sábado, 9 de dezembro de 2017

Documentário valioso!



Começo o dia com a alegria de assistir a um documentário valioso sobre a história da amamentação no Brasil, realizado pela IBFAN Brasil.

Que gente incrível! Que processo longo, árduo e ao mesmo tempo encantador ...

Uma luta que vale milhões, bilhões ... vale "o infinito que nunca acaba" (frase que inventei pra explicar à minha filha, quando criança, a extensão do amor que eu sentia por ela)  :o)

domingo, 19 de novembro de 2017

Palavras, palavras, palavras



Independente dos momentos variados pelos quais tenha passado,
a imagem que nos chegou e que fixamos da Gisele-mãe em nossa
memória muito possivelmente foi essa.


A primeira coisa que li nesse domingo foi uma matéria da TIME.COM, abordando a situação de tantas mães que planejaram o parto natural e a amamentação, mas enfrentaram obstáculos e acabaram por ter suas metas frustradas.

O texto trata do quanto são impiedosas a pressão e a cobrança externas e também internas pelo alcance de resultados biologicamente ideais em meio à imensa complexidade da realidade que cerca a mulher em seu momento de maior vulnerabilidade.

Mais adiante a matéria aponta que, em grande medida, isso vem acontecendo em decorrência tanto da influência das redes sociais -onde muitas vezes se canta "em verso e prosa" o poder da natureza, refletido em exemplos de figuras públicas que alcançaram o ápice da realização em seus partos e amamentação, quanto da influência exercida por um ativismo insistente (talvez até "ortodoxo", eu diria) em defesa do nascimento e da alimentação naturais para bebês.

E mais adiante ainda, a Iniciativa Hospital Amigo da Criança, certificação de maternidades idealizada pela OMS e pelo Unicef para proteger, apoiar e promover o aleitamento materno, é apresentada como uma medida originalmente tomada para garantir uma alimentação adequada a crianças, "especialmente em regiões que não possuem água potável". Vale dizer que o relatório The Baby Killer, estopim da mudança no paradigma científico, realmente decorre de uma pesquisa do autor em viagem aos países do então chamado Terceiro Mundo, que recebiam fórmulas lácteas e mamadeiras como doação, locais mais pobres onde água potável era artigo raro. Mas essa frase pode -mesmo sem ter a intenção- levar o leitor a considerar, como muitas pessoas consideram, que em situação menos precária esse problema não aconteça. A diretriz da OMS e Unicef em estabelecer os passos que compõem a Iniciativa  se baseou na denúncia do relatório, mas se dirige à sociedade como um todo. A IHAC também é criticada no texto por ser demasiadamente impositiva em seus dez passos, que incluem a proibição de entrada de mamadeiras, bicos e chupetas e o alojamento conjunto, levantando a eventualidade de que o bebê dormir junto à mãe pode sufocar acidentalmente a criança.

A autora do artigo relata ter perguntado ao representante da IHAC nos EUA sobre "quais seriam as possíveis consequências de não amamentar: lesão? Doença? Morte?".

Bom, precisei então fazer esse post. Tenho plena consciência de que textos podem ter várias leituras. Mas escrevo principalmente porque percebo muito intensamente o quanto os discursos podem nos parecer coerentes, mas simplificar, ocultar ou omitir informações cruciais. Frases que passam "batido", mas mesmo sem intenção do autor, comunicam diferentemente do que pretenderiam.

1) Tenho acompanhado bem de perto situações de nascimento e tentativas de amamentação que deparam com problemas que provocam o uso de recursos que contrariam o desejo e os planos dessas jovens mães (partos cesáreos e complemento- fórmula). Realmente difícil ... Dentre cinco casos, apenas um foi de sucesso integral, sem qualquer tipo de obstáculo. A chegada de um bebê é sempre revolucionária, capaz de transgredir tudo aquilo que vem sendo excessivamente comentado, planejado, idealizado atualmente nesse ambiente de intensa interligação comunicativa.

2) As redes sociais hoje são um veículo que permite mostrar momentos que antes eram registrados em fotografias, que só de vez em quando eram reveladas e ampliadas para compor álbuns. Quando ficavam prontas, aquele registro já fazia parte do passado. Agora podemos abrir as janelas de nossa vida, dos acontecimentos e dos nossos pensamentos quantas vezes quisermos por dia. Acho que isso faz com que o presente tenha ganho, potencialmente, o poder de ficar lotado de acontecimentos que, para poderem ser exibidos nas redes, é melhor que sejam bons acontecimentos. Muita pressão... E exemplos demais, referências demais, ao alcance das nossas mãos, mas verdadeiramente distantes da gente.

3) Ativismo insistente? O ativismo é uma resposta da sociedade civil organizada ao poderio das corporações, é um instrumento de valorização das capacidades humanas que as indústrias insistem em descredenciar com seu discurso sedutor: fantasiando vendedoras de enfermeiras e entregando latas de leite em pó e mamadeiras a mães que estavam amamentando seus bebês na África, nos anos 70; misturando melamina (plástico) pra simular proteína em leites em pó, o que provocou pedra nos rins em mais de 6 mil crianças na China em 2009; violando regras de controle com estratégias de marketing que fazem com que países como a Inglaterra tenham menos de 2% de bebês amamentados exclusivamente até os 6 meses; fazendo crer às pessoas que doar leite em pó para populações vítimas de desastres naturais salve vidas, quando a falta de água potável nesses casos é um convite à doença e morte de crianças que, por essa oferta, serão precocemente desmamadas, como no tsunami na Indonésia, em 2004, ou em Teresópolis e Friburgo em 2012.



4) Água é um problema mundial. Dizer que a Iniciativa Hospital Amigo da Criança foi concebida motivada especialmente para regiões que não possuem água potável é torcer a realidade. As pesquisas científicas que denunciaram os perigos do leite em pó, como "Leite e homicídios", da Dra. Cicely Williams, foram realizadas em várias partes do mundo. E se alguém confia no fato de que dispor de água potável é garantia para o uso de mamadeiras, pense bem se já não deixou de lavar esse produto depois da mamada, deixando-o uma noite inteira na pia da cozinha. As bactérias do leite se proliferam e se escondem nas roscas e tubos e cantinhos daquele objeto, que quase nunca é lavado conforme recomendam seus fabricantes. Veja o vídeo.

5) E o destaque para o fato de que a criança corre o risco de sufocamento por dormir junto à sua mãe nas maternidades? Eu gostaria de refutar essa afirmação, mas me faltam informações, pois me dediquei em pesquisa a deparar com coisas que se omitem, como os casos graves de engasgos que ocorrem com as mamadeiras, meu objeto de estudo. Amigos pediatras neo-natais, me auxiliem aqui, please!

6) Por fim, não amamentar causaria algum dano tão grave quanto "lesão? Doença? Morte?" Sim, pode causar tudo isso, mas os efeitos são silenciosos e a longo prazo. Defeitos no desenvolvimento oro-facial, mordida aberta, respiração bucal, rinite, otite, pneumonia, diarreia, morbidade e morte.

O fato é que muitos de nós nascemos de partos cesáreos, fomos criados com leite artificial por mamadeira e não morremos. Ok, ficamos adoecidos quando poderíamos ter nos livrado disso, usamos aparelhos ortodônticos, operamos o adenoide etc., mas estamos aqui, firmes.

Sim, firmes e entrosados em uma cultura que cada vez nos cerca mais e mais de ofertas de consumo e de medicalização, que fez com que o Brasil chegasse a ser campeão mundial de cesarianas.

Concordo com o fato de que, sem dúvida, o momento atual é crítico para as jovens mães que têm seus filhotes em cenário de tantas intensidades, superlativos e imperativos.

Só que a cada dia identifico coisas que operam para nos tornar cada vez mais desacreditados de nossas próprias capacidades.


sábado, 18 de novembro de 2017

A vida, os mortos e caminhos tortos



Essa manhã me surpreendi com um post de Facebook que noticiava a criação, por um menino de 10 anos (!), de um dispositivo para impedir que crianças sejam esquecidas em carros.

Muito impressionante um garoto dessa idade ter iniciativa e habilidade pra criar algo assim. Seu nome é Bishop, ele mora no Texas e é filho de um engenheiro da Toyota.

O dispositivo, de nome Oasis, foi pensado para ficar acoplado ao banco traseiro dos automóveis e funciona soprando ar fresco no ambiente fechado.

À primeira vista, a gente tende a pensar: poxa, que bacana passar a existir algo assim!

À segunda vista, a gente indaga: o certo não seria pensar num dispositivo a ser não criado, mas resgatado das capacidades humanas desses pais? A matéria registra que nos Estados Unidos morrem anualmente 37 crianças pelo fato de elas terem sido esquecidas por seus pais no interior de veículos fechados. E existe até uma organização chamada Kids and cars, dedicada a monitorar e evitar essas mortes.

À terceira vista, a gente se preocupa: os jovens estão cada vez mais entrosados com a ideia de que dispositivos podem ser sempre criados para solucionar os problemas que surgem. Produtos, aplicativos, coisas para fazer as coisas por nós. Eles nasceram e crescem sob essa mentalidade. Caminhos tortos ...

Esse menino merece toda a admiração, por se deter em um projeto com finalidade tão vital, e a indústria automobilística deve providenciar logo a adoção do Oasis, como item de segurança de seus produtos, pois além de crianças, eu já soube de casos de idosos deixados tempo demais dentro de carros fechados (meu pai estacionou em frente ao banco, minha mãe ficou no banco do carona, ao tirar a chave da ignição ele desligou o ar-refrigerado e, por costume, ao sair do carro trancou as portas. Foi brabo pra ela ...).

Mas parece haver urgência urgentíssima, isto sim, de as pessoas recuperarem sua atenção para as coisas que mais verdadeiramente importam na vida, deixando para o segundo plano a correria e priorizando conscientemente aquilo que exige responsabilidade e cuidado.

Esse dispositivo existe e está dentro de cada um de nós.

sábado, 11 de novembro de 2017

Sobre o copo antivazamento 360 graus



Sou defensora da ideia de que deva ser criado um copo eficiente, atraente e inventivo que solucione a administração de alimento aos bebês quando, provisoria ou definitivamente, não for possível amamentar.

Como já dito em outros posts, os bebês conseguem manter, no copo, o movimento de sucção que parte da projeção da língua para fora da boca, movimento esse que nascem preparados para executar no seio da mãe (para sugar a mamadeira eles precisam se adaptar ao produto, tendo que elevar a língua contra o céu da boca, o que acarreta problemas futuros na arcada, respiração bucal e suas consequências).

Há um copo muito interessante no mercado que vem angariando o interesse das famílias. Ele lança um sistema antivazamento 360 graus que, como diz sua definição, não derrama. Mesmo colocado de cabeça para baixo, o líquido não vaza.

Eu me interessei, fui a uma loja e escolhi uma das marcas para comprar, com a finalidade de abrir a embalagem, entender o sistema e testá-lo.

Quanto ao antivazamento, funciona muito bem. São modelos bonitos, realmente inovadores, ou seja, reúnem esteticamente os atributos que considero serem indispensáveis para que os consumidores considerem sua aquisição e uso.

Identifiquei sem demora, porém, que o sistema não permite que o bebê ou criança um pouco maior nele beba como um gato que toma leite no prato, ou seja, projetando a língua para fora e sorvendo o líquido.

Entendi que esse copo se destina a crianças maiores, trazendo como contribuição dois fatores:
1) a possibilidade de acondicionar líquidos em seu interior sem risco de vazamento;
2) a novidade de permitir que a "criança beba sem fazer esforço ou bagunça" (anúncio da NUK na revista de bordo da GOL).

Então, reprogramei minhas expectativas, mas comecei a acumular motivos para críticas: é impressionante como os produtos destinados às crianças cada vez mais estruturam sua retórica projetual e promocional prometendo o fim da sujeira, o fim dos pequenos acidentes desagradáveis, que vão nos dar trabalho, vão sujar a roupinha e o sofá da sala (!).

Mas ao consultar o folheto de instruções, prática pouco usual que precisa tornar-se mais do que usual em prol da nossa própria segurança, vejo que, entre vários outros alertas, o copo:

- não é adequado para bebidas quentes ou gaseificadas (a informação está em destaque) , pois a pressão poderá se acumular dentro do copo (imagina ...);

- precisa ser utilizado pela criança sempre sob a supervisão de um adulto - essa informação consta de muitas "bulas" de mamadeiras, mas não se costuma ler essas instruções. As mamadeiras tendem a ser consideradas produtos que proporcionam liberdade às famílias e autonomia às crianças, contrariamente aos alertas presentes em seus folhetos de instruções. Os fabricantes, assim, têm como se defender no caso de ocorrerem engasgos e outros problemas que não são incomuns em crianças deixadas sozinhas com o produto. No caso de um copo que não derrama, penso que os pais dos usuários tendam a se sentir realmente dispensados de ter esse cuidado;

- é necessário coar sucos com polpa, pois ela pode entupir o anel da válvula - daí fico pensando que o copo só serve mesmo pra tomar água e refrescos, tipo Tang ...

Pensei: é tão importante a criança aprender a lidar com o copo ou caneca, apurando o ajuste motor fino para incliná-la no ângulo suficiente que faça o líquido chegar à boca! Isso se consegue com a boa caneca de plástico, que não quebra, pode ter um desenho bonitinho e ser considerada "a minha caneca" pela criança, sua dona.





A conclusão de minha análise é que, apesar da bela forma e da profunda pesquisa de sistemas e materiais empreendida nesse projeto de copo antivazamento, ele não trás contribuição significativa para o cenário dos produtos infantis. Ao contrário, adia o desenvolvimento das crianças na lida com copos comuns.

No entanto, considero o produto muito útil para pessoas idosas com problemas motores e/ou neurológicos. Elas por certo irão se constranger por ter que adotar um copo especial, mas esse constrangimento será menor do que aquele que poderão sentir se forem chamadas à atenção, mesmo que carinhosamente, por terem desaprendido gesto simples que até então dominavam

sábado, 4 de novembro de 2017

Sobre rede de apoio

Pierre-Auguste Renoir
Hoje reproduzo aqui texto de minha filha, Adélia Jeveaux, sobre rede de apoio.

Rede de apoio, oi? O que é isso?
Volta e meia, quando emito algum comentário mais específico sobre o universo do cuidar de bebês e menciono que sou parte da rede de apoio de várias puérperas, tenho um olhar de confusão como réplica. Mesmo na faculdade de psicologia, por vezes a menção ao conceito de rede de apoio é recebida com algum estranhamento, o que me intriga. “Ué, mas quem faz isso não é a babá?” “Ah, mas é a família que ajuda nessas coisas, né.” Pois bem, sim e não.
Rede de apoio é a ideia de que a chegada de um bebê a um grupo, seja esse grupo a família ou a família estendida que inclui os amigos, é algo que mobiliza as pessoas. É a noção de que o entorno deve se implicar no processo de cuidar da criança e proporcionar um bom ambiente pra que ela se desenvolva. Não se trata de um mutirão pra fazer tarefas específicas, nem de abdicar da sua vida em prol do filho dos outros. Ser rede de apoio é, antes de tudo, fazer-se acessível e disponível. Nem sempre vai envolver uma ação concreta, mas o simples fato da mãe saber que pode te acessar já representa um pequeno conforto. 

Na maior parte das vezes, ser rede de apoio é comprar coisas no mercado, fazer uma comida, lavar louça, pendurar roupa no varal. Mas muitas vezes é dar colo pra mãe, dar colo pro bebê, dar colo pro pai. É ouvir e acolher o que vem deles, o que eles precisam externalizar, e conversar, seja pra falar do assunto bebês ou pra distrair do assunto bebês. É, também, cuidar ou se oferecer pra cuidar do neném pra que os pais possam aos poucos retomar a vida de casal. Além disso, rede de apoio é a ideia de que a mãe (e o pai, mas mais a mãe) também precisa de cuidados, porque há uma demanda enorme de energia e atenção que não deixa espaço pra outras preocupações cotidianas. Também envolve não criticar, não julgar e respeitar as decisões do casal sobre alimentação e instrumento de alimentação. Se possível for, compartilhar informações ou contatos que possam aprofundar assuntos específicos que estejam em questão, mas acima de tudo o papel da rede é o de dar a mão e encorajar a seguir em frente.

Sobre o quanto venho aprendendo com os bebês eu já escrevi, mas não poderia deixar de dizer o quanto aprendo com e o quanto admiro as mulheres e homens ao meu redor que estão desbravando essa viagem de disco voador que é receber uma pessoinha.
Obrigada por me deixarem estar por perto.


Rede de apoio é o reconhecimento de que o puerpério é muito difícil, de que há muitas transformações em curso o tempo inteiro, e de que um dia que começa bem e tranquilo pode se transformar num caos em poucas horas. Como diz uma amiga, ter neném pequeno é viver na Band News, porque “em 20 minutos tudo pode mudar”. Claro que cada experiência é uma experiência, mas, em grande medida, pouco se fala publicamente sobre as agruras das primeiras semanas ou meses após o nascimento de uma criança, e as mães se vêem jogadas numa provação que metaboliza muita angústia. Não precisa ser assim.
Winnicott fala que o bebê é um fardo que a gente resolve chamar de bebê, e, portanto, se mobiliza para cuidar e acolher. Essa afirmação pode soar tão dura quanto libertadora, e estar numa rede de apoio proporciona o contato com ambas as facetas desse momento tão crítico da vida. Porque apesar de a internet e o empoderamento feminino gerarem trocas muito ricas de informação, apesar de haver curso de parto, curso de amamentação, curso de primeiros cuidados etc, a realidade, ainda assim, traz desafios e situações pras quais pais e puérperas não estão preparados, e vão precisar de ajuda. Ser rede de apoio é trocar fralda e acalmar choro, oferecer o ombro, mas às vezes é resolver coisas triviais, tipo repor o detergente, mas que ajudam a aliviar a carga.
Em última instância, ser rede de apoio é um ato político, porque ajudar a cuidar de crianças é um ato político. Quem quer que tenha inventado essa ideia de que o puerpério é algo que só diz respeito à mãe, talvez também à avó, e deve ser vivido e superado na solidão e na clausura de casa, por conta de uma noção cruel que equipara maternidade a dar conta de tudo, essa pessoa é um vilão da nossa história. É um ato político pelo aspecto do feminismo, porque é uma forma de se unir em prol das mulheres. É político pelo aspecto da crescente terceirização da infância, porque é uma maneira de encarar a necessidade real por ajuda de forma colaborativa e implicada, entendendo que ajuda profissional (de babás, empregadas, consultoras etc) é uma enorme mão na roda, mas não precisa ser a única opção pros pais e mães de recém-nascidos. É político por conta do capitalismo, que nos pressiona a sempre sermos produtivos e a fazer escolhas cruéis, mesmo nos momentos mais difíceis.
Que fique claro: ninguém é obrigado a se prontificar a fazer parte de rede de apoio de ninguém. Apenas quis compartilhar algumas reflexões que essa experiência intensa vem me trazendo. 

domingo, 22 de outubro de 2017

Sem título

Sem título - Keith Haring - 1982

Hoje é tudo patrocinado, né?

Antes não era ...

Eu me lembro que na minha juventude (anos 70, 80), a praia de sábado era o momento de saber qual seria o programa da noite. As pessoas davam festas. Normalmente eram de um amigo do amigo, e aquele grupo grande chegava nas casas, grupo de amigos de um convidado. A gente se divertia, dançando a valer.

Aí as festas foram escasseando. Nos anos 90 eu e meu marido fizemos resistência a essa tendência, dando cerca de três festas por ano num apartamento pequeno. Arrastávamos os móveis e ele gravava altas fitas-cassete com uma programação musical que não deixava ninguém parado. As crianças iam pra casa da avó ou ficavam lá mesmo. Cada um levava algo de comer ou de beber e, se faltasse, a gente passava o chapéu e um voluntário saía pra comprar.

Mas continuaram escasseando as festas nas casas das pessoas, enquanto surgiam festas, enormes, financiadas por empresas. De bebidas. Arraiá da Boa e coisas do gênero.

Hoje só tenho notícia de festas de casamento. Fora isso, sei de festas infantis em casas de festas e em playgrounds, e de uma ou outra comemoração de aniversário em mesas enfileiradas de bares e restaurantes.

Por que estou falando isso? Porque ando super-pensando no quanto uma correnteza forte faz com que a gente tenda a depender cada vez mais das empresas e de sua grana pra realizar as coisas.

Ontem li, com alívio, a notícia de que a Orquestra Sinfônica Brasileira voltará à atividade depois de um tempo muito, muito escuro, em que seus integrantes ficaram sem trabalho, sem salário. Porque a Orquestra conseguiu patrocínio!

Aí me lembrei dos ENAMs (Encontro Nacional do Aleitamento Materno), que acontecem sem verbas de patrocínio de empresas (as que oferecem, em sua maioria, fabricam produtos que provocam o desmame precoce, mas têm um discurso fofinho de que "fazem bem" e coisas do gênero). As verbas vêm do governo federal, estadual, municipal; os eventos ocupam universidades.

Aí eu me lembro de que os congressos de pediatria prosseguem sendo patrocinados pela Nestlé.

Aí fico sabendo de um evento ocorrido ontem, em São Paulo, chamado Descomplica, mãe!, patrocinado pela Dove, pela Danone e mais um sem fim de outras empresas de produtos infantis.
Resolvo navegar no site.

Em patrocinadores, leio :
Baixe nosso book comercial e saiba por que estar presente neste evento fará da sua marca uma queridinha das mamães. 

Clico em Saiba mais:
Seja um patrocinador do evento! Uma oportunidade única de falar com o principal formador de opinião e shopper [comprador] da maioria das famílias brasileiras. 

Rolo a tela e encontro:
Estaremos arrecadando alimentos não perecíveis para auxiliar o CREN [Centro de Recuperação e Educação Nutricional - pelo que entendi, dedicado a acolher e orientar famílias pobres]. Os itens que eles mais precisam são: leite em pó, atum, sardinha e aveia.

É assim que as coisas vêm sendo.

Descomplica, mãe! Existem produtos para solucionar todas as coisas! Pra que se desgastar, se você pode comprá-los?

Podem ter sido legais as palestras, os papos desse evento. Mas quando a gente espia todo o marketing por trás, dá nervoso.

Tem um livro de Zygmund Bauman chamado Comunidade. Nele o autor trás à pauta o fato de que a comunidade se transformou: deixou de ser um grupo de pessoas, pra se transformar em pessoas que se reúnem em torno de marcas (seja um NET). Hoje, mais do que desejar pertencer a um grupo, a correnteza conduz a desejar pertencimento às marcas.

Aí continuo me lembrando de coisas. Dos grupos de mães que existem há um tempão e que nunca chegaram nem perto dessa coisa de patrocínio, mas também da série de filminhos da Nestlé que aparece no GNT, em preto e branco, sob o título Humanidade em nós, procurando se mostrar tão sensível à humanidade das pessoas, porém prosseguindo em sua escalada pelo lucro. Leia essa matéria pra constatar.

Eu sei, a escolha é de cada um. A escolha.










sábado, 9 de setembro de 2017

A Via Láctea de Adriana Varejão



Hoje fui conferir a exposição de Adriana Varejão e Paula Rego na Carpintaria (Jardim Botânico - RJ), uma galeria de arte que merece ser visitada por sua localização - de frente para a pista de corrida do Jockey Club Brasileiro, pela qualidade de suas exposições e por ser um ambiente muito bonito e aprazível.

As obras de Paula Rego me chamaram a atenção, meio pintura e meio desenho. Vale muito conhecer.

Mas fiquei especialmente curiosa quando li em nota da coluna Gente Boa, na última terça-feira, sobre o trabalho Via Láctea, de Adriana Varejão. O texto descrevia que na pintura, que"reúne várias imagens de bebês sendo amamentados, uma das cenas mais impactantes é a de um homem que oferece um peito-mamadeira, acoplado ao seu, ao neném".

Eu diria que a artista representou, em linguagem delicada de azuis, uma tipologia muito impactante da alimentação de bebês. Desde o mito da fundação de Roma (a loba com Rômulo e Reno) à comentada cena do homem com o bico acoplado ao peito.

Relato agora em closes a obra em questão:








Importante ver a questão como tema na produção contemporânea de arte.

domingo, 3 de setembro de 2017

Mais e mais novidades ...

Há algum tempo eu não pesquisava os lançamentos de mamadeiras. Céus, isso não para!

E apesar de todos os esforços a nível mundial, liderados pela OMS, com a participação de mais de 190 países na aliança internacional de proteção à amamentação, a indústria prossegue lançando mais e mais novidades ...

Deparei com uma grande profusão de mamadeiras cor-de-rosa. Os dois primeiros fabricantes, Dr. Browns e Tommee Tippee, até então produziam modelos em material transparente, com detalhes em verde ou cinza -o que conferia ao produto um ar, digamos, mais "farmacêutico ou científico". Agora as mamadeiras assumem a faceta de "objeto do desejo" (o que na verdade nunca deixaram de ter) voltado para o segmento das bebês-meninas. E o último modelo tem como marca a expressão "Green Kid", praticando o chamado greenwashing: uma "lavagem verde" em produto que não é realmente verde, pois embora o corpo do produto seja em aço inoxidável (livre de BPA), ele prossegue sendo uma mamadeira, com todos os impactos negativos provocados pelas mamadeiras (formal, fisiológico, ambiental etc.).







Ainda em cor-de-rosa, esse modelo da MAM apela para o desejo de consumo ao transformar a graduação para volume de líquido em painel ilustrativo.





E esse post se encerra com a notícia de que a rede de televisão Al Arabiya documentou em matéria a recente "febre" de customização de mamadeiras e chupetas com materiais preciosos (ouro de até 24 quilates e diamantes) como uma declaração de riqueza dos pais ...




... além de sinalizar que tal recurso acaba saindo mais barato do que a compra dos modelos de luxo vindos de fábrica:



Inacreditável..., e fez lembrar a febre de costomização de chupetas que recentemente atingiu o Brasil, com strass e outras pedrinhas, que acabavam se soltando, sendo engolidas pelos bebês junto à cola tóxica empregada para afixá-las ao produto, provocando uma medida de proibição do INMETRO.





E durma-se com um barulho desses ....





domingo, 13 de agosto de 2017

Em resposta à matéria "Um dó de peito", publicada pela Veja, neste julho.



O post de hoje é dedicado a contribuir para a divulgação da nota de esclarecimento da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia sobre matéria publicada na Revista Veja, em 12 de julho de 2017, onde foi defendido o oferecimento de leites artificiais "sem dano especial à saúde de recém nascidos", vinculando a recomendação à fala do Dr. Moisés Chenciski, o pediatra entrevistado.

Reproduzo abaixo o comentário que deixei lá:

É impressionante como uma revista, importante, pode prestar tamanho DESserviço à população ... Admiro muito a tarefa do jornalismo, mas comigo já aconteceu (algumas vezes), de dar entrevistas por email ou por telefone, ou mesmo presencialmente, e as frases serem desvirtuadas ou colocadas fora de contexto na matéria, perdendo o sentido original. Penso que muitos podem ser os motivos para que isso aconteça: pressão de prazos, alto nível de imersão do profissional que entrevista na cultura vigente dos leites artificiais e das mamadeiras, edições finais realizadas por pessoas que não participaram da interação e mesmo o comprometimento entre o veículo de imprensa e o lobby das indústrias.  Agradeço pelo esclarecimento conciso e indispensável.  

domingo, 30 de julho de 2017

Grandes Amigas do Peito!




Além de comprar peças de enxoval, berço e carrinho, e aguardar o nascimento de minha filha lavando todas as peças de roupa e fazendo bainha nas fraldas de pano, eu não fiz qualquer preparação especial para recebê-la. Ela nasceu, mamou muito bem o leite que eu tinha de sobra, e foi isso: simplesmente a amamentação aconteceu. Eu não me perguntei se deveria ou não amamentar. Eu e meus irmãos não o fomos. Ninguém me deu conselhos.

Mas havia ouvido falar muito de umas "tais" Amigas do Peito, grupo que começou em 1980. Apareciam na TV e nas revistas. A Bibi Voguel fez até propaganda de leite materno na TV. Tudo bem que assisti minha irmã mais velha amamentando seus filhos, mas por pouco tempo. Então vai ver que, de alguma forma e sem sentir, tive daquelas mulheres que eu achava bem "hippies" uma instrução que fez todo o sentido pra mim. Eu achava uma mágica poder produzir o alimento que fazia minha filha crescer.

Muito bem, eu só fui participar de uma reunião das Amigas do Peito quando já desenvolvia minha tese, bem "macaca-velha". Gostei. Pensava: poxa, teria sido bem legal se eu as tivesse procurado pra poder me informar sobre aquele lance que eu adorava fazer.

Com o tempo eu fui conhecendo o trabalho delas, por leituras, e as conhecendo e admirando também.

Até que na última sexta-feira fui à Maternidade Escola da UFRJ assistir à defesa de pós-graduação de Anilza Nolasco de Lima, que foi orientada por Marcus Renato de Carvalho em seu trabalho e contando com  Aline de Melo Aguiar em sua banca de avaliação. Anilza é uma das Amigas e, como disse Marcus, o evento ganhou escala de celebração ao reunir muitas mulheres daquele grupo para ouvi-la contar a história de todas elas.


O trabalho mostrou o quanto aquele grupo de mães, tidas como "hippies", colaborou e interferiu na construção das políticas públicas. Essas políticas ainda precisam melhorar muito, mas antes das Amigas as coisas eram muito mais precárias, acreditem. Será muito importante essa pesquisa ser publicada e reunidos os variados elementos que contam essa história de vanguarda no cenário brasileiro de organização da sociedade civil.


E um dado muito importante: em 2016 tivemos o XIV ENAM, Encontro Nacional de Aleitamento Materno, em Florianópolis, SC (IBFAN Brasil). Foi o terceiro a que compareci e, nossa ... quanta riqueza nesses encontros, quanta troca e aprendizado! Pois bem, mas foram as Amigas do Peito que começaram com essa história em 1991 (!), olha que legal:




Meu próximo post vai ser dedicado a comentar que é possível, sim, fazer as coisas sem patrocínio comercial. Assim vem sendo com o ENAM durante todos esses anos, apesar do assédio das indústrias de leites artificiais e mamadeiras, patrocinadoras de tantos eventos na área (se não sabia, acredite). Esse é o tema da Semana Mundial de Aleitamento Materno que acontece nestes primeiros dias de agosto: construir alianças sem conflito de interesses.

Encerro colocando um registro dos abraços das Amigas ...


... e mostrando também um desenho que fiz às pressas pra tentar trazer à companhia de Maria Lúcia Futuro (de costas, cabelo curto) esse grupo que fez tanto em defesa da amamentação (apenas ela estava em Florianópolis e receberia, sozinha, a homenagem às Amigas do Peito):




domingo, 23 de julho de 2017

Entranhada na cultura ....





Bebês tomando mamadeira. Em várias cores. Anos 60. Brinquedos.

Essas bonecas (feias) vinham cheias de rebarba na cabeça, imperfeições do processo de fabricação. Eram afiadas essas rebarbas, chegavam a cortar a gente ... Só que hoje, fazendo uma pesquisa no Google Images, eu levei um choque ao perceber que elas davam mamadeira pros tais bebezinhos que carregavam (!). Isso "passava batido" pra gente naquela época.



Da mesma forma que isso continuou "passando batido" pra mim quando eu estava curso de Desenho Industrial e, junto a um colega, me dediquei a projetar uma bolsa mais adequada do que as até então disponíveis para o transporte de utensílios de bebê: e lá está a mamadeira, como item indispensável (!). Pensamos até em um bolso térmico específico para mantê-la na temperatura adequada (!), assim como a papinha industrial (!).





É claro que atualmente faço a mea culpa embora, apesar de uns errinhos de datilografia, a pesquisa tenha sido realizada com muitas idas a praças pra conversar com as mães, pretensas futuras usuárias de nossa bolsa.

O ano era 1978, por aí. Fazia bem pouco tempo que o consenso científico internacional havia reconhecido a superioridade do leite humano e responsabilizado a indústria de fórmulas infantis por imensa parte do desmame precoce de trágicas consequências que houvera sido denunciado no relatório "The Baby Killer", de Mike Muller, em 1974.

Mea culpa porque devíamos ter conversado com profissionais da saúde também, antes de incluir a mamadeira como utensílio nobre desse projeto. Só que teríamos 99,9% de chance de sermos incentivados também por esses profissionais a incluir a mamadeira na bolsa que projetávamos, pois poucos sabiam disso, mesmo dentre aqueles que mais deveriam saber ...

Bem, quase 40 anos se passaram desde então. A informação sobre os problemas da mamadeira e dos leites artificiais pode ser obtida na internet sem dificuldade (desde que se queira encontrá-la). OMS e Unicef, WABA, Ibfan, Baby Milk Action, Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano, La Leche League e mais um monte de iniciativas da sociedade civil esclarecendo e divulgando o problema e apoiando, promovendo e protegendo a amamentação.

Mas prosseguem sendo concebidas, projetadas, produzidas, vendidas e consumidas bolsas para bebê que reservam lugar de destaque para as mamadeiras, como pode ser assistido no vídeo que me foi noticiado e que inclui como utensílio nobre também uma lata de Aptamil.

Design Diaper Bag:





A mamadeira está entranhada na cultura. É claro que há pessoas que continuam e continuarão empregando o produto para alimentar seus filhos pequenos, por opção.

O problema grave que percebo é que esses produtos induzem quem não necessariamente optaria a faze-lo a utilizar a mamadeira para preencher aquele espaço tão cuidadosamente destinado a ela. Assim é como se escolhêssemos, todos, admitir a mamadeira como natureza.

Daí a importância da pesquisa aprofundada em design, pois será duvidando das coisas que se impõem como ponto pacífico na cultura que conseguiremos restaurar no público a prática de refletir seriamente sobre suas escolhas de consumo.


domingo, 9 de julho de 2017

Novidades tecnológicas



Além do foco nas mamadeiras, o blog procura monitorar os lançamentos da indústria de cuidados aos bebês de uma maneira geral, e hoje trago duas novidades que me foram noticiadas por amigos: a primeira é uma incubadora para transporte de bebês, e a segunda é uma roupa capaz de se expandir para acompanhar o crescimento das crianças.

Babypod 20
A gente sabe que a Fórmula 1 contribui no sentido de aumentar a segurança dos automóveis em geral, e que um dos exemplos disso é o airbag.

Agora a Advanced Healthcare Technology trabalhou com a Williams Advanced Engineering  (Equipe Williams) para criar uma incubadora para o Serviço de Transporte Agudo de Crianças do Great Ormond Street Hospital (Inglaterra). Os principais atributos do produto são: o custo menor do que as incubadoras em uso, e maior segurança para o bebê, graças ao "uso da mesma tecnologia, materiais e recursos de design que protegem os pilotos de Fórmula 1". Veja a imagem em maior detalhe:


Confesso que fiquei com "o pé atrás" ao saber da novidade. A gente cansa de ver produtos super-tecnológicos sendo lançados, mas muitos deles -no fundo, operam pra afastar cada vez mais as pessoas de suas habilidades naturais, edificando culturas difíceis de desconstruir depois (como a da mamadeira).

Embora eu tenha um interesse especial por incubadoras, não me senti apta a avaliar o Babypod 20, recorrendo à ajuda de pediatras com ampla experiência em UTI Neonatal.

É claro que eles emitiram suas impressões baseados apenas no artigo que lhes disponibilizei, publicado no Evening Standart, em 4/7/2017, mas sua vivência e expertise profissional e humana é capaz de nos fornecer referências para pensarmos no assunto.

Tenho a honra e a alegria de conhecer Dr. Héctor Martinez, um dos pediatras colombianos responsáveis pela concepção do método Mãe-Canguru, que consta de recredenciar o contato humano como solução para o aquecimento, aconchego e alimentação de bebês prematuros. Dele recebi a seguinte resposta:

Mientras para el niño no exista noxa alguna, solo lamento que la madre no sea la propia incubadora. ES LA MEJOR INCUBADORA (Embora não represente dano para a criança, só lamento que a mãe não seja a própria incubadora. ELA É A MELHOR INCUBADORA).

Os resultados alcançados pelo Mãe-Cangurú em todo o mundo, comprovam a afirmação de Dr. Héctor. Fico encantada também ao saber que o contato pele-a-pele permite que o ritmo do coração do bebê seja compassado pelo coração da mãe!







E o Dr. Luis Alberto Mussa Tavares, que atua como pediatra em Campos dos Goitacases - RJ, com uma extensa e primorosa dedicação à causa da prematuridade, respondeu:



Pelo que entendi, o equipamento não visa substituir a incubadora convencional, nem tampouco é concorrente do método Mãe-Canguru. Trata se de um dispositivo de transporte e uso breve, que serve para transferir um bebê daqui para ali. Faltam dados objetivos para avaliar o equipamento, mas parece tecnologia que pode beneficiar o homem, uma vez que ele a associe a instrumentos alimentados por amor, calor e leite materno.

Agradeço a colaboração de ambos, e concluo preliminarmente que o Babypod 20 tende a contribuir para o cuidado aos bebês em UTIs neonatais, mas me preocupo com o fato de que um equipamento desenvolvido baseado na Fórmula 1 tenha muito mais apelo junto às pessoas, do que a consciência de que a natureza humana nos dotou de capacidades que os produtos insistem em embotar.


Petit Pli

Projeto de graduação de Ryan Mario Yasin's, aluno do Royal College of Art (Londres), trata-se de uma linha de roupas infantis que se expandem conforme a criança cresce. Acesse o link e assista ao vídeo lá disponível para compreender melhor a ideia. A foto a seguir ajuda um pouco a compreender o sistema:



É como se a dimensão final das peças de roupa estivesse condensada numa estruturação geométrica do tecido. Quando exigida, ela se expande; quando em descanso ela se mantém.

Lendo a matéria, vemos que o material é impermeável e sintético. Cá com meus botões, fico pensando que maravilha seria se o projeto fosse adaptável para fibras naturais, que aquecem menos e permitem que o corpo respire. Eu me pergunto também quanto ao contato com a estrutura ainda comprimida: será agradável? Os modelos das roupas soam futurísticos, mas os considero muito bonitos e eles me parecem confortáveis.

Que beleza um projeto assim! Um super resultado alcançado pelo autor e seus professores!

Ficarei de olho nesses produtos, vigiando notícias sobre sua experiência de uso.






domingo, 18 de junho de 2017

Whe are the world


Em 1985, a gente se encantou com a iniciativa de grandes estrelas da música pop interpretando em conjunto a música "Whe are the world", de Lionel Richie e Michael Jackson.


A renda foi revertida para as populações africanas que passavam fome e que nos chegavam aos olhos por imagens de crianças raquíticas e desnutridas em países como a Etiópia.

Eles haviam se inspirado na reunião de músicos britânicos que, no ano anterior, se reuniram para gravar "Do they know it's Christmas" (Bob Gueldof), com o mesmo objetivo, inaugurando a Band Aid, espécie de modo de organização de eventos musicais em prol de campanhas humanitárias.


O duro é a gente refletir um pouco e perceber que pode associar aquela pobreza, raquitismo e desnutrição das crianças africanas também ao assédio das indústrias de fórmulas lácteas, que atuavam naquele continente de modo inescrupuloso, como nos conta o documentário australiano "Fórmula Fix", de 2008.



Assistam e tirem suas conclusões...

sábado, 3 de junho de 2017

Assuntos de interesse: engasgo, chupeta e parto




Nos últimos dias, compartilhei na fã page do blog (Facebook), posts que despertaram o interesse de muitas pessoas.

Então decidi reuni-los aqui, pois são assuntos de grande interesse.

O primeiro deles é o lançamento de uma cartilha com cuidados em caso de engasgo de criança, desenvolvida por Sabrina Bonetti, recém graduada pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (USP), sob a orientação da Profa. Fernanda Góes. O resultado está disponível para download no link acima. Eu baixei, imprimi e li com cuidado (daqui a pouco os netos hão de chegar!).

O blog do Grupo Virtual de Amamentação publicou em detalhada avaliação o artigo A Chupeta: o que toda a mãe (e pai) deveria saber antes de oferecer uma chupeta para seu bebê, da odontopediatra Andréia Stankiewicz. Leitura super recomendável também (eu incluiria os avós no título).

Por último, um artigo de Ana Cristina Duarte , parteira e obstetriz, com argumentos em defesa do movimento de humanização do parto, criticado por grupo de médicos em rede social.

Muito a aprender, excelentes referências.

domingo, 14 de maio de 2017

Aconteceu porque eu sou designer


Hoje escrevo pra contar uma boa nova sobre meu livro, aliás uma super boa nova: ele foi selecionado para figurar no evento Como se pronuncia design em português (julho a outubro de 2017), promovido pelo MUDE - Museu do Design e da Moda de Lisboa - que "revelará 100 perspectivas de design enunciadas no Brasil do séc. 21", sob a curadoria de Frederico Duarte.  O livro lá estará disponível para consulta e para venda, compondo um grupo de 50 títulos brasileiros.

Isso me faz pensar que, até então, minha tese havia sido muito bem recebida pela área da saúde. Tão bem recebida, que pouco depois da defesa já havia sido convidada para constar na Biblioteca Virtual em Saúde da Fiocruz e no site da IBFAN Brasil - Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar. E muitas foram as oportunidades em que o trabalho foi acolhido em outros diversos fóruns, como as Relações Internacionais, a Psicologia, Educação, Segurança do Trabalho entre outros.

Mas afora algumas ocasiões de lançamento do livro em cursos de design (PUC, ESDI e UFRGS) e da adoção de seu conteúdo em disciplinas desses cursos (o que é muito especial), esse campo se mantinha ainda pouco alcançado pelas tentativas que fiz em levar a questão a profissionais e estudantes em formação, quando ele, o campo do design, é justamente aquele que penso mais precisar ser alertado sobre o nível preocupante de inserção no processo de geração de produtos para o consumo.

Por isso me alegra a inclusão do livro no citado evento, pois além do reconhecimento por um trabalho que me foi tão difícil realizar (na medida em que deparei com a realidade de um produto trivial que pode causar tanto mal), vislumbro uma oportunidade para a disseminação desse alerta entre meus pares.

Posso dizer que o mote para essa seleção foi dado por Ethel León, jornalista e pesquisadora em design, na resenha que escreveu para a revista eletrônica Agitprop sob o título Destruindo a mamadeira.


Algum tempo depois, na mesma revista, foi publicada a resenha escrita pelo designer argentino Jorge Frascara, A mamadeira e o papel social do designer.


Em síntese, agradeço a ambos -pessoas a quem tanto admiro, pela leitura do trabalho e por suas palavras de apoio à pesquisa que realizei.

Por último, republico também a primeira resenha que o livro recebeu, escrita pelo pediatra Luis A. Mussa Tavares e publicada no site Aleitamento.com.


Há muito a fazer, muito a desfazer e a desconstruir em nossas práticas.



sábado, 22 de abril de 2017

Alegrestristes



É como uma noite com sol, como uma seca umidade, uma escuridão brilhante.

Chegar aos 50, 60 anos, e ir além é assim: uma bipolaridade entre a alegria e a dor. Um crescer sem expandir de tamanho.

Já se passou por tanta coisa ... do nascimento à infância, adolescência e o tempo de ter filhos, de vê-los crescer, sofrer e às vezes vê-los morrer. De temer por eles ao saber que não há como protegê-los pra sempre.

Tempo de ver nossos pais envelhecendo até que morram. E tempo de assistir a vida brotando, nos filhos dos filhos, nos filhos dos amigos dos filhos, sobrinhos, jovens amigos. Tempo de ver no olhar de companheiros da mesma idade o amor vibrante por seus netos.

E tempo de perder amigos, prematuramente, impiedosamente acometidos por doenças.

Tempo de valorizar cada dia, de recomendar que os queridos se cuidem, de rezar por todos eles. Porque sabemos, sabemos que caminhamos sobre um fio fino, que exercitamos a arte de nos equilibrar sobre ele, desde a primeira respiração.

Por isso a importância de respeitar nossa chatice; por isso ficamos alegres/tristes ao mesmo tempo.

Amor pelos que se vão. Amor pelos que chegam.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Evento bacana



Na tarde do último sábado, fui ao evento Elas por Elas, aqui no Rio, promovido pelo O Globo. Estava interessada no debate sobre Amamentação em público e nas empresas, com a pedagoga Simone Carvalho, da Unicamp, a pediatra Elsa Giugliani, da UFRGS, e a nutricionista e apresentadora de TV Bela Gill,

A conversa foi muito produtiva, calcada na experiência e nas pesquisas de cada participante: o empoderamento feminino, a saúde materno-infantil, e a recente vivência da maternidade, respectivamente. Platéia cheia em um evento muito bem organizado, no Village Mall, na Barra da Tijuca, que eu achei super lindo e chic.

E acho que posso aplicar àquele momento a adaptação da frase "Mãe é tudo igual, só muda de endereço", porque as dúvidas a respeito da amamentação, os recursos caseiros empregados para curar fissuras etc. variam muito pouco quando se discute o assunto. Nossa, como é importante as pessoas conversarem sobre esse tema ... E como há o que se dizer, compartilhar...

Comentou-se sobra a retirada do leite materno para administrá-lo ao bebê posteriormente, sobre o processo de congelamento do leite e seu prazo de validade, além de muitos outros assuntos.

O público participava, e Daniela Tófoli, da Revista Crescer (mediadora), passou a elas uma pergunta sobre se haveria diferença entre usar a mamadeira ou o copinho.

Simone então disse: "_A mamadeira está em desuso", comentando que as pessoas vêm se informando e optando pela a amamentação, além de citar o impacto negativo do uso da mamadeira para o desenvolvimento facial da criança (arcada dentária, ouvidos). E Dra. Elsa detalhou a questão, dizendo que o copinho permite que o bebê sugue o leite com movimento de língua semelhante ao realizado no seio materno. Ambas comentaram que, ao contrário do que todos imaginam, bebês prematurinhos são plenamente capazes de se alimentar dessa forma, desde que seus cuidadores estejam treinados.

Daí, ganhei meu dia, e ainda encontrei com amigos (Aline Melo de Aguiar, Marcus Renato de Carvalho, Chris Nicklas e Simone Carvalho) e fizemos esse registro. Valeu!




domingo, 26 de março de 2017

Todo mundo tem seu preço?



Acho que todas as pessoas se consideram corretas. Ou ao menos uma boa parte daquelas que na verdade não o são não pararam pra pensar naquilo que fazem.

Quando estamos de frente para oportunidades, quando nos são oferecidas chances, paramos pra pensar naquilo que estará implicado em nossa aceitação dessas oportunidades e chances? Do que passaremos a participar ativamente? Qual a história da empresa ou da iniciativa que nos convidou? Ela há de ter uma fachada incrível, e falar muito bem de si, claro. Mas iremos nos dar por satisfeitos com essas informações? Iremos nos abandonar aos seus encantos? Acreditamos no que realizam ou esqueceremos (um pouco?) aqueles valores que (achávamos) tínhamos para adentrar nesse empreendimento que tantas coisas boas nos tem a oferecer? Afinal, sempre haverá alguém que aceitará a oportunidade: por que não abraça-la?

Situações assim fazem parte do dia a dia de todos, parte da realidade profissional de muitos e o fruto de cada uma dessas decisões acaba reverberando na realidade da gente, na qualidade dos produtos que consumimos, na mentalidade vigente, no futuro de nossos filhos.

Como professora em curso de Design não tenho (e nem quero ter) como fugir dessa discussão. As corporações muitas vezes oferecerão aos futuros profissionais as tais oportunidades. E caberá a cada um decidir o que fazer, solitariamente.

Daí que me viro pra buscar exemplos, abrir debates e trazer um conteúdo útil, como esse modelo de avaliação ética, proposto pelo Prof. Danilo Marcondes. Ele é um craque na matéria, professor de filosofia lá da PUC, e em palestra recente brindou a assistência com um modo simples pra ajudar a gente a pensar e responder à seguinte pergunta: o que é que estou fazendo?

1. Ação refletida - parar pra pensar e não agir sem pensar, de modo a que a decisão a ser tomada seja consciente;
2. Transparência - ao tomar a decisão, nada terei a esconder sobre minha atitude, minha escolha;
3. Reciprocidade - decido por algo que não causará a outra pessoa aquilo que eu não aceitaria que fosse causado a mim;
4. Solidariedade - que a decisão seja em prol do bem comum e do interesse coletivo;
5. Coerência - é preciso praticar aquilo que se prega.

Sobre a ação refletida, localizo logo aí o maior problema. Porque envolve parar, se informar pra valer, consultar os próprios valores. E hoje as coisas acontecem tão "a toque de caixa" que a prática da reflexão vem caindo em desuso. E só mesmo dedicando um tempo a gente consegue estudar a questão, se informar bem, ir além do que aparece mais superficialmente, do que todo mundo acha sobre aquilo, pois muitas vezes todos estamos enganados sobre aquilo.

Quanto à transparência, acho que tem a ver com poder deitar a cabeça no travesseiro, numa boa. Nada a esconder, um livro aberto pra quem quiser folhear.

Eu até conjugaria reciprocidade e solidariedade numa coisa só. O bem comum nos inclui, fazemos parte da coletividade, então nada farei que venha a me prejudicar, uma vez que sou membro desse grupo.

E sobre coerência, muito importante isso. Todos temos compromissos, com a gente mesmo, com nossa família e amigos, com nossa profissão e com os valores a serem defendidos nessas diferentes searas. Às vezes isso se dá sem que tenhamos que assinar um papel, como acontece no círculo familiar e afetivo. Mas profissionalmente assumimos compromisso formal com códigos de conduta e temos responsabilidade sobre todos os nossos atos.

Pois bem, tudo isso pra dizer há alguns dias quase caio da cadeira ao receber a informação de que há um movimento nos Estados Unidos  justificando a fórmula infantil em lugar de “forçar” o aleitamento materno e causar desidratação e levar RNs a “passarem fome”.

Visite fedisbest, role um pouco a tela e assista a um filminho em que o narrador é um bebê que pede à mãe que lhe dê complemento. De arrepiar..., que monstros! Ainda por cima tem uma petição, isso mesmo, uma petição em defesa da complementação. E ainda por cima as co-fundadoras do movimento são consultoras da IBCLC (International Board Certified Lactation Consultant).

Há vários membros dessa instituição no Brasil. Eu conheço alguns e estou informada de que o assunto será visto com o nível necessário de seriedade e coerência.

O fato é que as corporações estão cooptando os movimentos sociais: se há petições em prol de causas, utilizemos também essa linguagem da sociedade civil e façamos petições em prol dos nossos próprios interesses.As pessoas nos adoram, adoram nossos produtos e a modernidade que lhes ofertamos. Não temos nada a perder!

E não têm mesmo, porque essa turma continua ganhando mais e mais adeptos a cada dia ... Diz pra mim se não ficamos seduzidos e encantados com as novidades do universo de produtos industriais para bebês?

Gente, está mais do que na hora de a gente parar sempre pra pensar, pra duvidar daquilo que nos dizem com tanta eloquência, belas imagens e discursos "fofinhos".

Vamos confiar em nossa intuição e na capacidade de crítica que temos.






domingo, 19 de fevereiro de 2017

Coisas

Coisas
Coisas pra fazer as coisas
As coisas que a gente pode fazer sem ajuda de coisa alguma.

Coisas pra abraçar
Ninar
Contar histórias
Alimentar por nós
Mastigar por nós
Pensar por nós
Cuidar de nós
Escutar lamentos por nós
Sentir por nós.

Rodeados de coisas
Coisas pra fazer as coisas
As coisas que podemos fazer sem ajuda de coisa alguma.

Essas coisas nos fazem esquecer das coisas que sabemos fazer ...

O que mesmo sabemos fazer?


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Pra você ver ...


Sempre que entro no blog, dou uma olhada nas estatísticas, pra ver o número de visualizações daquele dia, semana, mês, os países alcançados, a origem dos acessos.

Fico super satisfeita em ver que, desde 2011 -quando lancei o blog, já cheguei em 172 mil pessoas, espalhadas pela grande maioria dos países. Isso é mesmo impressionante, o poder da rede ...

É claro que é preciso relativizar: tem gente que entra e logo vai embora do blog por ver que ele não é aquilo que procurava; tem gente que pretendia comercializar algo e ficou me infernizando um tempão com seus acessos e propostas; e afinal esse número aí é alcançado em minutos por conteúdos da internet, de várias naturezas. Então por quê tanta satisfação?

Porque estou chegando nas pessoas de uma maneira firme e muito especial. Daí conto três dessas histórias:

1. Primeiro dia de aula no curso de Teoria do Design. Os alunos se apresentando e, depois, eu me apresentando. "_Estudei na ESDI, entrei aqui em 1993, fiz isso e aquilo e aquilo outro, publiquei tal e tal coisa e sou responsável pelo blog Mamadeira Nunca Mais". Daí, uma aluna lá do fundo da sala, me olhando com olhos incrédulos e felizes me pergunta: "_ Jura? Quando estava perto de acabar minha licença-maternidade, preocupada em como faria pra alimentar meu bebê, cheguei no blog, li muita coisa, e descobri que poderia dar a ele meu leite no copinho! Aquilo salvou minha vida ahahah, e hoje ele está super bem, nos tornamos craques no copinho!" Sempre tenho notícias dessa dupla :o)

2. Chegando pra trabalhar, encontro uma colega de outro departamento, acompanhada de sua nora e de um bebê coisa-mais-linda-que-existe. Ela me apresenta à nora, que me olha com admiração. Minha colega deu a ela meu livro ainda durante sua gravidez, e indicou a leitura do blog. A menina ficou super informada, estava amamentando em livre demanda, acessando também o copinho e, ao saber que eu vivo fazendo palestras, dentro e fora da PUC, se ofereceu pra ir numa delas com seu filhote e fazer demonstrações de copinho, fralda de pano etc. Achei aquilo tão legal!

3. 25 de dezembro de 2015. Meu enteado e sua mulher colocam no Whatzap da família uma foto dela com um bebezinho japa no colo (eles estavam passando o Natal em Petrópolis). Como não resisto a bebês, comentei: "coisa-mais-linda-que-existe um bebê japa!" E eles me disseram que a mãe do bebê, surpresa por eles serem da minha família, estava me agradecendo muito pelas informações que encontrou no blog, lido por ela quase que na íntegra!

Fora a "fama" que descobri ter entre as "mães-nerd", amigas de minha filha em outras cidades, ao descobrirem que a responsável pelo blog era eu!

Enfim, tá funcionando, e eu me inflo toda ao saber de cada uma dessas histórias, poucas diante do alcance das redes, mas prova de que esse contato é Real.

Um beijo para todos os meus leitores e vamos em frente!

sábado, 21 de janeiro de 2017

Rosa? Brinco? Fita? Saia?



Essa é minha filhota quando pequenininha. Hoje ela é adulta, mas eu me lembro direitinho da pressão que encarei por não ter furado as orelhinhas dela quando bebê...

Na foto ela está de rosa, um modo de dizer que era menina. Mas raras eram suas roupas cor-de-rosa. Daí era um tal de acharem que era menino e, quando corrigidos, dizerem em coro: _ Você tem que colocar um brinco nela!!

Não coloquei. Mas o desconforto era tanto, que ela mesma me pediu, lá pelos quatro ou cinco anos, pra furar as orelhas.

Fomos à Farmácia Piauí, no Leblon, e ela sentiu tanta dor ao furar a primeira orelha, que eu disse: _Chega!!, não vamos furar a outra!

E assim ficamos. O furo cicatrizou e hoje ela nem usa qualquer brinco.

E eu, que também não tenho orelhas furadas, um dia entrei "numas". Que horror! Que baita dor! E ainda dizem que o bebê não sente nada... Impossível não sentir, caramba!

Bom, como eu acabei deixando os furos cicatrizarem (também), porque fiquei com dor de cabeça que só passou, automaticamente, quando eu tirei os tais enfeitinhos provisórios, tenho dificuldade de encontrar brincos de pressão que não apertem, mas os encontro.

Tudo isso pra dizer que vale muito à pena a gente pensar antes de "embarcar" em práticas que se transformaram em cânones sociais. E, putz!, a feminilidade ou a masculinidade vão se expressar quando tiverem que rolar. Na minha opinião, criança tem que estar à vontade, pra brincar, curtir e se desenvolver com o sossego que for possível.

Então, vale pensar nisso, como sugere Anne Rammi, do Mamatraca. Vale assistir.