sábado, 13 de janeiro de 2018

Mamadeira: modos de ver






Tenho muito interesse por História, mas principalmente pela história das pessoas que viveram os momentos históricos.

De uns anos pra cá, quadrinistas como Ars Spilzman e Joe Sacco vêm se dedicando a fazer esses registros, Spilzman com a famosa HQ Maus, que trata da relação entre judeus e alemães durante a Segunda Guerra Mundial, e também do 11 de Setembro (NY), e o segundo fazendo incursões muito impressionantes durante a Guerra da Bósnia e também na Palestina. Esse trabalho de relato da realidade histórica recebe o nome de Reportagem em Quadrinhos.

Hoje quero falar de um lançamento recente (2017) que quadriniza o Diário de Anne Frank. Super-recomendo a leitura para jovens e adultos, pois a consagrada obra nos fala sobre o que aconteceu, pelo olhar de uma menina de 14 anos. Delicado e perspicaz, o relato de seus dias no esconderijo, em Amsterdã, durante a Segunda Guerra, é capaz de manter vibrantes fatos que não podem ser esquecidos.

Atenta que sou sobre a questão das mamadeiras, deparei com a página abaixo, que desencadeou em mim algumas reflexões.


Amplio as imagens:



Anne refletia sobre o quão injusto era considerar a mulher como cidadão de "segunda classe" perante os homens, estes sim valorizados por sua liderança e coragem: "As mulheres, que sofrem e suportam a dor para garantir a continuação de toda a raça humana, seriam soldados muito mais corajosos do que todos aqueles heróis falastrões, que dizem lutar pela liberdade juntos", diz ela.

A imagem é forte. Como se a gestação, o parto, os cuidados com o filho durante a infância e a adolescência, estivessem fadados à geração de soldados para as frentes de batalha, onde imperava a perspectiva de uma morte precoce.

Logo abaixo, a manifestação de seu alívio, a mudança positiva que se processava na sociedade:


Na imagem, uma oficial graduada ensina a uma turma de soldados, incumbidos dos cuidados aos bebês, sobre as propriedades e o uso da mamadeira.

Compreendo que a publicação se dedica a dar visualidade às ideias de Anne Frank, reproduzidas com fidelidade pelos textos.Ou seja, a autora do Diário não cita as mamadeiras, mas os realizadores da HQ a utilizam para ilustrar um certo contentamento de Anne com mudanças que "abriram os olhos das mulheres", relativas à educação, o trabalho feminino e o progresso, concedendo-lhes espaço para pleitear "o direito de ser completamente independentes".

A gente precisa se transportar para aquela época pra entender como um objeto, um produto, conseguiu reunir atributos e representar valores tão ansiados pelas mulheres. Presas à função de alimentar os filhos ao seio, ou aos filhos dos outros, como amas-de-leite, às mulheres se abriram novas perspectivas e oportunidades sociais por intermédio do produto, que as libertava de amarras que até então pareciam eternas.

Mas, consultando minhas anotações e as confirmando na internet, chegamos a dados importantes que, desde aquela época, comprometiam seriamente a mamadeira e os leites artificiais:

- entre 1899 e 1902 -portanto muito antes da Segunda Grande Guerra, foi constatado que 50% dos homens jovens da Grã-Bretanha -arregimentados para a Guerra dos Boers, estavam inaptos para o serviço militar, devido a uma "deterioração física nacional" provocada pela administração de leite em pó desnatado àquelas outrora crianças que então se alistavam (Mike Miller, The Baby Killer, 1995:49). A mamadeira industrial já existia naquela época;
- em 1946, um inquérito da Dra. Margaret Robinson, relatou que a taxa de mortalidade de bebês amamentados no primeiro ano de vida em Liverpool - Inglaterra, era de 10,2 por mil, enquanto a de bebês alimentados por mamadeira alcançava a cifra de 57,3 por mil.

Essas informações não chegavam às pessoas, ficando restritas a círculos militares e científicos.

Então nos transportemos de volta aos dias atuais, quando temos acesso facilitado -caso a gente queira- a informações sobre a superioridade da amamentação e os riscos da alimentação artificial de bebês.  Eu tenho assistido, pessoalmente, a situações em que se recorre à mamadeira depois de esgotar as possibilidades de uma amamentação natural, com mães cientes de seus perigos mas aliviadas por, finalmente, verem seus filhos engordarem como se espera.

Sinceramente? Estou pra ver outro produto que tenha conseguido criar lugar tão cativo na mentalidade social, apesar dos riscos que acarreta ... 

Mas isso está mudando.

Está mudando.


sábado, 9 de dezembro de 2017

Documentário valioso!



Começo o dia com a alegria de assistir a um documentário valioso sobre a história da amamentação no Brasil, realizado pela IBFAN Brasil.

Que gente incrível! Que processo longo, árduo e ao mesmo tempo encantador ...

Uma luta que vale milhões, bilhões ... vale "o infinito que nunca acaba" (frase que inventei pra explicar à minha filha, quando criança, a extensão do amor que eu sentia por ela)  :o)

domingo, 19 de novembro de 2017

Palavras, palavras, palavras



Independente dos momentos variados pelos quais tenha passado,
a imagem que nos chegou e que fixamos da Gisele-mãe em nossa
memória muito possivelmente foi essa.


A primeira coisa que li nesse domingo foi uma matéria da TIME.COM, abordando a situação de tantas mães que planejaram o parto natural e a amamentação, mas enfrentaram obstáculos e acabaram por ter suas metas frustradas.

O texto trata do quanto são impiedosas a pressão e a cobrança externas e também internas pelo alcance de resultados biologicamente ideais em meio à imensa complexidade da realidade que cerca a mulher em seu momento de maior vulnerabilidade.

Mais adiante a matéria aponta que, em grande medida, isso vem acontecendo em decorrência tanto da influência das redes sociais -onde muitas vezes se canta "em verso e prosa" o poder da natureza, refletido em exemplos de figuras públicas que alcançaram o ápice da realização em seus partos e amamentação, quanto da influência exercida por um ativismo insistente (talvez até "ortodoxo", eu diria) em defesa do nascimento e da alimentação naturais para bebês.

E mais adiante ainda, a Iniciativa Hospital Amigo da Criança, certificação de maternidades idealizada pela OMS e pelo Unicef para proteger, apoiar e promover o aleitamento materno, é apresentada como uma medida originalmente tomada para garantir uma alimentação adequada a crianças, "especialmente em regiões que não possuem água potável". Vale dizer que o relatório The Baby Killer, estopim da mudança no paradigma científico, realmente decorre de uma pesquisa do autor em viagem aos países do então chamado Terceiro Mundo, que recebiam fórmulas lácteas e mamadeiras como doação, locais mais pobres onde água potável era artigo raro. Mas essa frase pode -mesmo sem ter a intenção- levar o leitor a considerar, como muitas pessoas consideram, que em situação menos precária esse problema não aconteça. A diretriz da OMS e Unicef em estabelecer os passos que compõem a Iniciativa  se baseou na denúncia do relatório, mas se dirige à sociedade como um todo. A IHAC também é criticada no texto por ser demasiadamente impositiva em seus dez passos, que incluem a proibição de entrada de mamadeiras, bicos e chupetas e o alojamento conjunto, levantando a eventualidade de que o bebê dormir junto à mãe pode sufocar acidentalmente a criança.

A autora do artigo relata ter perguntado ao representante da IHAC nos EUA sobre "quais seriam as possíveis consequências de não amamentar: lesão? Doença? Morte?".

Bom, precisei então fazer esse post. Tenho plena consciência de que textos podem ter várias leituras. Mas escrevo principalmente porque percebo muito intensamente o quanto os discursos podem nos parecer coerentes, mas simplificar, ocultar ou omitir informações cruciais. Frases que passam "batido", mas mesmo sem intenção do autor, comunicam diferentemente do que pretenderiam.

1) Tenho acompanhado bem de perto situações de nascimento e tentativas de amamentação que deparam com problemas que provocam o uso de recursos que contrariam o desejo e os planos dessas jovens mães (partos cesáreos e complemento- fórmula). Realmente difícil ... Dentre cinco casos, apenas um foi de sucesso integral, sem qualquer tipo de obstáculo. A chegada de um bebê é sempre revolucionária, capaz de transgredir tudo aquilo que vem sendo excessivamente comentado, planejado, idealizado atualmente nesse ambiente de intensa interligação comunicativa.

2) As redes sociais hoje são um veículo que permite mostrar momentos que antes eram registrados em fotografias, que só de vez em quando eram reveladas e ampliadas para compor álbuns. Quando ficavam prontas, aquele registro já fazia parte do passado. Agora podemos abrir as janelas de nossa vida, dos acontecimentos e dos nossos pensamentos quantas vezes quisermos por dia. Acho que isso faz com que o presente tenha ganho, potencialmente, o poder de ficar lotado de acontecimentos que, para poderem ser exibidos nas redes, é melhor que sejam bons acontecimentos. Muita pressão... E exemplos demais, referências demais, ao alcance das nossas mãos, mas verdadeiramente distantes da gente.

3) Ativismo insistente? O ativismo é uma resposta da sociedade civil organizada ao poderio das corporações, é um instrumento de valorização das capacidades humanas que as indústrias insistem em descredenciar com seu discurso sedutor: fantasiando vendedoras de enfermeiras e entregando latas de leite em pó e mamadeiras a mães que estavam amamentando seus bebês na África, nos anos 70; misturando melamina (plástico) pra simular proteína em leites em pó, o que provocou pedra nos rins em mais de 6 mil crianças na China em 2009; violando regras de controle com estratégias de marketing que fazem com que países como a Inglaterra tenham menos de 2% de bebês amamentados exclusivamente até os 6 meses; fazendo crer às pessoas que doar leite em pó para populações vítimas de desastres naturais salve vidas, quando a falta de água potável nesses casos é um convite à doença e morte de crianças que, por essa oferta, serão precocemente desmamadas, como no tsunami na Indonésia, em 2004, ou em Teresópolis e Friburgo em 2012.



4) Água é um problema mundial. Dizer que a Iniciativa Hospital Amigo da Criança foi concebida motivada especialmente para regiões que não possuem água potável é torcer a realidade. As pesquisas científicas que denunciaram os perigos do leite em pó, como "Leite e homicídios", da Dra. Cicely Williams, foram realizadas em várias partes do mundo. E se alguém confia no fato de que dispor de água potável é garantia para o uso de mamadeiras, pense bem se já não deixou de lavar esse produto depois da mamada, deixando-o uma noite inteira na pia da cozinha. As bactérias do leite se proliferam e se escondem nas roscas e tubos e cantinhos daquele objeto, que quase nunca é lavado conforme recomendam seus fabricantes. Veja o vídeo.

5) E o destaque para o fato de que a criança corre o risco de sufocamento por dormir junto à sua mãe nas maternidades? Eu gostaria de refutar essa afirmação, mas me faltam informações, pois me dediquei em pesquisa a deparar com coisas que se omitem, como os casos graves de engasgos que ocorrem com as mamadeiras, meu objeto de estudo. Amigos pediatras neo-natais, me auxiliem aqui, please!

6) Por fim, não amamentar causaria algum dano tão grave quanto "lesão? Doença? Morte?" Sim, pode causar tudo isso, mas os efeitos são silenciosos e a longo prazo. Defeitos no desenvolvimento oro-facial, mordida aberta, respiração bucal, rinite, otite, pneumonia, diarreia, morbidade e morte.

O fato é que muitos de nós nascemos de partos cesáreos, fomos criados com leite artificial por mamadeira e não morremos. Ok, ficamos adoecidos quando poderíamos ter nos livrado disso, usamos aparelhos ortodônticos, operamos o adenoide etc., mas estamos aqui, firmes.

Sim, firmes e entrosados em uma cultura que cada vez nos cerca mais e mais de ofertas de consumo e de medicalização, que fez com que o Brasil chegasse a ser campeão mundial de cesarianas.

Concordo com o fato de que, sem dúvida, o momento atual é crítico para as jovens mães que têm seus filhotes em cenário de tantas intensidades, superlativos e imperativos.

Só que a cada dia identifico coisas que operam para nos tornar cada vez mais desacreditados de nossas próprias capacidades.


sábado, 18 de novembro de 2017

A vida, os mortos e caminhos tortos



Essa manhã me surpreendi com um post de Facebook que noticiava a criação, por um menino de 10 anos (!), de um dispositivo para impedir que crianças sejam esquecidas em carros.

Muito impressionante um garoto dessa idade ter iniciativa e habilidade pra criar algo assim. Seu nome é Bishop, ele mora no Texas e é filho de um engenheiro da Toyota.

O dispositivo, de nome Oasis, foi pensado para ficar acoplado ao banco traseiro dos automóveis e funciona soprando ar fresco no ambiente fechado.

À primeira vista, a gente tende a pensar: poxa, que bacana passar a existir algo assim!

À segunda vista, a gente indaga: o certo não seria pensar num dispositivo a ser não criado, mas resgatado das capacidades humanas desses pais? A matéria registra que nos Estados Unidos morrem anualmente 37 crianças pelo fato de elas terem sido esquecidas por seus pais no interior de veículos fechados. E existe até uma organização chamada Kids and cars, dedicada a monitorar e evitar essas mortes.

À terceira vista, a gente se preocupa: os jovens estão cada vez mais entrosados com a ideia de que dispositivos podem ser sempre criados para solucionar os problemas que surgem. Produtos, aplicativos, coisas para fazer as coisas por nós. Eles nasceram e crescem sob essa mentalidade. Caminhos tortos ...

Esse menino merece toda a admiração, por se deter em um projeto com finalidade tão vital, e a indústria automobilística deve providenciar logo a adoção do Oasis, como item de segurança de seus produtos, pois além de crianças, eu já soube de casos de idosos deixados tempo demais dentro de carros fechados (meu pai estacionou em frente ao banco, minha mãe ficou no banco do carona, ao tirar a chave da ignição ele desligou o ar-refrigerado e, por costume, ao sair do carro trancou as portas. Foi brabo pra ela ...).

Mas parece haver urgência urgentíssima, isto sim, de as pessoas recuperarem sua atenção para as coisas que mais verdadeiramente importam na vida, deixando para o segundo plano a correria e priorizando conscientemente aquilo que exige responsabilidade e cuidado.

Esse dispositivo existe e está dentro de cada um de nós.

sábado, 11 de novembro de 2017

Sobre o copo antivazamento 360 graus



Sou defensora da ideia de que deva ser criado um copo eficiente, atraente e inventivo que solucione a administração de alimento aos bebês quando, provisoria ou definitivamente, não for possível amamentar.

Como já dito em outros posts, os bebês conseguem manter, no copo, o movimento de sucção que parte da projeção da língua para fora da boca, movimento esse que nascem preparados para executar no seio da mãe (para sugar a mamadeira eles precisam se adaptar ao produto, tendo que elevar a língua contra o céu da boca, o que acarreta problemas futuros na arcada, respiração bucal e suas consequências).

Há um copo muito interessante no mercado que vem angariando o interesse das famílias. Ele lança um sistema antivazamento 360 graus que, como diz sua definição, não derrama. Mesmo colocado de cabeça para baixo, o líquido não vaza.

Eu me interessei, fui a uma loja e escolhi uma das marcas para comprar, com a finalidade de abrir a embalagem, entender o sistema e testá-lo.

Quanto ao antivazamento, funciona muito bem. São modelos bonitos, realmente inovadores, ou seja, reúnem esteticamente os atributos que considero serem indispensáveis para que os consumidores considerem sua aquisição e uso.

Identifiquei sem demora, porém, que o sistema não permite que o bebê ou criança um pouco maior nele beba como um gato que toma leite no prato, ou seja, projetando a língua para fora e sorvendo o líquido.

Entendi que esse copo se destina a crianças maiores, trazendo como contribuição dois fatores:
1) a possibilidade de acondicionar líquidos em seu interior sem risco de vazamento;
2) a novidade de permitir que a "criança beba sem fazer esforço ou bagunça" (anúncio da NUK na revista de bordo da GOL).

Então, reprogramei minhas expectativas, mas comecei a acumular motivos para críticas: é impressionante como os produtos destinados às crianças cada vez mais estruturam sua retórica projetual e promocional prometendo o fim da sujeira, o fim dos pequenos acidentes desagradáveis, que vão nos dar trabalho, vão sujar a roupinha e o sofá da sala (!).

Mas ao consultar o folheto de instruções, prática pouco usual que precisa tornar-se mais do que usual em prol da nossa própria segurança, vejo que, entre vários outros alertas, o copo:

- não é adequado para bebidas quentes ou gaseificadas (a informação está em destaque) , pois a pressão poderá se acumular dentro do copo (imagina ...);

- precisa ser utilizado pela criança sempre sob a supervisão de um adulto - essa informação consta de muitas "bulas" de mamadeiras, mas não se costuma ler essas instruções. As mamadeiras tendem a ser consideradas produtos que proporcionam liberdade às famílias e autonomia às crianças, contrariamente aos alertas presentes em seus folhetos de instruções. Os fabricantes, assim, têm como se defender no caso de ocorrerem engasgos e outros problemas que não são incomuns em crianças deixadas sozinhas com o produto. No caso de um copo que não derrama, penso que os pais dos usuários tendam a se sentir realmente dispensados de ter esse cuidado;

- é necessário coar sucos com polpa, pois ela pode entupir o anel da válvula - daí fico pensando que o copo só serve mesmo pra tomar água e refrescos, tipo Tang ...

Pensei: é tão importante a criança aprender a lidar com o copo ou caneca, apurando o ajuste motor fino para incliná-la no ângulo suficiente que faça o líquido chegar à boca! Isso se consegue com a boa caneca de plástico, que não quebra, pode ter um desenho bonitinho e ser considerada "a minha caneca" pela criança, sua dona.





A conclusão de minha análise é que, apesar da bela forma e da profunda pesquisa de sistemas e materiais empreendida nesse projeto de copo antivazamento, ele não trás contribuição significativa para o cenário dos produtos infantis. Ao contrário, adia o desenvolvimento das crianças na lida com copos comuns.

No entanto, considero o produto muito útil para pessoas idosas com problemas motores e/ou neurológicos. Elas por certo irão se constranger por ter que adotar um copo especial, mas esse constrangimento será menor do que aquele que poderão sentir se forem chamadas à atenção, mesmo que carinhosamente, por terem desaprendido gesto simples que até então dominavam

sábado, 4 de novembro de 2017

Sobre rede de apoio

Pierre-Auguste Renoir
Hoje reproduzo aqui texto de minha filha, Adélia Jeveaux, sobre rede de apoio.

Rede de apoio, oi? O que é isso?
Volta e meia, quando emito algum comentário mais específico sobre o universo do cuidar de bebês e menciono que sou parte da rede de apoio de várias puérperas, tenho um olhar de confusão como réplica. Mesmo na faculdade de psicologia, por vezes a menção ao conceito de rede de apoio é recebida com algum estranhamento, o que me intriga. “Ué, mas quem faz isso não é a babá?” “Ah, mas é a família que ajuda nessas coisas, né.” Pois bem, sim e não.
Rede de apoio é a ideia de que a chegada de um bebê a um grupo, seja esse grupo a família ou a família estendida que inclui os amigos, é algo que mobiliza as pessoas. É a noção de que o entorno deve se implicar no processo de cuidar da criança e proporcionar um bom ambiente pra que ela se desenvolva. Não se trata de um mutirão pra fazer tarefas específicas, nem de abdicar da sua vida em prol do filho dos outros. Ser rede de apoio é, antes de tudo, fazer-se acessível e disponível. Nem sempre vai envolver uma ação concreta, mas o simples fato da mãe saber que pode te acessar já representa um pequeno conforto. 

Na maior parte das vezes, ser rede de apoio é comprar coisas no mercado, fazer uma comida, lavar louça, pendurar roupa no varal. Mas muitas vezes é dar colo pra mãe, dar colo pro bebê, dar colo pro pai. É ouvir e acolher o que vem deles, o que eles precisam externalizar, e conversar, seja pra falar do assunto bebês ou pra distrair do assunto bebês. É, também, cuidar ou se oferecer pra cuidar do neném pra que os pais possam aos poucos retomar a vida de casal. Além disso, rede de apoio é a ideia de que a mãe (e o pai, mas mais a mãe) também precisa de cuidados, porque há uma demanda enorme de energia e atenção que não deixa espaço pra outras preocupações cotidianas. Também envolve não criticar, não julgar e respeitar as decisões do casal sobre alimentação e instrumento de alimentação. Se possível for, compartilhar informações ou contatos que possam aprofundar assuntos específicos que estejam em questão, mas acima de tudo o papel da rede é o de dar a mão e encorajar a seguir em frente.

Sobre o quanto venho aprendendo com os bebês eu já escrevi, mas não poderia deixar de dizer o quanto aprendo com e o quanto admiro as mulheres e homens ao meu redor que estão desbravando essa viagem de disco voador que é receber uma pessoinha.
Obrigada por me deixarem estar por perto.


Rede de apoio é o reconhecimento de que o puerpério é muito difícil, de que há muitas transformações em curso o tempo inteiro, e de que um dia que começa bem e tranquilo pode se transformar num caos em poucas horas. Como diz uma amiga, ter neném pequeno é viver na Band News, porque “em 20 minutos tudo pode mudar”. Claro que cada experiência é uma experiência, mas, em grande medida, pouco se fala publicamente sobre as agruras das primeiras semanas ou meses após o nascimento de uma criança, e as mães se vêem jogadas numa provação que metaboliza muita angústia. Não precisa ser assim.
Winnicott fala que o bebê é um fardo que a gente resolve chamar de bebê, e, portanto, se mobiliza para cuidar e acolher. Essa afirmação pode soar tão dura quanto libertadora, e estar numa rede de apoio proporciona o contato com ambas as facetas desse momento tão crítico da vida. Porque apesar de a internet e o empoderamento feminino gerarem trocas muito ricas de informação, apesar de haver curso de parto, curso de amamentação, curso de primeiros cuidados etc, a realidade, ainda assim, traz desafios e situações pras quais pais e puérperas não estão preparados, e vão precisar de ajuda. Ser rede de apoio é trocar fralda e acalmar choro, oferecer o ombro, mas às vezes é resolver coisas triviais, tipo repor o detergente, mas que ajudam a aliviar a carga.
Em última instância, ser rede de apoio é um ato político, porque ajudar a cuidar de crianças é um ato político. Quem quer que tenha inventado essa ideia de que o puerpério é algo que só diz respeito à mãe, talvez também à avó, e deve ser vivido e superado na solidão e na clausura de casa, por conta de uma noção cruel que equipara maternidade a dar conta de tudo, essa pessoa é um vilão da nossa história. É um ato político pelo aspecto do feminismo, porque é uma forma de se unir em prol das mulheres. É político pelo aspecto da crescente terceirização da infância, porque é uma maneira de encarar a necessidade real por ajuda de forma colaborativa e implicada, entendendo que ajuda profissional (de babás, empregadas, consultoras etc) é uma enorme mão na roda, mas não precisa ser a única opção pros pais e mães de recém-nascidos. É político por conta do capitalismo, que nos pressiona a sempre sermos produtivos e a fazer escolhas cruéis, mesmo nos momentos mais difíceis.
Que fique claro: ninguém é obrigado a se prontificar a fazer parte de rede de apoio de ninguém. Apenas quis compartilhar algumas reflexões que essa experiência intensa vem me trazendo. 

domingo, 22 de outubro de 2017

Sem título

Sem título - Keith Haring - 1982

Hoje é tudo patrocinado, né?

Antes não era ...

Eu me lembro que na minha juventude (anos 70, 80), a praia de sábado era o momento de saber qual seria o programa da noite. As pessoas davam festas. Normalmente eram de um amigo do amigo, e aquele grupo grande chegava nas casas, grupo de amigos de um convidado. A gente se divertia, dançando a valer.

Aí as festas foram escasseando. Nos anos 90 eu e meu marido fizemos resistência a essa tendência, dando cerca de três festas por ano num apartamento pequeno. Arrastávamos os móveis e ele gravava altas fitas-cassete com uma programação musical que não deixava ninguém parado. As crianças iam pra casa da avó ou ficavam lá mesmo. Cada um levava algo de comer ou de beber e, se faltasse, a gente passava o chapéu e um voluntário saía pra comprar.

Mas continuaram escasseando as festas nas casas das pessoas, enquanto surgiam festas, enormes, financiadas por empresas. De bebidas. Arraiá da Boa e coisas do gênero.

Hoje só tenho notícia de festas de casamento. Fora isso, sei de festas infantis em casas de festas e em playgrounds, e de uma ou outra comemoração de aniversário em mesas enfileiradas de bares e restaurantes.

Por que estou falando isso? Porque ando super-pensando no quanto uma correnteza forte faz com que a gente tenda a depender cada vez mais das empresas e de sua grana pra realizar as coisas.

Ontem li, com alívio, a notícia de que a Orquestra Sinfônica Brasileira voltará à atividade depois de um tempo muito, muito escuro, em que seus integrantes ficaram sem trabalho, sem salário. Porque a Orquestra conseguiu patrocínio!

Aí me lembrei dos ENAMs (Encontro Nacional do Aleitamento Materno), que acontecem sem verbas de patrocínio de empresas (as que oferecem, em sua maioria, fabricam produtos que provocam o desmame precoce, mas têm um discurso fofinho de que "fazem bem" e coisas do gênero). As verbas vêm do governo federal, estadual, municipal; os eventos ocupam universidades.

Aí eu me lembro de que os congressos de pediatria prosseguem sendo patrocinados pela Nestlé.

Aí fico sabendo de um evento ocorrido ontem, em São Paulo, chamado Descomplica, mãe!, patrocinado pela Dove, pela Danone e mais um sem fim de outras empresas de produtos infantis.
Resolvo navegar no site.

Em patrocinadores, leio :
Baixe nosso book comercial e saiba por que estar presente neste evento fará da sua marca uma queridinha das mamães. 

Clico em Saiba mais:
Seja um patrocinador do evento! Uma oportunidade única de falar com o principal formador de opinião e shopper [comprador] da maioria das famílias brasileiras. 

Rolo a tela e encontro:
Estaremos arrecadando alimentos não perecíveis para auxiliar o CREN [Centro de Recuperação e Educação Nutricional - pelo que entendi, dedicado a acolher e orientar famílias pobres]. Os itens que eles mais precisam são: leite em pó, atum, sardinha e aveia.

É assim que as coisas vêm sendo.

Descomplica, mãe! Existem produtos para solucionar todas as coisas! Pra que se desgastar, se você pode comprá-los?

Podem ter sido legais as palestras, os papos desse evento. Mas quando a gente espia todo o marketing por trás, dá nervoso.

Tem um livro de Zygmund Bauman chamado Comunidade. Nele o autor trás à pauta o fato de que a comunidade se transformou: deixou de ser um grupo de pessoas, pra se transformar em pessoas que se reúnem em torno de marcas (seja um NET). Hoje, mais do que desejar pertencer a um grupo, a correnteza conduz a desejar pertencimento às marcas.

Aí continuo me lembrando de coisas. Dos grupos de mães que existem há um tempão e que nunca chegaram nem perto dessa coisa de patrocínio, mas também da série de filminhos da Nestlé que aparece no GNT, em preto e branco, sob o título Humanidade em nós, procurando se mostrar tão sensível à humanidade das pessoas, porém prosseguindo em sua escalada pelo lucro. Leia essa matéria pra constatar.

Eu sei, a escolha é de cada um. A escolha.