terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Quem dera!



Não são apenas os produtos tangíveis da indústria que precisam ser periodicamente avaliados pra que se tenha revista a sua adequação ao estágio de conhecimento alcançado, à realidade social etc. Produtos intangíveis da indústria "cultural" também podem fazer um belo dum estrago. Baboseiras ditas para ganhar audiência acabam influenciando as pessoas de uma forma inacreditável e podem demonizar condutas as mais louváveis, num eficaz serviço de desinformação.

Há poucos dias, recebi pelo Facebook a notícia de que Michele Maximino - a maior doadora de leite materno do Brasil, depois de protagonizar uma "simples piada" (segundo o próprio) do humorista Danilo Gentili em programa de TV de 2013, tornou-se alvo do escárnio de muitos e decidiu, junto à sua família, mudar de cidade para tentar um recomeço de vida.

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/02/maior-doadora-de-leite-materno-do-brasil-perde-batalha.html

Fico pensando em como estará se sentindo Michele... Difícil saber.

Mas é fácil imaginar como estarão se sentindo os inúmeros bebês salvos por suas doações. Michele salvou muitas vidas: as vidas dos bebês que se alimentaram com seu leite e de todas as pessoas de suas famílias, ao vê-los não morrer e lutar pelo restabelecimento de suas funções biológicas.

Daí eu me pergunto se essas pessoas não poderiam ajudar a virar esse jogo e, de quebra, contribuir para o esclarecimento dos tantos outros que "embarcaram" na tal piada.

Mas talvez a coisa seja meio assim: tem-se o filho, ele precisa de leite doado, o hospital dá o leite e quem o recebeu visualiza isso como uma coisa institucional, sem ninguém por traz...

Isso pode mudar? Os bancos de leite podem fazer algo a respeito também sobre isso (já fazem tanto, mas será que podem contribuir para que as famílias contempladas com a doação a valorizem?).

Sei que o principal seria chamar à responsabilidade os profissionais que, como Danilo, lançam palavras ao vento que podem ganhar um poder incalculável de disseminação. Que máximo seria se ele voltasse atrás, se dedicasse um de seus programas a rever tudo, devolvendo a Michele a real notoriedade que sempre mereceu...

Olha, presto muita atenção ao que as pessoas dizem porque tudo o que se diz e se faz deixa marcas. Boas ou ruins. E não existe nada que as apague, mas. sim, pode haver algo que as corrija para sua real significação.

Desejo que no ano que se inicia Michele e sua família recebam o devido reconhecimento pelo imenso bem que fizeram a tantos, e recupere a sua paz.







sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Olha, vale a pena tentar!

Pintura da artista norte-americana Anna Rose Bain


Escrevo hoje para sugerir aos leitores que trabalham em empresas privadas que apresentem a seus chefes a ideia de adesão à extensão da Licença Maternidade.

Hoje está em vigor a licença de 4 meses, mas o governo há algum tempo autorizou que o benefício seja estendido para 6 meses.

Para as instituições públicas, a licença de 6 meses é lei, mas as privadas têm liberdade de decidir sobre essa adesão...

O que me motiva a encorajar os leitores do blog é o fato de que isso aconteceu na PUC-Rio. Ontem fiquei sabendo da portaria que informou a todos os setores da Universidade que as mães poderão desfrutar dessa licença estendida, o que me deixou exultante.

E como participei desse processo, reparto aqui com vocês o argumento apresentado para tal mudança, pois ele é realmente eloquente.

A Organização Mundial de Saúde recomenda que os bebês sejam amamentados exclusivamente (sem água, chás ou sucos) pelos 6 primeiros meses de vida. A partir daí a amamentação pode e deve prosseguir junto a outros alimentos até os 2 anos ou mais. 

Os 4 meses, portanto, não são compatíveis com a recomendação do órgão internacional.

É claro que é preciso esclarecer os chefes e o pessoal de Recursos Humanos da empresa sobre os problemas causados por essa cultura industrial que delega à mamadeira e aos leites artificiais a alimentação das crianças. Mas há material farto na internet para documentar isso, aqui no blog mas principalmente em sites como OMS/Unicef, IBFAN, WABA e muitos outros links pra lá de confiáveis. Monta-se uma pasta com algumas dessas matérias e se parte pra uma boa conversa.

Ao se falar sobre o assunto, as pessoas vão se chegando, com sorrisos e muita esperança no olhar. Sobre a importância de zelar pela relação mãe-bebê qualquer pessoa entende :o)

Além disso, considero valiosa a contribuição dada à causa por Papa Francisco, (declarações dele no verão passado) pois independentemente do fator religião ele é um líder internacional de grande reconhecimento. Tem muita coisa bacana pra baixar sobre isso na internet.

Eu estou feliz da vida aqui por esse tão importante caminho ter sido aberto no lugar onde trabalho. Ainda há muito a fazer, como estender também a licença paternidade (que hoje é de 5 dias úteis apenas) e montar uma sala para que as mães que amamentam possam colher seu leite durante o expediente de trabalho (quando retornarem da licença), guardá-lo de maneira refrigerada e levá-lo para seus bebês, pois assim prosseguirão produzindo o melhor alimento que seus filhos podem receber por mais algum tempo. A Anvisa tem um documento sobre isso disponível em pdf.

Nesse mundo maluco, onde um ritmo acelerado nos é imposto pela tecnologia e onde nos horrorizamos com crianças sendo esquecidas em automóveis etc, o reconhecimento de nossas capacidades humanas naturais se faz essencial. Sabemos que nada nem ninguém é dotado a superar a sapiência da natureza.

Eu compus na PUC esse grupo que, devagarinho, foi fazendo tudo acontecer, com Ivone, Mazini, Marisa, Regina, Dr. Álvaro, alguém da Assessoria Jurídica de quem nem fiquei sabendo o nome ainda, os Vice-Reitores Administrativo e Comunitário e nosso Padre Reitor.

Sem dúvida, um valioso presente de Natal! :o)


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

É importante que se diga



Todos sabemos o quanto é prazeroso ver a reação das pessoas a quem trazemos boas notícias, relatos tranquilizadores, surpresas capazes de empolgar.

Quisera pudéssemos sempre ser mensageiros das coisas boas ...

No trabalho de divulgação da minha pesquisa sobre as mamadeiras, ao contrário dessa boa sensação, costumo dizer que "falo aquilo que as pessoas não querem ouvir".

Infelizmente há coisas que precisam ser ditas, mesmo que contrariem totalmente a definição deste primeiro parágrafo do post.

Mas o interessante é que, para alguns, essas "coisas que não se quer ouvir" são "as coisas que, cada vez mais, se quer ouvir". Essas pessoas são aquelas que já sabiam de tudo e que se comprazem ao receber mais pessoas que, como elas, prossigam com o trabalho de dizer essas coisas, pra todo mundo.

Dessa maneira, bem recebida, me senti na semana passada, em Manaus, durante o  XIII Encontro Nacional do Aleitamento Materno.







Em cada conferência que assistia, a cada pergunta lançada da platéia, nas conversas, nos quiosques, nas mesas de refeições, um montão de pessoas, de vários países, que trabalham em prol da imperiosa causa da segurança alimentar infantil. Gente para quem uma pesquisa dedicada a alertar as famílias e profissionais de várias áreas de que a mamadeira é perigosa, representa uma voz a mais, um alívio, um conforto.

Aprendi muitas coisas novas, tive diante de mim figuras importantíssimas que iniciaram toda essa luta, dentre as quais aqueles de quem já me tornei amiga e com quem venho trabalhando em alegre e produtiva colaboração.

Dentre as coisas que aprendi, mais uma coisa importante que eu elencaria dentre as coisas que "preferíamos não saber", é que o Brasil recebeu nota ZERO no quesito "alimentação infantil durante as emergências", o que sinaliza que não "existem políticas e programas adequados para garantir que as mães, bebês e crianças recebam ajuda e proteção adequados para apoiar a alimentação infantil ótima durante as emergências" (Situação da estratégia global para alimentação de lactentes e crianças de primeira infância - Boletim 2014 da World Breastfeeding Trends Initiative).

Em outras palavras, não há qualquer preparo para que, nas situações de emergência que se fazem cada vez mais frequentes no mundo, os brasileiros possam recorrer a práticas seguras de alimentação de bebês e crianças de primeira infância, dentre elas o incentivo à amamentação.

                                                  Palestra de Marcos Arana Cedeño

Quando houve a tragédia de Teresópolis e Friburgo, no Rio de Janeiro, há poucos anos atrás, uma amiga enfermeira me relatou o seguinte caso: ao visitar uma das cidades junto a outros voluntários, ela se deparou com uma mãe desabrigada que alimentava o filho recém nascido com uma mamadeira. Ao ser perguntada sobre o motivo de estar alimentando o bebê daquela forma, a mulher respondeu:

"_ Eu estava amamentando, mas as equipes de ajuda me deram a mamadeira e o leite... entendi então que isso deve ser melhor para o meu filho..."

Daí, recorrendo àquilo que falam as pessoas "que dizem coisas que não queremos ouvir", ressalta-se que, depois de um desastre natural, não há água (para hidratar o leite em pó nem para higienizar com toda a perfeição exigida uma mamadeira) nem mínimas condições sanitárias. Nessas ocasiões, a amamentação é uma benção, e a preocupação que se deve ter é em alimentar e hidratar as mulheres que podem aleitar seus filhos.

Deus proteja o Brasil e prossiga dando energia a esses obstinados ativistas, que com seu trabalho incessante têm salvado muitas vidas.


domingo, 9 de novembro de 2014

Com os leitores, a palavra

A gente pesquisa um assunto, escreve sobre ele e o publica em livro. No decorrer dessas etapas, vamos colhendo inúmeras contribuições e impressões dos colegas, expressões entusiasmadas de leitores e do público que assiste às apresentações, além de merecer resenhas como as que escreveram sobre meu livro "Amamentação e o desdesign da mamadeira" o pediatra Luis Tavares, a jornalista especializada em design Ethel León e o designer Jorge Frascara. Além, é claro, do texto de apresentação da publicação, redigido por Rosana de Divitiis, da IBFAN Brasil.

Todas essas impressões, ditas, escritas ou "olhadas" é que concedem sentido ao que foi realizado.

É o leitor a parte mais importante da história toda. Como reage àquilo que o livro relata? Como considera o conteúdo escrito? Em que medida esse conteúdo pode contribuir para o esclarecimento do leitor e uma sua mudança de postura diante do objeto criticado?

Projetamos objetos para serem usados, por isso a opinião do usuário é que dará sentido ao produto; escrevemos para que o texto seja lido, e por isso é a opinião do leitor que credenciará ou não nosso trabalho.

Muito bem. Sou professora da PUC, do curso de Design, e lá, dentre as disciplinas, há uma de nome "Análise e produção do texto acadêmico", ministrada por duas professoras de Letras.

Fala-se tanto do alto nível de integração e cumplicidade dos irmãos gêmeos, não é? Pois essas duas professoras são irmãs gêmeas e decidiram, as duas, adotar meu livro em suas turmas de calouros. O livro é dividido em partes que são apresentadas, em seminários, pelos alunos. Ao final, uma resenha sobre todo o conteúdo é escrita.

Compartilho aqui alguns dos trechos dessas resenhas:

Podemos levar em conta que a mamadeira é apenas um dos inúmeros elementos (produtos) consagrados em nossa sociedade que devem sofrer o 'desdesign', como o cinto de segurança e até mesmo sachês de ketchup. O que nos é apresentado como símbolo de progresso e modernidade pode significar, na realidade, um retrocesso. Deste modo, o livro não provoca apenas a reflexão acerca da mamadeira e da inquestionável superioridade da amamentação, mas também faz com que o leitor se sinta encorajado a repensar, criticamente, toda a influência da cultura do consumo e a sedução por meio do design que acaba por alienar nossa sociedade. O texto de Cristine não é apenas informativo ou argumentativo, há todo um caráter educativo que enriquece a mente dos designers em formação, mostrando servir como um instrumento de avaliação do papel do designer, fundamental para quebrar os estereótipos da atuação deste profissional (Maria Isabel Mariz May Carmo).

Trata-se de uma obra capaz de mudar a maneira com que um indivíduo age perante a questão problematizada, além de dar mais visibilidade à luta pela amamentação (Taiane Amaral Viceconte).

A metodologia de 'desmontar' o produto até seu conceito matricial de funcionalidade é vital para qualquer designer (Ernani Valente).

Em meio a uma sociedade movida por valores estéticos e capitalistas é um verdadeiro alívio ver que ainda existem pessoas que se mobilizam e se debruçam por causas como essa. É seguro afirmar que quem ler o livro de Cristine Nogueira Nunes nunca mais irá olhar para uma mamadeira da mesma forma (Maria Guimarães Flexa Ribeiro).

As informações presentes na obra de Cristine são chocantes e, ao mesmo tempo, importantes, principalmente para que os designers dessa geração possam projetar um substituto eficaz e saudável para a mamadeira. O copinho, defendido pela professora, seria uma boa solução para extinguir a mamadeira de vez (Bruna Ramalho Atanes).


A iniciativa das professoras Maria de Lourdes Sette e Fátima Santos, faz com que a informação sobre os problemas da mamadeira chegue aos jovens, mais especificamente aos jovens designers.

Que a indignação e a disposição à inovação conduzam a carreira desses alunos. Muito obrigada por esse retorno tão especial ao meu trabalho, que na verdade espelha para a área do Design uma luta internacional que já dura muitos anos, travada por um sem fim de ativistas, profissionais e pesquisadores, a quem rendo minhas mais sinceras homenagens.

domingo, 2 de novembro de 2014

Criei coragem... e fui!


Viajar, pra mim, é tudo.
De uns tempos pra cá, tem sido possível conhecer aqueles lugares que existem, simultaneamente àquilo que podemos enxergar em nossas rotinas.

Estive em Berlim.
Céus, que coisa impressionante é aquela cidade..., onde deparamos com os extremos que caracterizam a humanidade: o que há de mais torpe e louco, e bárbaro, e também o que há de sublime, de arte, de capacidade de reconstrução, de convivência com a dura realidade.

Eu sabia de antemão que quando chegasse lá, eu iria me render. Não deu outra.

Sou designer. Minhas referências estão na Alemanha, na Bauhaus, na Escola de Ulm. E como aluna da ESDI sempre valorizei muito tudo isso, compreendendo que nenhum colonialismo cultural abafa o que somos, mas que essas fontes nos são caríssimas.

Bom, por via das dúvidas, como sempre faço, carregava um exemplar do meu livro "Amamentação e o desdesign da mamadeira" na mala. Vai que...

Numa noite, despertei de madrugada e pensei: atenção! vou no Bauhaus Archive amanhã! Meu livro! Será?

Não por vaidade, mas por senso de oportunidade, pensei: o que fiz foi referendar, como designer, a grande causa da denúncia do quanto as mamadeiras fazem mal aos bebês. Estou em Berlim. Respiro fundo, tampo o nariz, crio coragem e doo um exemplar da minha pesquisa pra biblioteca da Bauhaus.

O dia amanheceu e eu prossegui determinada. Ao chegar lá, o rapaz da Bauhaus Shop achou a ideia ótima, e ainda me disse que a secretária da biblioteca era brasileira \o/

Eu procurei por Sulaine Herbig, uma mineira de Araraquara que tem a maior pinta de alemã, e contei do meu intento.


Deixei o livro em suas mãos. Fui muito bem recebida.

Quem sabe, algum dia, alguém por lá o folheie...

Esse trabalho é mesmo assim, devagarinho, deformiguinha, porque a causa é forte.

sábado, 11 de outubro de 2014

Fraldas, mais uma vez



Na última segunda-feira, dia 6 de outubro, o caderno Economia de O Globo estampava em sua capa, sob o título geral "Mudança de hábito", a matéria "Mais renda, mais fralda descartável", de Glauce Cavalcanti e Letícia Lins. Como subtítulo, a frase: Brasil já é o terceiro maior consumidor do planeta. Em cinco anos, mercado cresce 70%. Na imagem, uma mãe que criou a primeira filha com fralda de pano e hoje, satisfeita, relata gastar até R$ 150,00 em fraldas descartáveis para a caçula. http://oglobo.globo.com/economia/com-aumento-da-renda-brasil-ja-o-terceiro-maior-consumidor-de-fralda-descartavel-do-mundo-14151637

O texto da matéria é tão, mas tão auspicioso que se revela perturbador, exemplo de como a confiança que depositamos nos meios de comunicação pode tornar inativa e dispensável nossa capacidade de discernir, de refletir sobre a questão tratada como um todo. E, até onde eu sei, o jornalismo tem por princípio apresentar as várias facetas do assunto que se propõe a noticiar, para que a imparcialidade dê o tom. Mas sabemos, há muito tempo, que existem "matérias compradas", e talvez seja esse o caso...

Num dos primeiros parágrafos, a frase em referência à mãe da foto: "Edicarmen é exemplo do processo de sofisticação do consumo no país".

É fato que a fralda descartável trouxe praticidade para as famílias, mas é fato também que o lixo gerado pelo seu uso é simplesmente apagado, ignorado, afastado dessa matéria que comemora o aumento da produção e consumo desse produto.

Não repetirei aqui os dados que podem ser conferidos no link acima. O que vou fazer é acrescentar aos números auspiciosos colocados em destaque, alguns outros números, nos mesmos termos, aos quais conseguimos chegar com facilidade e que nos proporcionam uma visualização no mínimo perturbadora.

Na matéria:

US$ 2,4 bilhões
Foi quanto movimentou o mercado de fraldas descartáveis no Brasil no ano passado

13,6%
Foi o percentual de aumento do consumo só no Nordeste.

29% de expansão
Foi quanto cresceu o total de vendas em 2013.


Na nossa conta:

2.555 fraldas
É o quanto um bebê, em seu primeiro ano de vida, e gastando 7 fraldas descartáveis por dia, utiliza durante um ano.

4.015 fraldas
É o quanto será totalizado ao final do seu segundo aniversário, considerando-se que após completar um ano de vida, a criança passará a gastar quatro fraldas por dia (o que é menos do que se gasta).

4380 fraldas
É o quanto terá sido consumido ao final de três anos, já que o conforto é tanto que vale prosseguir reservando ao menos uma fralda por dia, para a criança dormir e em eventuais passeios.

Número incontável
É a quantidade de fraldas descartadas nos aterros sanitários desde que elas começaram a ser consumidas pelas famílias (que até então sempre se viraram com a fralda de pano e hoje tendem a não mais sequer considerar o seu retorno), lembrando que o número aí de cima diz respeito a UM bebê (que se for menina consumirá no futuro 10 absorventes higiênicos por mês durante os quarenta anos de seu período fértil e, meninos e meninas, se viverem muitos anos, consumirão também fraldas descartáveis quando ficarem velhinhos). E tem propaganda de absorvente pra ser usado todos os dias...

Não se pode negar que as fraldas descartáveis trouxeram inovações que realmente facilitam a vida das pessoas e o conforto dos bebês. Mas tais inovações já migraram para projetos muito interessantes de fraldas de pano, como a produzida pela Morada da Floresta. Vale conferir, assistir aos vídeos e constatar que existe, sim, uma saída para a questão http://fraldasecologicas.art.br/

Na primeira imagem, os atributos de uma fralda descartável. Na segunda imagem, esses mesmos atributos absorvidos por um projeto antenado e inteligente de fralda de pano.





sábado, 20 de setembro de 2014

Vou te contar...




Mamadeiras "estilosas" vêm surgindo no mercado internacional com um diferencial no mínimo macabro: elas se propõem a aquecer o leite no momento que melhor aprouver aos pais e cuidadores, em passeios, viagens, compromissos sociais.

A primeira é uma Babyflasche alemã. A segunda foi desenvolvida pelo escritório IDEO, que se gaba por empregar uma metodologia inovadora em seus projetos, angariando a admiração de inúmeros estudantes de design em todo o mundo. E a terceira foi desenvolvida pelo designer Karin Rachid e produzida pela indústria dinamarquesa Iiamo.

Os leites, após 1:30h ou 2 h expostos à temperatura ambiente têm, por característica biológica, o início da proliferação de suas bactérias.

Se a proposta dos produtos é proporcionar descanso e despreocupação aos pais e cuidadores, em passeios, viagens e compromissos sociais, imagine o que acontecerá no organismo das crianças que ingerirem esse líquido passado o tempo regulamentar.

#voutecontar....


domingo, 14 de setembro de 2014

Tudo é perigoso, tudo é divino, maravilhoso



Desvio um pouco, mais uma vez, do foco normalmente tratado neste blog para fazer um comentário sobre um acontecimento desta semana.

Um editorial de moda, publicado na Vogue Kids, foi considerado inadequado por exibir meninas em poses sexualmente insinuantes. O Ministério Público determinou o recolhimento da edição da revista após intensa movimentação da sociedade civil, que levantou a questão por intermédio das redes sociais, em debate polêmico: muitos se disseram aviltados pela matéria; muitos se disseram espantados por tal aviltamento, alegando que as imagens não possuíam essa carga de sensualidade.

Concordo com os primeiros. Mas não exatamente me coloco contra os últimos. O fato é que mensagens podem provocar interpretações diferentes em diferentes pessoas. Isso é do mundo, dos humanos, e um ponto importantíssimo a ser considerado pelos produtores dessas mensagens.

O que consigo concluir de toda essa movimentação é que ela deve ser reconhecida em sua importância. Não se trata de um maniqueísmo, ser a favor ou contra o editorial, enxergar ou não uma coisa ou outra. A questão parece ser bem mais complexa.

Sob o meu ponto de vista -que é apenas um ponto de vista- estamos tão imersos na cultura do consumo que tendemos a "naturalizar" tudo aquilo que provenha de propostas do mercado. Um exemplo disso é que já "entubamos" o recurso da obsolescência programada dos produtos, aceitando que sua garantia restrinja-se a apenas um ano. Depois disso, compraremos outro.

A impressão que tenho é a de que nos distanciamos cada vez mais de nossa capacidade de analisar e questionar aquilo que nos é apresentado como bom, correto, adequado. Não há tempo para isso, é bom, compramos a ideia, nos adaptamos a ela. Aqui pode-se pensar em muitas coisas, inclusive nos produtos-alvo deste blog.

Será esse um bom caminho? Muitas provas têm pipocado, demonstrando que não é.

Mas é quando pensamos nas crianças, geração futura, que detecto (como muitos) uma "tecla" capaz de nos tornar mais atentos àquilo em que normalmente estamos imersos. Porque projetamos, somos capacitados a olhar à frente.

Acho que é tempo, por que sempre é tempo, de projetar.

E destaco o projeto de uma princesa para finalizar esse post. Uma princesa que, massacrantemente perseguida pelos fotógrafos, projetou sentar-se ao lado de quem realmente merece atenção. E assim contribuiu de sua forma para mostrar ao mundo que, em Angola e em vários outros países, crianças são mutiladas por explosões de minas anti-pessoais, enterradas em suas cidades em tempos de guerra. As fotos não foram capazes de fazer com que os maiores países produtores dessas minas assinassem o tratado para sua erradicação. Por força do mercado, eles prosseguirão produzindo-as, mas alegam minorar seu impacto e expiar suas trágicas consequências com programas para desativá-las...

Agora, o editorial de imagens com Lady Di.






E Tati, Tati - a garota, dos créditos de abertura que abriram esse post?
Sem querer ser dramática, acho que cabe a todos cuidar de Tati.


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Aos que sabem e aos que não sabem

Dedico esse post aos pediatras que participaram do "Septuagésimo Curso Nestlé de Atualização em Pediatria", entre os dias 2 e 5 de setembro, em Fortaleza, aos dirigentes, funcionários e apoiadores desta indústria, à Sociedade Brasileira de Pediatria e a todos os profissionais que de alguma maneira participam da concepção, produção e distribuição de leites artificiais e mamadeiras.

Sabe-se que há aqueles que sabem o que estão fazendo.
Sabe-se que há aqueles que não sabem o que estão fazendo.

Àqueles que sabem o que estão fazendo, pergunto: como conseguem seguir vivendo, com suas famílias, sabedores de que muitas crianças adoecem e morrem por todo o mundo por causa do objeto de seu trabalho?
Àqueles que não sabem o que estão fazendo, pergunto: como podem não saber o que estão fazendo?

Aos últimos, forneço uma ajuda:

http://www.youtube.com/watch?v=YQU43TdLYrE

Muitos outros filmes surgirão. Há um que, em breve, chegará, realizado por alguém que trabalhava para o esquema e que, ao vir a saber o que estava fazendo, se indignou com aquilo que fazia.
http://apilamblog.blogspot.com.br/2014/09/tigers-una-de-leches-artificiales-en-el.html?m=1

Aos primeiros, aqueles que sabem, prossigam com sua desfaçatez, sua indiferença às vidas humanas.

As coisas estão mudando.


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Lançamento em Porto Alegre de "Amamentação e o desdesign da mamadeira"



É com muita alegria que comunico o lançamento de meu livro em Porto Alegre, na UFRGS, campus Centro. A ocasião contará com a abertura do pediatra e professor Dr. Roberto Issler.

Será um prazer poder encontrar aqueles a quem já conheço e também vir a conhecer leitores do blog.

Até lá!

domingo, 17 de agosto de 2014

Jogo dos sete erros



O ano?
1989

O que é?
Um cartaz que fiz pra orientar as avós de minha filha quanto à rotina do bebê enquanto eu estivesse trabalhando (na época eu fazia o design gráfico do livro "Itaipu Hydroelectric Project", na sede da Itaipu Binacional do Rio, batendo ponto e o escambau).

Como foi recebido?
Mal recebido, pois as avós diziam não ser absolutamente necessário qualquer tipo de orientação, já que "dominavam o riscado".

Quantos meses tinha Adélia?
Quatro meses. Eu voltava a trabalhar depois da licença maternidade.

Então, vamos aos erros?
1) Suco de laranja lima (o leite materno tem tudo o que o bebê necessita, não é preciso nem dar água quando a amamentação é exclusiva e sob demanda);
2) A primeira mamadeira, logo após o banho (eu poderia ter ordenhado meu leite para ser dado ao bebê num copo);
3) As gotas de vitamina, depois da mamadeira (isso é medicalização. O leite materno tem tudo de que o bebê necessita);
4) A maçã raspada (idem erro 1);
5) A outra mamadeira (idem item 2);
6) As outras gotas de vitamina (idem item 3);
7) A minha ignorância.

E acertos? Tem acertos? Felizmente tem um: eu voltava do trabalho, do Centro para a Fonte da Saudade, na hora do almoço. Amamentava minha filha e retornava ao Centro. Assim meu leite não secou e pude seguir com o aleitamento até os 11 meses e meio de Adélia.

O que aconteceu, de verdade?
Ela não aceitava a mamadeira. Chorava, gritava, esperneava. Todo dia, ao chegar em casa, descia do ônibus e avistava - ao longe- aquela dupla avó-neta na entrada do meu prédio.

Seria lindo e romântico se essa história terminasse assim, né? Mas não termina...

As avós, depois de um tempinho, foram substituídas por babás, que não tinham nem um vigésimo da paciência. Tanto se fez que o bebê aceitou a mamadeira. Mas vomitava tudo, principalmente à noite, logo depois de beber.

Médicos, refluxo? Céus, o que há de errado?

Ignorância mesmo. Eu tinha leite de sobra. O copinho solucionaria todo o problema...

Efeitos?, consequências?
Asma (tudo bem que a responsabilidade sobre isso pode não ser exclusiva da mamadeira e do leite em pó, mas eles ajudaram) e aparelho ortodôntico na adolescência.

Algo me tranquiliza?
Sim. Minha filha tem 25 anos e está devidamente informada para não repetir os meus erros.


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Design, linguagem, lindos cartazes

Eu sei que a campanha "Madrinhas da Amamentação" tem o seu valor e a sua eficácia. Mas como já disse aqui, acredito que outras linguagens devam ser buscadas, que um cartaz só por ano não dá conta do recado, que ao invés de mostrar sempre belas fotos posadas, a realidade da chegada de um bebê nas famílias deve ser abordada pra que todo mundo possa conseguir se identificar.

Por isso publico aqui a série de cartazes da OMS/Unicef para este ano. Lindos, vários, completos, comunicativos, delicados, sérios, dando informação da melhor qualidade sobre o assunto:







quinta-feira, 31 de julho de 2014

Lançamento do livro "Amamentação e o desdesign da mamadeira" na próxima quinta, no Rio



Convido os leitores do blog, que moram no Rio de Janeiro ou que estarão por aqui na data, a comparecerem à palestra que farei na ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial), onde cursei minha graduação.

Divulgar os problemas da mamadeira é uma tarefa que venho desempenhando de maneira ampla, em todo e qualquer fórum pois, independente dos diferentes campos profissionais, a questão da segurança alimentar infantil é assunto que interessa a todos.

E como os designers são profissionais estreitamente ligados à concepção desses produtos, a oportunidade de apresentar a pesquisa na ESDI é valiosa, ocasião para refletirmos juntos sobre os rumos de nosso trabalho vinculados à questão do consumo.

Mas a linguagem que utilizo é, como sempre, voltada ao público em geral. Então, todos estão convidados e me darão grande alegria se puderem comparecer.

Nos vemos!

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Sobre mamadeiras e Papai Noel (de blog para blog)

Conheci Marisa Silveira por aqui, como já disse, por conta de um post que publiquei sobre fraldas infantis.
Ela tem o blog Eco Maternidade, há alguns meses.
Me chamou e escrevi esse post.
Obrigada, Marisa!

http://ecomaternidade.com.br/como-assim-sobre-mamadeiras-e-papai-noel/

terça-feira, 15 de julho de 2014

Não é à toa que as mamadeiras estão cada vez mais bonitas...


Estes foram os modelos de mamadeira que analisei em minha pesquisa de doutorado.

Bonitonas, né? Modernas, tecnológicas... ao mesmo tempo fofas, confiáveis... Eu fiz mesmo questão de escolher as mamadeiras mais legais que estavam disponíveis no mercado internacional àquela época (2009/2010), e pra isso tive que contar com a ajuda de amigos de diferentes partes do mundo para compra-las.

Mas por que não simplifiquei as coisas, selecionando modelos disponíveis no Brasil, baratinhos?, afinal, é tudo mamadeira...

O fato é que me impressionou (pra não dizer arrepiou, horrorizou) muito o fato de haver uma diretriz da OMS + um acordo internacional assinado por quase 200 países em prol da proteção do aleitamento materno contra as incursões da indústria + uma rede igualmente internacional de controle de comercialização de substitutos do leite materno (Ibfan) + uma Norma Brasileira para Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças de Primeira Infância, Bicos, Chupetas e Protetores de Mamilo (NBCAL) e, mesmo assim, continuarmos a consumir o produto tranquilamente, como se ele não oferecesse risco algum. http://www.alimentos.uff.br/sites/default/files/NBCAL.pdf

A Norma determina a obrigatoriedade de avisos de advertência nos rótulos e embalagens de mamadeiras, latas de leite em pó etc, do tipo "O Ministério da Saúde adverte..."; proíbe sua propaganda; limita a forma com que devem ser expostos nos locais de venda, tudo para evitar que o apelo visual e retórico do produto atinja o consumidor de maneira persuasiva.

Um sério trabalho de monitoramento vem sendo realizado e denunciados muitos casos de violação às regras. Mas esse controle é difícil...

Só que mais difícil me parece o fato de não dar pra considerar violação o apelo formal das mamadeiras, o poder de persuasão e de sedução de seus atributos projetuais.

Reparem, eu tirei todas as embalagens delas, os modelos estão aí em cima completamente desnudos de aparatos que, por um lado atraiam o olhar do comprador em uma loja cheia de outros produtos e, por outro, contenham advertências que pretendem alertar acerca do perigo de seu consumo....

... e elas atraem, seduzem, criam em nós o desejo de possuí-las se, claro, não estamos devidamente vacinados contra essa sedução com a consciência de que a mamadeira é um produto extremamente perigoso, que faz vítimas mais e menos fatais, a curto, médio ou longo prazo. Basta pesquisar um pouco pra encontrar informação farta sobre isso.

Quem está projetando essas... "tetéias"?

Afora a necessidade de alertar os designers sobre o nível de compromisso que têm com as consequências dos produtos que desenvolvem, acho que temos que inventar um jeito de ajudar os legisladores a ter controle também sobre as "belas" formas das mamadeiras.



terça-feira, 1 de julho de 2014

Pronto. Dei uma renovada no visual do blog

Depois de muito quebrar a cabeça pra entender os comandos (eu sou da velha-guarda), cheguei a uma carinha nova pro blog.

Desenhei as crianças do padrão, inseri cores nas áreas do layout e atualizei pequenos detalhes.

Eu gostaria de alterar muito mais, arredondando os cantos das áreas e diagramando livremente todo o texto, mas digamos que considero ter alcançado uma renovação pra seguirmos assim até a próxima reforma.

Peço desculpas pelo período de "obras" e pela paciência.

Até o próximo post!

terça-feira, 24 de junho de 2014

Amigos antes virtuais, agora presenciais

Vou conhecendo muita gente que se dedica à luta pela amamentação e assuntos afins, ligados à infância, que tanto precisa ser pensada, vivida e em tantos pontos revolucionada.

São contatos que fervilham pelo computador, gente que a gente admira, cita, com quem compartilha preocupações, de quem ouve falar super bem do trabalho. Mas a quem não conhecemos assim, cara a cara.

Daí eis que surgem às vezes oportunidades de encontrar essas pessoas.

O gozado é que o encontro é diferente. É um tipo de reencontro porque, na vida corrente, quando a gente vê pessoas pela primeira vez, não sabemos nada sobre elas. Mas dos amigos virtuais sabemos muito, já trocamos mensagens, discutimos assuntos, nos lemos, nos acompanhamos, enfim.

Eu acho chatíssimo essa coisa de ficar tirando fotos sempre, mas me dei conta de que já tenho uma coleção de imagens muito legais dos encontros que tive com esses amigos ex-virtuais, hoje presenciais. Daí, pra divertir um pouco, faço aqui meu álbum:

Foi Maria Inês Couto de Oliveira quem me recomendou o site Aleitamento.com, de Marcus Renato, pediatra. Eu bebi naquele site durante toda a minha pesquisa de doutorado. Deparei com Marcus pela primeira vez no ENAM de Santos, assim, rapidinho. Daí pra frente, acho que já perdi a conta das coisas que fizemos juntos, dos pedaços alegres e difíceis que já compartilhamos, da colaboração toda que hoje caracteriza nossa amizade. Na imagem, uma participação em parceria em evento de laboratório de Marketing, na UFRJ.

 
 
 
Foi Marcus quem me passou o contato do Dr. Hector Martinez, um dos criadores do Método Mãe-Canguru. Eu iria a Bogotá e pedi assim, a esmo: alguém o conhece aê? Marcus fez a ponte toda e foi um encontro daqueles, pra lembrar a vida inteira :o)
 
 
 
Dr. Hector ficava dizendo o tempo todo que eu tinha que conhecer o Dr. Luis Tavares. E o conheci em evento para o qual fui chamada por Marcus. Mas ali nos ocupamos mesmo foi em conversar, nem tiramos fotos e prossigo acompanhando sua intensa e apaixonante produção em prol dos prematuros e de tantas coisas mais. Ele fez a primeira resenha do meu livro, que me arrepia só de lembrar. E há de ter sido por intermédio de Luis, que mora em Campos dos Goytacazes, que comecei a me relacionar com Margareth Wekid, fisioterapeuta atuante na cidade no apoio à amamentação. Tomamos uns chopps ótimos na Cobal do Humaitá, há pouco tempo atrás.
 
 
 
Marisa Silveira eu conheci por aqui, pelo blog. Um dia eu fiz um post sobre fraldas descartáveis, ela comentou, trocamos figurinhas e numa de suas vindas ao Brasil (ela é brasileira, mas mora em Washington), nos conhecemos. Desde então acho que não perdemos chances de nos ver, e assim acompanho o crescimento de seu filhote Eduardo. Reciprocamente acompanhamos também o nosso crescimento. Ela lançou o blog ecomaternidade.com.br, pra lá de bacana.
 
 
 
Fã do Bebé Gluton, a primeira boneca industrial que mama no peito, me correspondi com Cesar Bernabeu durante quase um ano, até que nos conhecemos em uma visita que fiz com meu marido à fábrica de bonecas Berjuan, em Onil, Espanha. Uma ousadia deles. Um sonho pra mim!
 
 
 
 
E isso vai ficando com um jeito de coluna social... mas a gente pode se permitir brincar um pouco, né?
 
Daí, pra lançar o livro em São Paulo eu recorri a Ana Basaglia - a quem eu conhecia pessoalmente desde aquele ENAM. Ela e Fabíola Cassab (a quem eu só conhecia pelo FB), agitaram tudo por lá e fiquei muito impressionada na ocasião ao pensar no quanto podemos realizar quando estamos em rede... :o) Depois participei de uma reunião maravilhosa na Matrice, grupo de apoio às mães que elas cuidam há anos. Na foto aparecem Rosana de Divitiis, responsável pela eloquente apresentação de meu livro, seu marido e filha, Ana, eu, Therezinha Mucheroni (odontologista amiga de Bauru, com quem já troquei mil e uma correspondências e que me deu a grande alegria de aparecer com toda a família naquela noite), Dr. Cacá (pediatra Carlos Eduardo Correa), a quem conheci ali, assim como a  Flávia Gontijo e seus filhos, e Fabíola Cassab! Tudo bacana "às pampas". E foi lá também que avistei Caroline, a minha co-editora, a quem ainda não conhecia, apesar de termos trocado muitos e muitos e-mails antes da publicação do livro, e a quem devo o fato de ele ter sido efetivamente publicado, pois a editora PUC só trabalha em co-edição.
 
 
 
 
No dia seguinte ao lançamento, consegui conhecer Simone De Carvalho. Desde o início do blog, em 2010, ela se tornou uma colaboradora incrível, sempre me enviando coisas que encontrava e que poderiam me interessar. Nos esquecemos de fotografar a ocasião, mas no lançamento de seu livro aqui no Rio tivemos a chance, junto a Marcus também.
 
 
 
 
Fora as outras tantas pessoas dessa área que conheci presencialmente e que, cada uma a seu modo, me enriquecem. Sei que no meio da vida atribulada de cada um, todos arranjam tempo, coragem e energia pra lutar por essa grande causa.
 
Mas tive a ideia desse post no domingo, quando vi Ligia Moreiras Sena -a quem também conhecia pelo computador desde os preparativos para minha ida a Sampa- no lançamento de seu livro "Educar sem violência", no Rio, escrito em parceria com Andréia Mortensen. Não tenho fotos desse encontro pra colocar aqui, mas foi tão legal que ficou na memória :o)
 
E agora chega de brincar!
 

domingo, 15 de junho de 2014

Não tem desculpa



Toda vez que entro em uma farmácia, me dirijo à seção de produtos para bebês.

Desta vez eu viajava. Estava em Barcelona e deparei com esta mamadeira italiana.

Intuition. Intuição.

À frente, uma bela e singela ilustração de um bebê sendo amamentado.

Existe uma norma internacional que proíbe o uso de imagens desse tipo para produtos que tenham por finalidade incentivar a administração de leites artificiais e o desmame. No entanto, não faltam exemplos de violação dessas regras por aí. E reparem bem no nome do produto: Intuition. Nem é preciso comentar, né?

Como designer, o que mais me espanta é que profissionais projetaram essa mamadeira, a decoraram, e conceberam essa embalagem, apesar de existir leis que proíbem isso tudo, calcadas em diretrizes da OMS.

Não tem desculpa você trabalhar sem saber sobre aquilo que faz. Não tem desculpa você até saber sobre aquilo que faz e, mesmo assim, entrar na onda de que não compete a você a responsabilidade sobre aquele produto.

Aos poucos vou me conscientizando da necessidade de regulamentação da profissão do designer. Confesso que tardei a me dar conta da importância da iniciativa... Mas, sinceramente, penso que um designer que se presta a trabalhos como esse (talvez tenha sido desenvolvido por publicitários...), está pedindo que sua licença profissional seja suspensa.

Radical? Não... informação é um dos pilares dessa profissão.

sábado, 7 de junho de 2014

Do que estamos falando

Quando passei pela qualificação, no doutorado, procurei por meu orientador e lhe confessei que os conselhos que recebi da banca que me avaliou, apesar de valiosos, não correspondiam àquilo que eu desejava realmente fazer com a sequência de minha pesquisa sobre a questão das mamadeiras. Ele me ouviu, e como de costume respeitou minha inquietação. Mas julgou que não seria ele a pessoa mais indicada para dizer algo de realmente útil naquele momento, que havia outra pessoa - a quem eu nunca antes houvera recorrido - capaz de me orientar rumo a uma real diretriz.

Marquei com ela. Não a conhecia. Desfiei o meu rosário, finalizando com a afirmação de que o que eu havia descoberto era que o seio materno e o leite humano eram a melhor maneira de alimentar bebês.

Eu achava que isso poderia ser a minha tese, devolver ao seio aquilo que a mamadeira lhe havia roubado: o crédito e o respeito.

O que se deu a partir de então é irrelevante para o que desejo dizer agora. Basta relatar que ela me sinalizou que esta não seria uma tese, uma tese de Design, e iluminou outros momentos da minha fala que traziam, de forma eloquente, a minha tese: a necessidade de avaliar a produção industrial, da qual a mamadeira é um exemplo.

Mas o que desejo falar é que o título deste blog, Mamadeira nunca mais, e o discurso dos defensores da amamentação contra as incursões da indústria, não é uma radicalidade. Porta, sim, uma indignação com o estado atual das coisas - a cultura da mamadeira, mas deriva do estudo aprofundado do assunto, da vivência ou observação intensiva de casos.

Eu costumo dizer que não consigo fazer apresentações rápidas do meu trabalho. Antes de dar o meu recado sobre os males provocados pela mamadeira, tenho que percorrer o histórico da alimentação infantil, as medidas tomadas pelos órgãos oficiais a partir das evidências médicas e sociais que surgiram. E quando, só então, faço a análise dos impactos da mamadeira e desvelo a falácia do discurso promocional desse produto, aí sim consigo chegar nas pessoas que me assistem. Consistentemente.

Um dia desses vi no Facebook um artigo em que algumas mães argumentavam sofrer pressão de defensores da amamentação, defendendo o seu direito de decidir livremente pelo modo com que alimentariam seus filhos, levando em conta suas questões particulares e dizendo que o discurso em prol da amamentação é radical. Como sou "gato escaldado", suspeitei fortemente que a matéria seja um estratagema da indústria, como tantas outras suas produções que se utilizam de apoios às avessas como: "a empresa tal sabe que não há ninguém mais expert em leites do que as mães e, veja você, elas recomendam o nosso".

Bom, o que posso dizer é que aqueles que defendem as benesses da amamentação não se utilizam de estratagemas, que não há interesse econômico por trás de suas palavras, ou qualquer recurso subliminar para a condução psicológica daqueles que os ouvem.

Há estudo. Há observação, vivência e evidências.

E há respeito, coisa que não há nem de longe nas propagandas nas quais nos acostumamos culturalmente a acreditar.

domingo, 11 de maio de 2014

O Dia das Mães, sob o pretexto do filme "O renascimento do parto", por mãe e filha

O maridão barbudo, meus dois enteados e a primeira mamada de nossa filha.

Quando a gente começa a estudar um assunto, deparamos com sua vastidão...

Investigar as mamadeiras tem me levado a "mares nunca d'antes navegados", por alguns dos quais eu já naveguei sem ter a devida consciência disso...

Muito depois do que seria esperado de uma pessoa que, como eu, estuda o lance, comprei "O renascimento do parto", filme de Érica de Paula e Eduardo Chauvet, e o assisti junto à minha filha. Depois de fazer um comentário sobre a situação que antecedeu o meu encontro com ela, Adélia Jeveaux, vou tecer aqui meus comentários sobre o filme e compartilharei também os comentários dela, num post que comemora o fato de que os filhos crescem e de que amadurecemos, sem dúvida nenhuma, ao seguir vivendo.

Muito bem, muito tem se falado sobre violência obstétrica e o filme trata também disso com muita propriedade. Então vou dividir com vocês um pedacinho da minha história de parto.

Meu obstetra, muito querido desde a adolescência, lá pelas tantas do meu pré-natal, afirmou que um exame havia acusado o fato de que eu teria Herpes Genital. Isso seria um impedimento para um parto normal porque era muito difícil garantir que, na ocasião do parto, a doença estivesse inativa. E, em caso de atividade, ela colocaria meu bebê sob o risco de hidrocefalia, sei lá... NA HORA eu concordei que o mais adequado seria fazer uma cesariana, claro! Como é que eu colocaria em risco a vida do meu bebê?

Bom, eu costumo dizer que meu parto, mesmo tendo sido cesariano, foi lindo. Meu marido, por ser médico, estava do lado; tudo transcorreu conforme o esperado; vi minha filha por alguns minutos e fiquei muito feliz. Depois, fiquei três horas agoniada esperando por ela no quarto. A sorte foi que ela mamou no meu peito sem problemas. Os pontos do corte custaram a cicatrizar, eu andava toda encurvada ... Mas isso passou.

Muito bem, depois de tantos anos, 25 pra ser mais exata, ao assistir o filme me dei conta do seguinte:

1) Eu nunca havia tido herpes genital;
2) Eu nunca vi esse tal exame que dizia que eu tinha herpes genital
3) Eu nunca voltei a ter herpes genital.

Ou seja, só agora eu percebi que posso ter sido redondamente enganada pelo meu obstetra. Pra que o parto fosse do jeito melhor pra ele. Tudo bem que, depois, por uma questão de grana, tive que mudar de equipe, mas o fato é que o "pacote cesariano" foi muito bem preparado e chegou prontinho pro outro médico.

O que percebi vendo o filme? Acaso minha impressão sobre meu parto mudou, deixando de ser "lindo"?

Percebi uma coisa importantíssima e grave: meu parto não foi pleno.

Ele poderia ter sido muito mais lindo, muito mais especial, muito mais meu e de Adélia.
Tive roubada a plenitude do meu parto.

E o que é plenitude? De que importa a plenitude, se tudo "acabou bem"?

Importa porque ninguém tem o direito de, por ameaças terroristas, diminuir a experiência de outrem.
Importa porque estamos vivendo num mundo em que isso vem sendo colocado em prática sistematicamente, em várias searas de nossas vidas.
Importa porque a vida é muito mais do que, muitas vezes, nos permitem que ela seja.
E, por fim, importa porque falar disso é imperioso pra que as mulheres se tornem aos poucos novamente donas de seus mais delicados e poderosos momentos, conforme a natureza as dotou.

Super-recomendo o filme.
Super-recomendo informação.
Super-recomendo a leitura das impressões que se seguem daquele bebê que saiu do meu corpo, Adélia, porque, saibam, eles crescem, e podem agir.

Agora, o texto de Adélia:


Acabei de assistir ao documentário "O Renascimento do Parto". Desde criança minha mãe comentava comigo, diante da minha curiosidade e de outras circunstâncias pertinentes, como parto normal era melhor pra mulher, apesar de eu ter nascido de cesár...ea. Lembro de me assustar com a ideia do corte, a ideia de ficar dias no hospital e a ideia de ficar horas separada do bebê, desde muito pequena.
Eu sonho que estou grávida/parindo/tenho um bebê pequeno na base de umas três vezes por semana. Tenho plena consciência da minha necessidade pela gravidez, parto e maternidade, e de uma forma bem mais animal do que existencial. Lembro de quando me disseram que eu tinha "anca boa", que seria "boa parideira", não soou nem um pouco mal aos meus ouvidos.
Eu (eu) acho que o dia mais importante da minha vida vai ser quando eu der à luz meu (primeiro) filho, e portanto acho que vale mais à pena gastar uma fortuna, se possível, pra garantir que esse dia corra como eu sempre sonhei desde pequena do que, por exemplo, um casamento. (Eu, tá?)

Pois bem, o que o documentário tem de riqueza fundamental é a variedade de depoimentos de diversos profissionais e estudiosos a respeito dos procedimentos-padrão com relação ao parto, como eles são (pra ser bem eufemista) questionáveis, como é necessário um reajuste de valores e vozes. Eu não vou replicar os argumentos expostos no filme, até porque ele precisa ser visto e divulgado (apesar da trilha musical sofrível, pqp).
Mas foi fundamental ver um compêndio de colocações favoráveis a uma via menos regida pela coisificação, pela conveniência e pelo vício de certas práticas que não se sustentasse somente em casos específicos e extremos - cujo conhecimento é igualmente importante, mas que não devem ser tomados como regra, como eu mesma tomei há uns meses atrás diante do meu primeiro contato sério com o assunto.

Basicamente, as sensações que ficam em mim do documentário são:
1) a mulher é esse ser com esse poder, essa potência natural de gerar e parir um outro humano, que privilégio o meu ser uma;

2) o hospital é um grande aliado do parto, se não vier junto com o espaço e os recursos toda a gama de procedimentos abomináveis a que está associado, graças a uma mentalidade regida pela falta de questionamento e de olhar específico sobre cada indivíduo;
3) a cesárea salva vidas, mas é absolutamente desnecessária na vasta maioria dos casos, e é impressionante como o sentimento de proteção e de medo de fazer mal ao próprio filho permite que cesáreas desnecessárias sejam sugestionadas às mulheres. nessas horas, é crucial estar cercada de pessoas com quem uma relação de confiança sólida tenha se estabelecido ao longo da gravidez, pra que no caso de um quadro de risco real a cirurgia não macule a autoconfiança da mulher;
4) mas se a mulher quiser realmente fazer a cesárea e realmente sentir que aquela é a melhor opção pra ela, ela não pode, pelo amor de deus, ser escrotizada pela polícia ideológica alheia;
5) dizer "mas o importante é que nasceu bem, nasceu saudável" minimiza o ato de parir, como se ele fosse secundário, e não é. claro que é importante nascer bem e saudável, mas nem sempre se dimensiona os efeitos psicológicos que certos procedimentos e linguagens causam na mãe E no bebê, ambos num momento tão delicado (porque não quero usar o termo "frágil"), e isso É importante, pra caramba;
6) o medo da dor, das horas, do cocô, sei lá, tudo que está negativamente associado ao parto normal precisa ser desmistificado (ou re-naturalizado), e tenho pensado muito em como há dias difíceis na vida, às vezes anos inteiros, acometidos por dores físicas ou não, mas que a gente gasta tanto tempo e energia pra entender seu sentido e blablablá, e aí você compara com um dia de, digamos, 12 ou 15 horas, em que o seu corpo tá lá, se preparando, e você vai sofrer, vai sangrar, vai talvez cagar na frente dos outros, mas porra, vai sair uma pessoa de dentro de você, que vai viver, sei lá, 80, 100 anos - pra colocar as coisas numa forma bem ingênua e simplista, eu no mínimo acho que a matemática vale a pena.

Enfim, tô com 25 anos. Acho que tá na hora certa pra se pensar nisso, por mais que em algum nível eu sempre tenha pensado. Filho deve rolar pra mim na próxima década. Pras minhas amigas. Eu quero. E quero me sentir confiante de que, até segunda ordem (quiçá terceira), tudo está a nosso favor, que estaremos cercadas de pessoas que vão nos respeitar e nos ajudar, e quero sentir que todas as mulheres têm essas mesmas condições.



Eu não vou aqui desejar um feliz dia das mães porque o que eu desejo é que todas as pessoas, homens e mulheres, pais, mães, filhos, se apossem do seu direito de viver plenamente as suas vidas.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Aula final - curso "O consumo infantil"

Finalizo minhas notas sobre o curso "O consumo infantil" comentando brevemente a aula ministrada pelo jornalista André Trigueiro.

Recém chegado de uma viagem de trabalho à China, ele expressou o quanto estava impactado com o que viu por lá, uma sociedade que convive rotineiramente com índices de poluição atmosférica muito, mas muito além do que seria concebível; uma juventude que, ao tentar migrar para outros países, alega perseguir com isso o direito a condições básicas, como ter acesso a ar pra respirar. Com essa introdução, André trouxe para a turma o resultado de sua busca em dicionários para a palavra CONSUMIR: destruir, dilapidar, causar ou sofrer dano, esclarecendo que o consumismo - fenômeno contemporâneo- é o consumo em excesso, um desperdício.

Ao citar Ladislau Dalbor, economista da PUC de São Paulo, trouxe para a turma a frase que considero ser a tradução exata da tal da alucinação (citada no post anterior) pela qual acho que estamos cada vez mais enredados, na avidez de comprar, de ter, de progredir, crescer:

"Crescer por crescer é a filosofia da célula cancerosa"

Eis o "dilema" contemporâneo: modelo de expansão econômica x modelo de equilíbrio econômico....

Nada melhor do que a leitura do artigo de Victor Margolin, "O design e a situação mundial", para poder refletir sobre isso:
http://www.esdi.uerj.br/arcos/arcos-01/01-03.artigo_victor(40a49).pdf



Foi muito bacana fazer esse curso, conhecer essas pessoas, partilhar com a turma tantas indagações e experiências.

A situação é pra lá de preocupante, e disso a gente já sabia. Mas é importante que isso seja falado, discutido, alertado. Quem sabe possamos contribuir na procura de uma saída.

sábado, 19 de abril de 2014

Sobre o curso "O consumismo infantil" - aula 2

Laís Fontenelle ministrou a segunda aula do curso. Ela é do Instituto Alana, de São Paulo, que dentre muitas outras funções importantes em defesa das crianças produziu o documentário "Muito além do peso" - uma denúncia sobre o quanto a infância brasileira vem sendo cooptada pela indústria de alimentos nada saudáveis. Pra quem ainda não viu, super vale à pena assistir!



A aula foi muito rica de informações, mas novamente aqui vou me restringir a compartilhar algumas notas que fiz e tecer comentários sobre o que mais me chamou a atenção.

Laís começou contextualizando o papel da criança na história, lembrando que apenas muito recentemente (séc XVII/XVII) a noção de infância surgiu, pois antes disso as crianças eram consideradas adultos pequenos, já que improdutivos, desconsiderados até mesmo nas representações pictóricas. Sugerindo a leitura do livro "O desaparecimento da infância", de Neil Postman, citou um trecho em que o autor sublinha a importância do surgimento da prensa tipográfica na configuração da noção de infância, pois aprender a ler foi desde então se tornando um divisor de águas no reconhecimento da criança enquanto sujeito da sociedade.

Hoje, diante de todos os aparatos de informação e de comunicação, antes e mais do que aprender a ler, o conhecimento é transmitido por imagens (na TV, nos Ipads, Iphones etc., mídias detentoras de eloquente papel pedagógico nessa nossa cultura), e alarmantemente o que define a criança como sujeito social é o fato de que ela pode consumir.

Pesado isso, não é? Mas real....

Um mercado imenso de produtos mercantiliza a infância; o ritmo alucinante da vida dos pais se torna permissivo à terceirização dessa mesma infância, delegando a produtos e serviços os cuidados com os pequenos.

Laís mostrou alguns anúncios voltados para as crianças realmente infames e falou da luta do Instituto Alana no sentido de proibir publicidade voltada a esse público, poucos dias depois da primeira vitória alcançada no Brasil: http://defesa.alana.org.br/post/82994668848/entenda-a-resolucao-que-define-a-abusividade-da

E daí veio, pra mim, a bomba da noite: a notícia de que hoje existe uma área do marketing com foco também para os pequenos, o merchantainment - a fusão entre propaganda e entretenimento. Segundo o blog Consumismo e infância:

"O merchantainment está em todos os lugares. A Disney World, por exemplo, realiza para seus funcionários cursos sobre o tema, com o objetivo de formar “merchantainers” que criem uma experiência positiva aos visitantes do parque no intuito de que eles comprem mais produtos. No entanto, é quando a prática chega ao mundo digital que ela ganha mais força, com a geração de conteúdo lúdico móvel, sites e redes sociais com objetivos mercadológicos. A Ralph Lauren Kids, por exemplo, começou nos Estados Unidos uma nova campanha chamada RL Gang, que consta de um livro e um filme na internet onde os personagens usam roupas da marca que estão à venda nas lojas. Ao assistir o vídeo, crianças podem clicar nos seus personagens preferidos para comprar seus guarda-roupas. Esse tipo de ação publicitária faz com que a criança crie uma associação entre o produto e a diversão, se aproveitando da vulnerabilidade da criança, que não percebe o intuito de venda."- See more at: http://www.consumismoeinfancia.com/16/12/2010/fusao-entre-publicidade-e-entretenimento/#sthash.eYTmtShi.XPHJt8P6.dpuf

Dos comentários que se seguiram à fala de Laís, fiquei com a exata noção de que o consumismo é uma droga, uma droga lícita, cujos efeitos são alucinógenos, criam uma dependência cada vez mais sem saída do consumo, uma vez que é difícil visualizar qualquer remédio pra isso.

Então me lembrei desse trecho do meu livro, sobre quando o marketing estava surgindo.


Em 1957, quando as relações entre indústria, comércio e consumidores pareciam viver uma fase tranquila, Vance Packard publicou uma estridente denúncia dos recursos de manipulação adotados por agências de publicidade e escritórios de marketing, intitulado The Hidden Persuarders: Em 1957, quando as relações entre indústria, comércio e consumidores pareciam viver uma fase tranquila, Vance Packard publicou uma estridente denúncia acerca dos recursos de manipulação adotados por agências de publicidade e escritórios de marketing, intitulado The hidden persuarders:
Estão sendo feitos, com êxito impressionante, esforços em ampla escala para canalizar nossos hábitos irrefletidos, nossas decisões de compra e nossos processos de pensamento, com o emprego de conhecimentos buscados na psiquiatria e nas ciências sociais. […] Parte da manipulação que está sendo tentada é simplesmente divertida. Outra parte é inquietadora, principalmente quando encarada como um prenúncio do que talvez esteja reservado a todos nós, no futuro, em escala mais intensa e efetiva. (Packard, 1959, p. 1)
O autor alertava que tais pesquisas se dedicavam a convencer o público tanto acerca da aquisição de mercadorias quanto da adesão a ideologias e atitudes. Preocupado com a questão moral, sinalizava que o princípio da manipulação abre espaço a questionamentos perturbadores, como o que indaga que tipo de sociedade ela é capaz de moldar, haja vista seu poder de penetração pelos meios de comunicação de massa:
Talvez os adeptos da geração de otimismo tanto nos negócios como no governo possam apresentar argumentos impressionantes sobre a necessidade de preservar a confiança pública para que tenhamos paz e prosperidade. Mas para onde isso nos está conduzindo? (p. 239)
Tentando considerar a possibilidade de haver espírito de pesquisa sobre o comportamento humano na atitude dos cientistas sociais e psiquiatras que cooperam com os métodos de persuasão comercial, Packard reivindicou a elaboração de códigos de ética profissional; e embora não tenha incluído os designers dentre os responsáveis pelo fenômeno (o que Ralph Nader e Victor Papanek fariam em breve), profetizou:
Além da questão das práticas específicas dos persuasores e dos cientistas a eles associados, há a questão maior de saber para onde nossa economia nos está levando sob as pressões do consumismo. Essa também é uma questão moral. De fato, suspeito que está destinada a ser uma das grandes questões morais de nosso tempo. (Packard, 1959, p. 243)
´



Sem dúvida alguma, caro Vance. 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Notas (um pouco aleatórias) sobre o curso "O consumismo infantil - danos no presente, ameaça para o futuro" - aula 1

Ministrado pelo pediatra Daniel Becker, por Laís Fontenelle - do Instituto Alana, e por André Trigueiro, jornalista, este curso ocorrido na Casa do Saber deixou - na minha opinião- uma marca bastante original: a perspectiva macro sobre o assunto. Num momento em que tudo tende ao foco, em que parece se estar dependente de recortes para ir fundo nas questões, sermos brindados com uma lente grande angular é um luxo, principalmente porque dela depende o real entendimento de muitos problemas.

Eu me lembro da fala do Prof. José Maria Gomes em minha defesa de tese: "Por mais incrível que possa parecer, a mamadeira é efetivamente uma questão das Relações Internacionais". É sim, e de todas as áreas do conhecimento também. Considera-la como objeto de estudo restrito à área da saúde é não vê-la e não entende-la devidamente. A perspectiva macro pode ser arriscada (ah, vai se perder...) mas sem ela se corre o risco de não reunir elementos suficientes para uma análise crítica.

Vou fazer três posts, um sobre cada aula, pois a carga de informação foi muito grande e assim acredito que me organizarei melhor.

O Dr. Daniel iniciou citando que a descoberta dos micróbios e bactérias (que estão fora do nosso corpo e são invisíveis) e a criação da penicilina (vacinas e antibióticos) propiciaram que males externos ao organismo humano pudessem ser tratados. Mas essa lógica da medicalização persiste até hoje, mesmo depois de nosso estilo de vida ter mudado ao ponto de os males dos quais sofremos não serem mais externos, mas sim muitas vezes internos, resultantes do estilo de vida que assumimos. Por exemplo, as doenças cardíacas são provocadas por hábitos alimentares, falta de exercícios físicos, tabagismo. Mas a lógica prossegue sendo a de medicalizar esse mal ao invés de mudar esses hábitos, nos colocando como sujeito da frase "eu não participo da minha própria cura".

As indústrias farmacêutica, estética etc. tomam o lugar do novo Messias, e a salvação se realizará pelo consumo de seus produtos, motivo para os fenômenos contemporâneos da medicalização da vida, da mercantilização e estetização da saúde.

Daí ele falou do sol, da importância do sol para a vida de todos, do quanto a chegada do filtro solar nos afastou do convívio com seu calor, com as benesses que ele nos dá. Todo mundo com medo do sol, se preservando do câncer de pele. Sim, há que se preservar a pele da exposição abusiva, nos horários em que ele não é legal, mas muitas pessoas fogem do sol, eliminaram a exposição ao sol de suas vidas. Nossa, daí ele falou uma coisa que me abalou muito: tomar suplementos de vitamina D não resolve porque o que o sol nos dá é muito mais do que isso. E se a uma mulher faltam as vitaminas proporcionadas pelo sol, quando ela engravidar, não as terá para transmitir ao seu filho (!!!!).

Muitas coisas importantes foram ditas naquela noite. Registro aqui aquilo que foi mais impactante pra mim.

E, de tudo, o que mais me estremeceu foi ouvir em uma frase aquilo que percebo dia após dia, e que resume a urgência de mudança de postura de todos nós perante a vida: as elites financeiras, diante da crise ambiental e de quaisquer crises, farão de tudo para manter seu status quo, utilizando como estratégia o princípio de negação de todo e qualquer problema.

Naquele momento baixaram na minha cabeça a lembrança dessas imagens de uma campanha da marca Diesel, de alguns anos atrás. Eu me arrepio só de pensar, porque o fato é que coisas análogas a essas já cansam de acontecer.