sábado, 27 de agosto de 2022

Depoimento sobre minha experiência recente como avó

Esse é um bom momento pra contar aqui a experiência que tive nos últimos meses.

Minha filha teve um adorável bebê no mês de abril. Criança saudável, parto normal, mas ela passou por revezes pra lá de delicados. Em resumo, desistiu de amamentar, tentou secar o peito e aderiu à fórmula e à mamadeira.

E eu a apoiei. Era a única coisa a fazer diante dos seus motivos.

Pra me aliviar um pouco daquela dor silenciada, recorri à Val - Celina Valderez (ela é uma das primeiras pessoas do campo da defesa da amamentação que conheci nos tempos do meu doutorado sobre os malefícios da mamadeira, e durante a pandemia frequentei um curso que ela oferece direcionado às avós). Fizemos uma chamada de vídeo, contei tudo o que se passava pra ela e recebi de volta compreensão, carinho, acolhimento e a certeza de que eu teria que enfrentar com amor e coragem o que viesse pela frente.

Mas com o decorrer dos meses, a situação foi se transformando, e eu atualizava Val sobre os acontecimentos.

Desde então, muitas mudanças aconteceram.

No vídeo a seguir dá pra acompanhar essa história a partir dos 55:35 minutos.

Antes disso, uma aula da Val. Muito a aprender com ela.



quinta-feira, 14 de julho de 2022

Fraldas: vamos pensar com carinho nesse assunto?

O filme de animação a seguir foi desenvolvido na disciplina de Projeto 5 do curso de Design da PUC-Rio há alguns anos atrás, a partir de uma proposta formulada por mim. Ao contar aos alunos sobre o imenso impacto que a prática de uso intensivo desses produtos causa ao meio ambiente, eles se alarmaram (aliás como acontece com qualquer pessoa que seja convidada a visualizar a quantidade de lixo que elas produzem). Eu me lembro que fui para o quadro fazer, junto à turma, a conta de quanto cada um deles produziu de lixo durante sua tenra infância e chegamos juntos a uma soma imensa! Então multipliquei aquele valor pelo número de alunos presentes e o resultado foi muito assustador. Daí fiz uma cena, dizendo: _Agora vou abrir a porta da sala e tudo isso será descarregado aqui pelos caminhões que contratei!

Foi um momento sensacional que resultou no roteiro e realização desse filme:


Pois é, mas "a velha e boa fralda de pano" realmente não era tão boa assim, embora TODAS as crianças nascidas até a invenção da descartável tivessem feito uso delas. É importante a gente reconhecer que a fralda descartável trouxe muita praticidade, foi realmente inovadora em muitos termos, deixando a de pano a anos luz de distância.

Só que o bacana, bacanérrimo aliás, é que essas inovações puderam ser aplicadas na fralda de pano, tornando-a -aí sim- eficiente, linda, durável, econômica, ecológica, em um projeto aberto (Creative Commons) que permite que várias empresas e iniciativas o desenvolvam e comercializem de sua própria forma, sem pagar pela licença de uso.

Faz muito tempo que eu descobri que a Morada da Floresta estava produzindo fraldas, e agora constatei que a Bela Gil é um tipo de garota propaganda do produto que ela ajudou a aprimorar. Então abro espaço pra que Bela o apresente aqui pra quem ainda não conhece e afirmo: elas são incríveis! Tecnologia realmente de ponta! Recebi ontem algumas para munir e inspirar os pais dos meus netinhos.





quarta-feira, 13 de julho de 2022

Sobre fatos hediondos na sala de parto

Eu verdadeiramente aprendi o significado da palavra HUMANO ao visitar Berlim, há alguns anos. Antes disso, sempre a vinculei a algo que inspiraria verdade, dignidade, integridade, capacidade de cuidar e de respeitar. Até que comecei a me incomodar com seu uso para adjetivar pessoas, serviços, procedimentos: "fulano é humano", "atendimento humanizado", "gesto humanitário". Porque isso para mim demonstrava o uso de um superlativo pra tentar salvaguardar algo que deveria ser humano de raiz, humano por definição, mas que já não o era mais. Não o era mais. Em Berlim eu entendi que o humano nunca foi esse humano que a gente acha ser humano. Eu nunca havia deparado com a preservação de marcas da destruição - inúmeros prédios conservam os estragos feitos por bombas; o espaço urbano é pontilhado de monumentos erguidos para que o passado não seja esquecido; documentos estão expostos em espaços públicos para que a história ali permaneça - cicatriz que nunca deixará de sangrar. E nunca havia deparado, também, com o contraste estrondoso que todo esse mal estabelece com manifestações de pura beleza que vi, ouvi e vivi em Berlim. Daí que entendi, de maneira perturbadora, que o humano é tudo isso: ele pode ir do mais torpe e hediondo até o sublime, compreendendo todas as gradações que separam esses extremos. Então, não se trata de que "errar é humano", e sim de que não há limites para a expressão do humano. Escrevo isso por efeito da notícia sobre o ser que estuprou mulheres na mesa de parto. Quantas outras mulheres lhe serviram sem o saber? Quantos outros profissionais não incorrem em ações análogas? Desde quando e até quando? Inclua-se nisso todo o resto, todo o tudo que passamos, sendo e estando sujeitos a humanos.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Amamentação na Bienal de Veneza

 


A tela AMAMENTAÇÃO, do finado artista Jaider Esbell, é uma das obras que representarão o Brasil na Bienal de Veneza, a partir de abril.

O tema da mostra internacional é "The milk of dreams", abrindo espaço para obras que tratem da conexão entre o ser humano, o meio ambiente e a tecnologia.

Jaider Esbell é um artista macuxi, nascido em Roraima. Ele foi o idealizador do movimento da Arte Indígena Contemporânea, que ganhou destaque na Bienal de São Paulo, em 2021 (mesmo ano de sua morte).

No blog o espaço é muito pequeno pra mostrar a riqueza desta imagem, então sugiro que cliquem aqui e novamente sobre a imagem que aparece no link para visualizar melhor a obra. Ela é um misto de carta celeste, registro ancestral e ilustração científica (daquelas que costumamos encontrar nos livros que explicam o processo da amamentação). Com as cores, um efeito óptico de movimento faz vibrar as formas. O quadro é grande, dois metros de largura, e imagino que apreciá-lo ao vivo intensifique a sensação visual.

Esse fato me fez lembrar da conversa que o público do Museu do Índio, no RJ, teve com um representante do povo indígena do nordeste do país há anos atras. Eu lhe perguntei o que era dado aos bebês quando havia algum obstáculo na amamentação e sobre como seu povo interpretava os seios caídos das mulheres com muitos filhos.

Para a primeira indagação, ele respondeu: pasta de mandioca, oferecida em uma cuia; para a segunda, explicou: seios assim representam grande beleza, a beleza de mulheres que alimentaram seus filhos.



quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Vivendo a matrioska





Nasci de minha mãe; minha filha nasceu de mim; agora ela gera um filho também: estou vivendo o que a matrioska tão bem e simplesmente representa.

É como se essa progressão de vidas, uma a partir da outra, estivesse desde sempre determinada.

A tradição russa de fabrico de matrioskas inicia a produção artesanal do conjunto a partir da menor de todas as peças, denominada SEMENTE.

É ela que determina a dimensão das peças subsequentes, concebidas para que abriguem umas às outras. E a forma então florece. Como as flores mesmo: de dentro para fora; do interior para o exterior.

Até então eu entendia a matrioska de outra maneira: eu achava que -como sucede na vida- a mãe tem dentro de si a filha, que tem sentro de si a filha etc.

Agora eu percebi que o lance do brinquedo é mais bonito.

O filho é que gera a mãe. Como na vida também.

E, portanto, a semente está no futuro. Desde sempre determinada, pois sem ela o antes não existiria.


Que o novo ano nos floreça.

Como se fabrica uma matrioska










 

sábado, 21 de agosto de 2021

Nunca estaremos a salvo

Foto de Paula Bronstein - Getty

 

E agora? O que virá além de tudo? O que dizer às crianças? O que pensar ...
Esse ninho provisório que reúne o que nos sobrou é tão vulnerável quanto a qualidade daquilo que nos resta. O que nos resta? 

Uma madona contemporânea afegã e seus filhos. Os olhos dos três me parecem vazios, exaustos. O que conforta as crianças é o corpo da mãe, que ainda os tem por perto. Até quando? Sob quais condições?

A imagem tem uma beleza mais que triste, desalentadora. São células plásticas em espera, guardando vidas sem conseguir protegê-las.

Nunca estaremos a salvo.

terça-feira, 20 de julho de 2021

Uma homenagem ao Dr. Hector Martinez, ídolo-amigo que se foi

 




Há alguns dias, esse homem que me abraça nas ruas de Bogotá passou dessa vida. Seu nome, Dr Hector Martinez, pediatra colombiano e criador - junto a seu colega Dr. Edgar Rey Sanabria, de uma dos inventos mais encantadores e revolucionários do mundo: a Metodologia Mãe Canguru.

De ídolo, passou a ser meu amigo e trocamos correspondência, ideias, compartilhamos projetos. Eu tenho tudo impresso e guardado em arquivo, porque sua seriedade e doçura não eram coisa pra se deixar no ciberespaço, mas sim pra tratar como um tesouro.

Nos reencontramos em 2019 aqui no Rio, por ocasião de evento internacional de aleitamento materno. Ah, como foi especial ...

Devo a Marcus Renato de Carvalho, querido amigo e também pediatra, a ponte para que eu conhecesse Hector. Marcus e Luis Mussa Tavares (pediatra-poeta encantador, que cunhou o termo "almas apressadas" para definir os bebês prematuros) me convidaram para desenhar um símbolo comemorativo dos 40 anos do Método, e abriram também espaço para que eu, em texto, declarasse o meu amor por esse sublime trabalho, conquistado com ousadia, muita luta e uma sensatez que arrepia.


Eis o texto:

Há quarenta anos, numa maternidade da periferia de Bogotá, a natureza conseguiu ser ouvida em meio aos apitos descompassados de uma Unidade de Terapia Intensiva cheinha de “almas apressadas” - aqueles bebês que nascem antes de estarem prontos para sair do corpo de suas mães.

Há quarenta anos a natureza conseguiu ser ouvida em meio a todos aqueles aparatos tecnológicos, criados justamente para tentar substituir artificialmente os corpos das mães, seu calor, a nutrição que proporcionam. Só que, com o tempo, aqueles aparatos se “naturalizaram” como destino para todos os prematuros, muitas vezes um destino muito cruel para as almas apressadas.

Alguns ouvidos atentos escutaram o barulho da solidão daqueles bebês, e o tom grave e contínuo da melancolia das famílias que se iam, sem acreditar num futuro.  Esses alguns ouvidos também mediram a distância que separava aqueles dois sons.

O fato é que esses alguns ouvidos escutaram além dos apitos descompassados, por dentre aqueles apitos, em volta deles: havia muitas, muitas outras notas. Pararam então para escrever o que ouviram em uma partitura cheia de desobediências àquelas regras que tinham se naturalizado.

Aos poucos foi-se abrindo espaço para os tons de delicadeza, de suavidade e cuidado. Eles soavam baixinho, mas com tal harmonia que conseguiam desconcertar os apitos, superando-os em efeito.

Era a distância a responsável por aquele barulho que alguns ouvidos escutaram. O corpo da mãe havia, o corpo do bebê havia, o do pai havia, o dos avós e irmãos havia.

Era a distância ...

Livre dela, a natureza se fez ouvir, em toda a sua simplicidade e grandeza.

Essa sinfonia hoje soa livre ao salvar as vidas das almas apressadas.

Muito, muito obrigada, alguns ouvidos.




Muito, muito obrigada.