sexta-feira, 3 de julho de 2015

Um ciclo



























































































Depois de um tempo sem postar, pretendo a partir de hoje recuperar o ritmo do blog convidando a todos para pensarem um pouco sobre os ciclos. Eles estão aí, se exibindo sem reserva, mas tantas vezes temos a atenção roubada por detalhes que nos exigem o close, o que nos impede a visão mais ampla daquilo que vivemos.

Eu fiz essa história em quadrinhos nos anos 90, pra inscrevê-la em um concurso. O trabalho nem foi selecionado. Como faço com tudo o que realizo, eu o guardei muito bem guardado. Tão bem guardado que nunca mais o encontrei, apesar de buscá-lo com afinco por mais de uma vez.

Bom, eu estaria mentindo se dissesse que o encontrei esses dias por algum tipo de "milagre" ou "sinal", porque o que fiz mesmo foi procura-lo com a determinação de quem , dessa vez, precisava muito encontrá-lo.

Rever essa sequência tão simples de desenhos é pra mim um brinde ao ciclo de vida de minha mãe, encerrado no dia 11 de maio deste ano.

Acho que todos sabem o que é um luto. Já passei por luto de avós, de grandes e queridos amigos, de pai postiço, mas luto de mãe, apesar de ser de uma densidade singularíssima, pode ser um luto diferente. Porque desvela sem reservas um dos mais evidentes ciclos da natureza: nascer, gerar e morrer, deixando em cada filho a promessa de inauguração de novos ciclos.

(Olhando agora eu percebo que os cirurgiões lá do início da historinha estão meio démodé, e que acabei representando a TV Globo no quadrinho da televisão).

Enfim, o que tem me protegido nessa fase é o calor gostoso das amizades e a percepção daquelas coisas ao mesmo tempo simples e de insuperável beleza que tendem a "passar batido" por nós no dia-a-dia.

Essa herança ela me deixou.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Amamentação em fotomontagem sobre a Guerra Civil Espanhola



Folheando um livro sobre John Heartfield, encontrei essa imagem. Ela se refere à Guerra Civil Espanhola e foi publicada em 1936 como capa de uma revista alemã.

Heartfield (o nome original dele era Helmut, e não John) foi um artista que se dedicou a denunciar os perigos das movimentações políticas europeias por intermédio de montagens realizadas a partir de fotografias. Participante do movimento Dadá, inovou ao lidar com fotos que, combinadas com alto grau de acabamento, geravam imagens de grande significação. Pena que, naquela época, a mentalidade estética geral fosse realista e as pessoas tendessem a não dar crédito para composições gráficas que exibissem variações de estatura de humanos, efeitos especiais em geral.

O trabalho de resistência ao nazismo deste homem, que numa obra de tirar o fôlego de qualquer um sinalizou expressivamente sobre as armadilhas de Hitler, também se dedicou a dar visualidade a outras loucuras que aconteciam na época, como no caso da Espanha. Na verdade tudo se interligava...

O texto da imagem diz:
Ainda não "paz no mundo".
Hoje Espanha ... Amanhã o mundo?
É muito. Cerrem as fileiras!
Juntem as mãos.
Fim à indignação!

A mãe amamentando seu filho, tranquilos os dois, sobre a relva, como um símbolo do que há de mais sublime e sagrado. Um direito humano inalienável sob a ameaça de soldados armados, treinados para atacar o que quer que esteja à sua frente.

O fascismo venceu, liderado pelo General Francisco Franco, matou mais de 400 mil pessoas, e se manteve no poder por 40 anos.

Um longo e escuro período de trevas.

domingo, 10 de maio de 2015

Mães de ponta!



Há tempos não posto nada por aqui. Sorry.

É que a vida está me exigindo de outro jeito, exigindo de mim como filha, e a gente precisa aceitar que o trabalho e nossas paixões precisam esperar às vezes.

Mas tenho vibrado ao constatar o quanto as coisas vêm mudando nesses nossos assuntos maternos. Que bom!

São matérias e mais matérias nos jornais falando sobre as mudanças que se operam na seara dos partos, dos cuidados com crianças, no valor das mulheres (putz, que loucura isso ter sido deixado de lado por tanto tempo em nossa mentalidade cultural...)

O fato é que, cada vez mais, as mulheres estão dispostas a se informar, a se posicionar diante dessa informação, e a reconhecer que protagonizam as coisas pelas quais passam na vida.

Ai, meus tempos... como fico feliz por ver que o trabalho incansável de tantos ativistas (tenho a honra de conhecer vários deles!) vem dando resultados tão expressivos :o)

Mas, realmente, a cabeça anda alugada... logo vou almoçar e saio pra visitar minha mãe de 88 anos no CTI de um hospital, nesse Dia das Mães.

Daí que encerro esse post com minha homenagem a todas nós, expostas à vida, ao tempo. Felicidades!

Quando as mães ficam bem, mas bem velhinhas, dizem os ortopedistas que elas diminuem de tamanho...
Diz a equipe médica que se busca deixá-las estáveis...
Dizem os amigos, os religiosos, os vizinhos, os cuidadores um monte de coisas (um monte mesmo).
Mas perguntem aos filhos: elas crescem, crescem e crescem tanto e ficam tão, tão, mas tão instáveis que começam a não caber nos espaços. Desrespeitam tudo: a lei da gravidade, os horários, as boas maneiras, a lógica.
Parecem estar restritas, aprisionadas, mas nunca estiveram tão perto da liberdade, e como tudo na vida, isso dói (dor de crescimento, diriam os ortopedistas...).
Réguas? estabilidade? às favas com normas de controle! 
Elas aos poucos vão se reunindo e saindo em passeata: 
Descontrole JÁ!



quinta-feira, 9 de abril de 2015

Esse tal de Desdesign





Esse tal de desdesign faz coisas assim:

1) Tira toda a pintura exagerada do rosto das bonecas que estão no mercado e devolve aos brinquedos rostinhos lindos com os quais as crianças podem se identificar (Sonia Sing - visite tree change dolls e veja só que encanto de projeto);

2) Complementa ou substitui os cuidados de um bebê prematuro em encubadora pelo calor e contato pele-a-pele com mãe, pai, familiares dessa criança (visite Declaração Universal dos Direitos do Prematuro e se aproxime dessa grande sacação de pediatras colombianos, dentre eles o Dr. Héctor Martinez, lendo o texto tão especial do também pediatra Luis MussaTavares);



3) Dispensa a mediação de produtos para alimentar bebês, valorizando a amamentação e, se necessário, empregando um simples copo para a tarefa (visite O caso das mamadeiras e conheça muitas coisas que estão por trás das "insuspeitas" mamadeiras).




Foi o designer Victor Papanek, em seu livro "Diseño para el mundo real", quem me apresentou esse termo, Desdesign.

Desdesign resulta de observação, estudo aprofundado, respeito, sensibilidade, projeto e responsabilidade, em cada um dos exemplos citados.

O Desdesign "é um menino tão sabido", que "quer modificar o mundo".

sexta-feira, 6 de março de 2015

Ó céus, onde estás que não respondes!



Eu consumo, tu consomes, ele consome, nós consumimos, vós consumis, eles consomem.

Este parece ser o mantra, a oração que se espera que pronunciemos com todo o ardor todos os dias de nossas vidas.

O que estamos dizendo? Ora, isso pouco importa. O Mercado, essa entidade que está acima de tudo e de todos, colocará incontáveis "sinais" de sua magnânima presença em frente aos nossos sentidos e, cada vez mais, os absorveremos sem nem mesmo perceber o que fazemos, para deles nos nutrir. A vida é uma coisa muito difícil e só o consumo pode nos salvar, com suas promessas de felicidade, alegria, estilo e humor.

E quanto mais cedo isso puder começar na vida das pessoas, melhor: respirou, pode consumir. E se um bebê ou uma criança não entende o que venha a ser isso, os adultos podem ensinar.


Chill, Baby Li'l Lager baby bottle é um lançamento da FRED and FRIENDS, uma empresa de Rodhe Island (EUA), que se diz (no texto de sua missão) focada em coisas bem concebidas, que solucionem problemas colocando um sorriso no rosto de quem as consome, sem que custem uma fortuna. Designers de todo o mundo projetam, em parceria com a empresa, produtos inesperados, engraçados e pessoais "que digam muito sobre você".

"Não!, não é cerveja, é apenas a velha boa fórmula infantil servida em uma garrafa plástica, livre de ftalato e de BPA, fácil de lavar".

"Eu sou o curador da minha própria vida" intenciona ser a frase a ser dita pelos consumidores desses produtos pretensamente tão inusitados e bem humorados.

O que dizer?
Só fico pensando no extenso e animado processo de desenvolvimento desse projeto, na empolgação dos designers profissionais e estagiários ao gerar ideias, arquivos, protótipos, pensando nas reuniões de apresentação, no dia da entrega para a produção, na chegada do produto final, na festa de seu lançamento, na produção esmerada dessa foto de divulgação.

Tanta energia dispendida, tanta ignorância reinante, tanta irresponsabilidade e impunidade.






quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Pálido de espanto - Milk Nanny



Faço parte da geração que assistiu (gostando ou não) às fortíssimas mudanças tecnológicas que hoje lotam nossa vida: tudo informatizado, tudo conectado, os telefones celulares inteligentes que cada vez fazem mais coisas por nós, entre nós.

A algumas dessas facilidades eu aderi. Mas resisto a várias outras, sabendo de cor telefones das pessoas mais próximas, fazendo contas de cabeça ou no papel, escrevendo cartas mesmo que raramente.

O fato é que vamos entregando para os produtos (que nos prometem tanto) funções que nossa natureza permite que executemos, e muito bem. Ao fazê-lo, tendemos a atrofiar essas nossas habilidades (aliás, eu me preocupo muito com essa coisa de GPS..., não nego que facilita, mas se a coisa se intensificar, onde irá parar a capacidade que temos de localização?).

Daí que, muitas vezes, ao demonstrar que minha adesão a essas modernidades tem limites, recebo olhares de... compaixão, por assim dizer. Como se estivesse sendo amigavelmente desculpada pela incapacidade de lidar com esses produtos tão atuais.

Por isso o poema de Olavo Bilac (cujo título agora me surpreende ser Via Láctea) me parece adequado aqui. Ele se refere à capacidade de percepção da natureza. Acontece que, inversamente, quando sou "avaliada" pela não-adesão às facilidades disponíveis nesse cenário em que vivemos, sinto como se ouvisse: "Certo perdeste o senso!".

Ao poema:


"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!" 
E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto 
E abro as janelas, pálido de espanto... 

E conversamos toda a noite, enquanto 
A Via-Láctea, como um pálio aberto, 
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, 
Inda as procuro pelo céu deserto. 

Direis agora: "Tresloucado amigo! 
Que conversas com elas? Que sentido 
Tem o que dizem, quando estão contigo?" 

E eu vos direi: "Amai para entendê-las! 
Pois só quem ama pode ter ouvido 
Capaz de ouvir e de entender estrelas". 


Não estou invocando romantismos, mas perturbada sobre o quanto a tecnologia está sendo absorvida como natureza. Ou seja, se torna anti-natural rejeitar seus avanços e suas novidades.

Tudo isso pra emitir meus comentários sobre a "Milk Nanny", projeto com vídeo disponível no site de financiamento coletivo Kickstarter, que está levantando a maior grana.




A ideia é produzir uma máquina que prepara leite para bebês em 15 segundos, acionável por aplicativo de celular.

Os argumentos expostos pelos idealizadores da máquina são... céus, não tenho palavras para descrevê-los (vazios, levianos, enganadores...). Apenas posso dizer que se enquadram perfeitamente nesse modo automatizado ao que a prática intensiva do consumo nos conduz. E as cenas em que os dois analisam desenhos do processo de projeto, para mim que sou designer, são violentas.

Prosseguem, assim, profissionais concebendo coisas que, mais do que desnecessárias, fazem mal e conseguem convencer as pessoas de que a Terra é o centro de tudo, de que tudo o mais nada importa, de que nem mesmo ela importa. Importa é uma ação conjunta e teleguiada para eliminar de vez o brilho inoportuno das estrelas, o choro inoportuno dos filhos e fazer girar a roda magnânima do mercado.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Pegar o bonde andando




Vamos dar ouvidos ao que vem sendo propagado, mas não sem conceber mais um produto para o mercado de consumo, ok?

Ok. 
Fala-se que o leite humano é o melhor alimento para o bebê. Mas o processo de retirada do leite, marcação dos reservatórios, sua organização, armazenamento, aquecimento e administração à criança pode ser facilitado por um moderno e inteligente sistema de produtos, a fim de facilitar a vida desses pais. 

"A nossa estratégia de design é definida pela combinação do talento de classes de engenharia do MIT (Massachusetts Institute of Thecnology) e desenvolvedores de produtos com uma filosofia de design-centrada-no-usuário". 

Eis então o sistema Kiinde Twist, que em seu texto promocional define:
"Somos nerds com uma boa dose de amor e carinho"

Mais uma vez identifico a perigosa influência da lógica de mercado conduzindo e embotando a pesquisa acadêmica na formação de jovens. Desta vez não se trata tão somente de um projeto de mamadeira, mas do projeto de um complexo sistema de objetos, concebido e estruturado sobre "um bonde que foi pego andando".

Tenho a impressão de que alguém gritou de lá: - Olhem, dessa vez é pra fazer pro leite humano, hein!
E, partindo daí, precisamente daí, tudo transcorreu.

Necas de atenção para a Organização Mundial de Saúde e suas diretrizes, necas para o histórico mundial de desmame, morbidade e mortalidade infantil, pra aliança internacional em defesa da amamentação, nem pro Código de Controle de Substitutos do Leite Materno, nada de pesquisa que conceda aos projetistas a noção aprofundada e responsável daquilo que estão fazendo. Vamos em frente que atrás vem gente!

Todas as roscas estão lá pras bactérias se esconderem; todos os bicos estão lá pra alterarem negativamente o desenvolvimento da arcada dentária, afetando futuramente o sistema respiratório, a fala e a deglutição da criança; tem armarinho pra guardar as bolsas que são DESCARTÁVEIS (com toda a crise ambiental que atravessamos, um bom produto não pode transitar assim, tranquilamente, pelo âmbito da descartabilidade); tem as escovinhas fininhas pra fingir que dá pra limpar todos os cantinhos do produto. E tem também a bomba pra retirada do leite materno ... é tanta coisa que acho que não coube só nessa imagem que reproduzo.

Toda essa traquitana pra fazer as vezes do seio materno, "tecnologia" insuperável em quaisquer dos aspectos defendidos pelo projeto em questão, conforme demonstra o spot espanhol abaixo:


E para aqueles momentos em que a mãe não está presente, o leite materno pode ser dado à criança em um copo de vidro, que pode ser daqueles de geleia de mocotó ou mesmo esse da imagem.



Para o copo, sugiro o seguinte texto promocional:
"Somos pessoas informadas, com uma dose suficiente de senso crítico"


https://www.kiinde.com/twist_product.php