sábado, 18 de agosto de 2012

Conhecendo o Método Mãe-Canguru na fonte



Segunda-feira, dia 6 de agosto, às 14h, Dr. Hector Martinez pára o carro em frente ao meu hotel, em Bogotá. Muito cordial, se decepciona por eu já ter almoçado e seguimos por aquela bela cidade à procura de um lugar para que ele fizesse sua refeição e eu comesse uma sobremesa.

Chegamos. E então lhe falei do quanto era especial pra mim estar DIANTE da "fonte" daquele "método" que eu tanto admirava.

_ Tenho lido muito a respeito do Método Mãe-Cangurú, mas gostaria de ouvir a descrição de como tudo aconteceu.

_ O que você leu?

_ Li que ele se originou da superlotação de encubadoras ...

_ Trata-se de uma estratégia de valorização e incentivo à amamentação. Há muito que, quando um bebê nasce prematuro, a conduta tem sido colocá-lo na encubadora e alimentá-lo com leites artificiais por mamadeira. E era isso o que ocorria quando comecei a observar a situação. As mães ficavam de fora da UTI, olhando os filhos pelo vidro. Acontece que essas crianças muitas vezes morriam. Sabedor da importância do leite materno para as crianças decidi que, ao invés de leite em pó, as mães ordenhariam seu leite e este seria o alimento das crianças. Então houve uma mudança sensível na situação, pois a saúde dos bebês melhorou e o índice de sobrevivência aumentou. Prossegui observando o que acontecia na maternidade em que trabalhava, na região sul de Bogotá. E pensei que ao invés das mães permanecerem lá do outro lado do vidro, elas poderiam entrar na UTI e amamentar seus filhos. Foi um escândalo internacional...

_ a esta altura o senhor já havia publicado algum artigo sobre o método em revista científica? Como as pessoas sabiam sobre o seu trabalho?

_ Naquela fase, uma representante da Unicef para a América Latina estava em Bogotá. Conheceu o meu trabalho e, em suas viagens, o descrevia para as pessoas, que começaram a me procurar. O escândalo então se deveu ao fato de que permitir acesso às mães na UTI contrariava todas as condutas hospitalares... aquela coisa do risco de infectar os bebês... Mas com a entrada das mães, essas crianças ficaram melhores ainda! E então, por fim, questionei a utilidade daquelas máquinas, pois o contato pele a pele aqueceria os bebês e lhes traria o conforto de estarem bem junto às suas mães: vestir a criança com uma camisetinha, uma roupa leve e mantê-la junto ao corpo por 24 horas. 

_ Sim, e achei genial o Top que foi criado para que a criança se encaixe entre os seios de sua mãe, que poderá ficar com os braços e as mãos livres para outras atividades...

_ Não tem que haver Top.

_ Por quê?

_ Porque o que irá salvar essa criança, além do leite de sua mãe, é o aconchego, o calor, o amor, o toque dessa mãe, seu desejo de que a criança sobreviva, e bem.

_ Mas como a mãe pode manter a criança consigo por 24 horas? Ela precisa tomar banho, fazer uma série de coisas ...

_ Nesses momentos, ela pode passar a criança para o contato com o corpo do pai, do irmão, da avó, do avô, de qualquer membro da família que ame a criança. É o amor, são aos mãos e o carinho que podem salvá-la.

E então ele acionou seu celular para me mostrar imagens de mães, pais, irmãos e avós que mantinham junto ao corpo, pele a pele, bebezinhos prematuros, sinalizando: _Olha esse irmão, com que amor abraça o bebê!

Foi um grande aprendizado.
E fico pensando, o "método" se tratou de tirar tudo aquilo que se interpunha entre os sujeitos da relação: retirados a incubadora, o leite em pó, a mamadeira, a distância.

Precisamos olhar criticamente pra tudo, e muitas vezes tomar a atitude de desfazer ao invés de colocar mais coisas no mundo.

Venho reproduzindo essa história por toda a semana para as pessoas com quem encontro, alunos, amigos. 
A reação que ela provoca produz um sorriso pra lá de especial.
Espero que esta narrativa esteja fiel à conversa que tivemos.




5 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Que perfeito! Sempre achei que essa distância das mães com os bebes prematuros uma coisa meio sem nexo, não sei como as pessoas poderiam pensar que o leite artificial poderia substituir o leite materno, ainda mais nessas crianças que precisam mais do que tudo de força e principalmente do amor que a presença materna trás.

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  3. Pois é, Meriene, a tecnologia de ponta está na natureza! Obrigada por seu comentário :o)

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  4. Sabe que eu ajudei a fechar o Manual de Uso e Aplicação do Método Canguru para os hospitais aqui no Brasil, num tempo que eu nem pensava (ou sabia) da importância dessa atitude tãoooo simples e tãoooooo acertada? Vida cheia de coincidências, né? Boas coincidências! Adorei a história! Bjs

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  5. Que legal! Pois é, é juntando o trabalho de muuuuita gente que se chega a essas conquistas.

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