobre o assunto (eu nunca perco a chance).

Ele ficou muito surpreso com o que lhe contei ... e deu o diagnóstico da impressora: "_Precisarei levar um teste de impressão para ilustrar o problema e volto com a peça um outro dia". E como eu nunca perco a chance, imprimi então a arte-final do cartão de visitas aqui do blog no tal teste. Daí ele me disse que conversaria com sua prima, que coincidentemente era funcionária da Nestlé.

Na semana seguinte voltou e consertou a impressora. E me contou que a prima veio ao blog, ficou horrorizada com as coisas que encontrou sobre a empresa para a qual trabalha e, em conversa telefônica com uma colega da sede suiça indagou: "_ Isso tudo é verdade?". Ao que a indagada respondeu: "É".


Essa história me veio à memória durante a semana, quando soube da matéria do El País sobre o vazamento de um DOCUMENTO INTERNO DA NESTLÉ que reconhece que mais de 60% de seus produtos não são saudáveis e "nunca serão saudáveis".

Vamos aqui lembrar do slogan "NESTLÉ FAZ BEM", e que a indústria se autodenomina "autoridade máxima em nutrição".

Só que quatro categorias de produtos ficaram de fora dessa avaliação de tão graves resultados: nutrição infantil, ração para animais, café e nutrição médica. Imaginem se tivessem sido incluídas no estudo...

Repito então aqui um documentário que ilustra como e quanto os produtos de nutrição infantil fazem mal. A gente não pode ignorar esses fatos.





terça-feira, 20 de abril de 2021

Minha trajetória rumo à pesquisa sobre os problemas da mamadeira


 É com alegria que compartilho a ENTREVISTA que dei à Editora PUC-Rio sobre a trajetória que me conduziu ao desenvolvimento do livro "Amamentação e o desdesign da mamadeira" e à minha atuação desde então (não consegui colocar aqui o vídeo para abertura, mas o link funciona).


segunda-feira, 8 de março de 2021

Que imagem!



Outro dia deparei com essa foto no Instagran de uma amiga e me apaixonei. O momento exato, a família inteira: mãe, pai, bebê, irmã e talvez a avó que a ampara com a mão.

São as mãos do pai que recebem a criança. A posição das pernas da mãe sugerem delicadeza e tranquilidade. A menina viu tudo acontecer e é a primeira a visualizar o irmão. Tem uma naturalidade muito linda em tudo, até nos dedos do pé da mãe que se apóiam na borda da banheira e aqueles da mão (que mal aparecem) firmando a própria coxa; na sandália com meias do pai; na menina de calcinha agachada e atenta. Lindos cinzas, lindas luzes. Um instantâneo pulsante de vida.

A imagem é da fotógrafa holandesa Marijke Thoen e foi premiada em 2016.

Pesquisando um pouco, soube que esse é um corte da imagem inicial, que incluía a mãe de corpo inteiro e que viralizou no Facebook de tão especial. Porém a foto foi removida pela rede social sob o argumento de que o mamilo da mãe aparecia (!), e a conta de Marijke foi bloqueada por 24 horas. Segundo a notícia, o que ocorreu foi o enquadramento da imagem na regra que diz "removeremos fotos com pessoas mostrando seus órgãos genitais ou fotos com nádegas totalmente visíveis. Também limitamos a exibição de seios mostrando o mamilo". Impressiona o quanto essa interpretação é rasa no caso. E em quantos mais não será ... (quando fiz aqui um post sobre a gravidez da tenista norte-americana Serena Williams, também tive minha conta bloqueada na mesma rede social). 

Mas o fato é que esse enquadramento, mais vertical, ficou lindo demais: rico em significado, parecendo que o momento está acontecendo no mesmo instante em que o miramos.




sábado, 23 de janeiro de 2021

De como se ensinava mulheres a fazerem partos no séc. XVIII





Ja faz bastante tempo que guardo essa imagem. Eu a vi solta, em algum lugar, e apenas agora me dediquei a investigar sua origem. A busca foi pelo Google Images e demorou um bom tempo, mas a encontrei. E junto com ela uma história de extrema dedicação e luta de Angélique Marguerite du Caudray.

Dentre os materiais que encontrei, recomendo a leitura do Artigo de Rebecca Halff: sintético, rico e muito informativo. Mas conto um pouquinho.

Madame du Caudray -como era conhecida-  se formou pela Faculdade de Cirurgia de Paris como parteira credenciada, e em 1769 lançou um pequeno livro, desses que cabem no bolso de qualquer avental, sob o título Abrégé de l'art des accouchements (Compêndio da arte do parto). Quisera termos acesso a uma publicação assim! Vejam só uma das lindas ilustrações:



Naquela época, as mulheres perdiam para os médicos obstetras a função de ajudar a nascer bebês. Enquanto aluna da Faculdade, Madame du Caudray ainda presenciou a prática de acesso livre a mulheres não matriculadas nas palestras de cirurgia. Mas elas acabaram sendo proibidas de frequentá-las. São na verdade muito impressionantes as mudanças sociais que se operam na sociedade, os artifícios empregados, a retirada paulatina do poder dos membros da comunidade em agirem como tal, como comunidade ...

Só que, além do livro, ela desenvolveu também Modelos de ensino do aparelho reprodutivo feminino, o que representa uma iniciativa de vanguarda dessa médica. Seguem as imagens:







Os modelos são em escala real, produzidos por ela.

Todo mundo já foi aluno aqui. A gente sabe muito bem a diferença que faz estar diante de um modelo tridimensional e de uma explicação teórica ou de desenho esquemático bidimensional. Poder pegar na coisa, dispor de partes anatômicas removíveis, ter diante dos olhos e das mãos um simulador realmente compreensível daquilo que queremos aprender é o que de melhor se pode dispor para adquirir conhecimento acerca de algo tão denso de emoções, incertezas, dor e esperança.

O artigo recomendado acima nos conta que, a pedido do Rei, Madame du Caudray foi para o interior, ensinar às mulheres do ambiente rural a fazerem partos, pois muitos bebês estavam morrendo por inabilidade das parteiras de lá.

Para fechar a história, um daqueles dados que nos fazem "cair das núvens" pra ter que encarar a realidade: a preocupação, na época, era a de "fabricar futuros soldados"...

Fica o brilhantismo dessa médica que há de ter contribuído para salvar muitas vidas, ensinar esse ofício primordial às mulheres e nos encantar com a arte de ensinar.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Leite de peito e leite de lata


Os índices de amamentação cresceram no Brasil, mas a indústria de fórmulas lácteas prossegue sofisticando suas estratégias para poder continuar lucrando. Duas recentes matérias nos trazem informações importantes. 

A primeira delas, publicada pela Radis (Fiocruz) em 4 de dezembro, divulga os resultados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil, empreendido pela Fundação, UFRJ, UERJ e UFF, em parceria com universidades e instituições públicas de todo o país. O estudo surge 14 anos depois do último levantamento realizado sobre o assunto e demonstra que o aleitamento materno exclusivo para bebês menores de seis meses subiu de 37,1%  para 45,7%. Outro indicador, esse bem mais expressivo, aponta que o aleitamento materno exclusivo até os quatro meses subiu de 4,7% em 1986 para 60% em 2019.

Tais resultados se devem a muitos fatores, dentre eles o programa de extensão da licença maternidade de quatro para seis meses, a expansão daos Bancos de Leite Humano, a certificação de Hospitais Amigos da Criança, os efeitos da atenção primária em saúde e a institucionalização da Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes, Crianças de Primeira Infância, Bicos, Chupetas e Mamadeiras (NBCAL). Pode-se acrescentar aqui o permanente e apaixonado trabalho da sociedade civil: os grupos de mães, o trabalho das doulas, dos obstetras, enfermeiros e pediatras comprometidos em proporcionar um início auspicioso para as crianças e suas famílias, e tantas outras iniciativas que eu nem saberia enumerar.

Imagino que um levantamento desses seja de realização bem mais complexa do que as de pesquisas de opinião para eleições, ou as de nível de popularidade de governantes, mas um hiato de 14 anos para verificar um quadro de tamanha importância é demais! Eu me lembro do alívio e alegria que os integrantes do grande comitê organizador (do qual eu fazia parte) do Encontro Nacional de Amamentação (ENAM 2019) -que agregou também a convenção mundial sobre o tema- expressaram ao saber que o Estudo havia sido autorizado. Tudo nesse campo parece ser resultado de muita luta.

Depois de quatro dias, foi publicada no site O Joio e o Trigo a matéria Pesquisa do Joio com mães confirma pressão para substituir leite materno e muita influência da indústria. Daí eu penso em como a luta é difícil ..., e continuará a ser ... e no quanto são valiosas as notícias divulgadas no Estudo do primeiro artigo que citei aqui. Pra dizer a verdade, eu sei -a cada dia, de cada vez mais mães que amamentam. Os jovens estão, sem dúvida, cada vez mais bem informados. É importante que estejam, porque a indústria é poderosa e não age sozinha, como atesta a matéria:

"Na pesquisa do Joio, realizada entre 14 e 21 de outubro, mais da metade das mulheres relatou ter sido desestimulada a amamentar por um profissional de saúde. Quase 75% recebeu a recomendação médica de usar a fórmula infantil e 42% declarou ter usado o produto antes da criança completar seis meses de idade, período em que o ideal é a amamentação exclusiva. Nestlé e Danone estão na dianteira das marcas mais utilizadas".

Então a gente percebe o sentido da palavra LUTA, porque mesmo decididas a amamentar, as mulheres são desestimuladas a fazê-lo, e por ninguém menos do que aqueles profissionais que teriam que compreender sua vulnerabilidade e incentivá-las a realizar o que tão bem haviam planejado fazer.

Eu sou designer e sempre me encantou o potencial da indústria e seus processos. Mas isso, gente, é crime.; a ganância pelo lucro auxiliada pelo marketing é inominável. Porque como diz o cartaz da WABA (World Alliance for Breastfeeding Action) de 2007 para a Semana Mundial de Aleitamento Materno que ilustra esse post, bebês morrem.





sábado, 14 de novembro de 2020

Boneca espanhola que mama no peito saiu de linha


Recentemente tive a notícia de que o Bebé Glutón - primeira e única boneca industrial que simula mamar no peito - saiu de linha. Já falei bastante sobre ela aqui no blog. Assista ao video de demonstração

Lançada em 2019 pela fábrica de brinquedos espanhola Berjuan, foi concebida com o apoio da União Européia no intuito de contribuir para a mudança nas baixas taxas de aleitamento verificadas naquele continente. Recebida com surpresa pelo mercado de brinquedos e pelo público, causou controvérsias mas também foi premiada: quanta ousadia interferir em um mundo em que todas as bonecas tomam mamadeiras! 

Quando eu soube da novidade, quase não acreditei, mas tive a chance de visitar a fábrica em uma viagem e ouvi de seus proprietários/criadores que o sistema de funcionamento da boneca é simples. Movida à pilha, a aproximação da boca da boneca aos sensores presentes na blusa a ser vestida por quem com ela brinca, promove a "mágica". E fiquei boba de pensar na força do lobby pró mamadeiras e leites artificiais que há de ter bloqueado essa criação por tanto tempo, fazendo com que a gente pensasse ser impossível uma boneca mamaer no peito. 

Bom, o fato é que a cultura da mamadeira parece estar vencendo também essa batalha. A inovadora fábrica, protagonista de outros lançamentos revolucionários no setor (como a boneca careca com quem as crianças em tratamento contra o câncer podem se identificar e cujas vendas revertem em apoio aos hospitais que as tratam), tirou o Bebé Glutón de linha e exibe em seu catálogo ainda mais modelos munidos de chupetas e mamadeiras. 

Vale dizer, também, que a indústria não conseguiu exportar o brinquedo para o Brasil quando de seu lançamento. Provavelmente porque, além de poder atrapalhar a cultura do desmame precoce, nossa produção industrial nesse setor foi gravemente afetada pelas importações de produtos chineses e seus preços competitivos há muitos anos. 

Fica a tristeza ao constatar mais essa demonstração de força daqueles que ludibriam a população ao dizer que seus leites são iguais ou até superam a qualidade do leite humano, mas também a certeza de que uma boneca pode mamar no peito, além da esperança de que ela um dia volte a ser fabricada e comercializada.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Live na Faculdade de Saúde Pública da USP

A convite da nutricionista Viviane Laudelino Vieira, professora da USP, apresentei a palestra Amamentação X Cultura Industrial, junto às professoras da UFF e menbros da IBFAN Maria Inês Couto de Oliveira e Enilce Sally.