terça-feira, 1 de julho de 2014

Pronto. Dei uma renovada no visual do blog

Depois de muito quebrar a cabeça pra entender os comandos (eu sou da velha-guarda), cheguei a uma carinha nova pro blog.

Desenhei as crianças do padrão, inseri cores nas áreas do layout e atualizei pequenos detalhes.

Eu gostaria de alterar muito mais, arredondando os cantos das áreas e diagramando livremente todo o texto, mas digamos que considero ter alcançado uma renovação pra seguirmos assim até a próxima reforma.

Peço desculpas pelo período de "obras" e pela paciência.

Até o próximo post!

terça-feira, 24 de junho de 2014

Amigos antes virtuais, agora presenciais

Vou conhecendo muita gente que se dedica à luta pela amamentação e assuntos afins, ligados à infância, que tanto precisa ser pensada, vivida e em tantos pontos revolucionada.

São contatos que fervilham pelo computador, gente que a gente admira, cita, com quem compartilha preocupações, de quem ouve falar super bem do trabalho. Mas a quem não conhecemos assim, cara a cara.

Daí eis que surgem às vezes oportunidades de encontrar essas pessoas.

O gozado é que o encontro é diferente. É um tipo de reencontro porque, na vida corrente, quando a gente vê pessoas pela primeira vez, não sabemos nada sobre elas. Mas dos amigos virtuais sabemos muito, já trocamos mensagens, discutimos assuntos, nos lemos, nos acompanhamos, enfim.

Eu acho chatíssimo essa coisa de ficar tirando fotos sempre, mas me dei conta de que já tenho uma coleção de imagens muito legais dos encontros que tive com esses amigos ex-virtuais, hoje presenciais. Daí, pra divertir um pouco, faço aqui meu álbum:

Foi Maria Inês Couto de Oliveira quem me recomendou o site Aleitamento.com, de Marcus Renato, pediatra. Eu bebi naquele site durante toda a minha pesquisa de doutorado. Deparei com Marcus pela primeira vez no ENAM de Santos, assim, rapidinho. Daí pra frente, acho que já perdi a conta das coisas que fizemos juntos, dos pedaços alegres e difíceis que já compartilhamos, da colaboração toda que hoje caracteriza nossa amizade. Na imagem, uma participação em parceria em evento de laboratório de Marketing, na UFRJ.

 
 
 
Foi Marcus quem me passou o contato do Dr. Hector Martinez, um dos criadores do Método Mãe-Canguru. Eu iria a Bogotá e pedi assim, a esmo: alguém o conhece aê? Marcus fez a ponte toda e foi um encontro daqueles, pra lembrar a vida inteira :o)
 
 
 
Dr. Hector ficava dizendo o tempo todo que eu tinha que conhecer o Dr. Luis Tavares. E o conheci em evento para o qual fui chamada por Marcus. Mas ali nos ocupamos mesmo foi em conversar, nem tiramos fotos e prossigo acompanhando sua intensa e apaixonante produção em prol dos prematuros e de tantas coisas mais. Ele fez a primeira resenha do meu livro, que me arrepia só de lembrar. E há de ter sido por intermédio de Luis, que mora em Campos dos Goytacazes, que comecei a me relacionar com Margareth Wekid, fisioterapeuta atuante na cidade no apoio à amamentação. Tomamos uns chopps ótimos na Cobal do Humaitá, há pouco tempo atrás.
 
 
 
Marisa Silveira eu conheci por aqui, pelo blog. Um dia eu fiz um post sobre fraldas descartáveis, ela comentou, trocamos figurinhas e numa de suas vindas ao Brasil (ela é brasileira, mas mora em Washington), nos conhecemos. Desde então acho que não perdemos chances de nos ver, e assim acompanho o crescimento de seu filhote Eduardo. Reciprocamente acompanhamos também o nosso crescimento. Ela lançou o blog ecomaternidade.com.br, pra lá de bacana.
 
 
 
Fã do Bebé Gluton, a primeira boneca industrial que mama no peito, me correspondi com Cesar Bernabeu durante quase um ano, até que nos conhecemos em uma visita que fiz com meu marido à fábrica de bonecas Berjuan, em Onil, Espanha. Uma ousadia deles. Um sonho pra mim!
 
 
 
 
E isso vai ficando com um jeito de coluna social... mas a gente pode se permitir brincar um pouco, né?
 
Daí, pra lançar o livro em São Paulo eu recorri a Ana Basaglia - a quem eu conhecia pessoalmente desde aquele ENAM. Ela e Fabíola Cassab (a quem eu só conhecia pelo FB), agitaram tudo por lá e fiquei muito impressionada na ocasião ao pensar no quanto podemos realizar quando estamos em rede... :o) Depois participei de uma reunião maravilhosa na Matrice, grupo de apoio às mães que elas cuidam há anos. Na foto aparecem Rosana de Divitiis, responsável pela eloquente apresentação de meu livro, seu marido e filha, Ana, eu, Therezinha Mucheroni (odontologista amiga de Bauru, com quem já troquei mil e uma correspondências e que me deu a grande alegria de aparecer com toda a família naquela noite), Dr. Cacá (pediatra Carlos Eduardo Correa), a quem conheci ali, assim como a  Flávia Gontijo e seus filhos, e Fabíola Cassab! Tudo bacana "às pampas". E foi lá também que avistei Caroline, a minha co-editora, a quem ainda não conhecia, apesar de termos trocado muitos e muitos e-mails antes da publicação do livro, e a quem devo o fato de ele ter sido efetivamente publicado, pois a editora PUC só trabalha em co-edição.
 
 
 
 
No dia seguinte ao lançamento, consegui conhecer Simone De Carvalho. Desde o início do blog, em 2010, ela se tornou uma colaboradora incrível, sempre me enviando coisas que encontrava e que poderiam me interessar. Nos esquecemos de fotografar a ocasião, mas no lançamento de seu livro aqui no Rio tivemos a chance, junto a Marcus também.
 
 
 
 
Fora as outras tantas pessoas dessa área que conheci presencialmente e que, cada uma a seu modo, me enriquecem. Sei que no meio da vida atribulada de cada um, todos arranjam tempo, coragem e energia pra lutar por essa grande causa.
 
Mas tive a ideia desse post no domingo, quando vi Ligia Moreiras Sena -a quem também conhecia pelo computador desde os preparativos para minha ida a Sampa- no lançamento de seu livro "Educar sem violência", no Rio, escrito em parceria com Andréia Mortensen. Não tenho fotos desse encontro pra colocar aqui, mas foi tão legal que ficou na memória :o)
 
E agora chega de brincar!
 

domingo, 15 de junho de 2014

Não tem desculpa



Toda vez que entro em uma farmácia, me dirijo à seção de produtos para bebês.

Desta vez eu viajava. Estava em Barcelona e deparei com esta mamadeira italiana.

Intuition. Intuição.

À frente, uma bela e singela ilustração de um bebê sendo amamentado.

Existe uma norma internacional que proíbe o uso de imagens desse tipo para produtos que tenham por finalidade incentivar a administração de leites artificiais e o desmame. No entanto, não faltam exemplos de violação dessas regras por aí. E reparem bem no nome do produto: Intuition. Nem é preciso comentar, né?

Como designer, o que mais me espanta é que profissionais projetaram essa mamadeira, a decoraram, e conceberam essa embalagem, apesar de existir leis que proíbem isso tudo, calcadas em diretrizes da OMS.

Não tem desculpa você trabalhar sem saber sobre aquilo que faz. Não tem desculpa você até saber sobre aquilo que faz e, mesmo assim, entrar na onda de que não compete a você a responsabilidade sobre aquele produto.

Aos poucos vou me conscientizando da necessidade de regulamentação da profissão do designer. Confesso que tardei a me dar conta da importância da iniciativa... Mas, sinceramente, penso que um designer que se presta a trabalhos como esse (talvez tenha sido desenvolvido por publicitários...), está pedindo que sua licença profissional seja suspensa.

Radical? Não... informação é um dos pilares dessa profissão.

sábado, 7 de junho de 2014

Do que estamos falando

Quando passei pela qualificação, no doutorado, procurei por meu orientador e lhe confessei que os conselhos que recebi da banca que me avaliou, apesar de valiosos, não correspondiam àquilo que eu desejava realmente fazer com a sequência de minha pesquisa sobre a questão das mamadeiras. Ele me ouviu, e como de costume respeitou minha inquietação. Mas julgou que não seria ele a pessoa mais indicada para dizer algo de realmente útil naquele momento, que havia outra pessoa - a quem eu nunca antes houvera recorrido - capaz de me orientar rumo a uma real diretriz.

Marquei com ela. Não a conhecia. Desfiei o meu rosário, finalizando com a afirmação de que o que eu havia descoberto era que o seio materno e o leite humano eram a melhor maneira de alimentar bebês.

Eu achava que isso poderia ser a minha tese, devolver ao seio aquilo que a mamadeira lhe havia roubado: o crédito e o respeito.

O que se deu a partir de então é irrelevante para o que desejo dizer agora. Basta relatar que ela me sinalizou que esta não seria uma tese, uma tese de Design, e iluminou outros momentos da minha fala que traziam, de forma eloquente, a minha tese: a necessidade de avaliar a produção industrial, da qual a mamadeira é um exemplo.

Mas o que desejo falar é que o título deste blog, Mamadeira nunca mais, e o discurso dos defensores da amamentação contra as incursões da indústria, não é uma radicalidade. Porta, sim, uma indignação com o estado atual das coisas - a cultura da mamadeira, mas deriva do estudo aprofundado do assunto, da vivência ou observação intensiva de casos.

Eu costumo dizer que não consigo fazer apresentações rápidas do meu trabalho. Antes de dar o meu recado sobre os males provocados pela mamadeira, tenho que percorrer o histórico da alimentação infantil, as medidas tomadas pelos órgãos oficiais a partir das evidências médicas e sociais que surgiram. E quando, só então, faço a análise dos impactos da mamadeira e desvelo a falácia do discurso promocional desse produto, aí sim consigo chegar nas pessoas que me assistem. Consistentemente.

Um dia desses vi no Facebook um artigo em que algumas mães argumentavam sofrer pressão de defensores da amamentação, defendendo o seu direito de decidir livremente pelo modo com que alimentariam seus filhos, levando em conta suas questões particulares e dizendo que o discurso em prol da amamentação é radical. Como sou "gato escaldado", suspeitei fortemente que a matéria seja um estratagema da indústria, como tantas outras suas produções que se utilizam de apoios às avessas como: "a empresa tal sabe que não há ninguém mais expert em leites do que as mães e, veja você, elas recomendam o nosso".

Bom, o que posso dizer é que aqueles que defendem as benesses da amamentação não se utilizam de estratagemas, que não há interesse econômico por trás de suas palavras, ou qualquer recurso subliminar para a condução psicológica daqueles que os ouvem.

Há estudo. Há observação, vivência e evidências.

E há respeito, coisa que não há nem de longe nas propagandas nas quais nos acostumamos culturalmente a acreditar.

domingo, 11 de maio de 2014

O Dia das Mães, sob o pretexto do filme "O renascimento do parto", por mãe e filha

O maridão barbudo, meus dois enteados e a primeira mamada de nossa filha.

Quando a gente começa a estudar um assunto, deparamos com sua vastidão...

Investigar as mamadeiras tem me levado a "mares nunca d'antes navegados", por alguns dos quais eu já naveguei sem ter a devida consciência disso...

Muito depois do que seria esperado de uma pessoa que, como eu, estuda o lance, comprei "O renascimento do parto", filme de Érica de Paula e Eduardo Chauvet, e o assisti junto à minha filha. Depois de fazer um comentário sobre a situação que antecedeu o meu encontro com ela, Adélia Jeveaux, vou tecer aqui meus comentários sobre o filme e compartilharei também os comentários dela, num post que comemora o fato de que os filhos crescem e de que amadurecemos, sem dúvida nenhuma, ao seguir vivendo.

Muito bem, muito tem se falado sobre violência obstétrica e o filme trata também disso com muita propriedade. Então vou dividir com vocês um pedacinho da minha história de parto.

Meu obstetra, muito querido desde a adolescência, lá pelas tantas do meu pré-natal, afirmou que um exame havia acusado o fato de que eu teria Herpes Genital. Isso seria um impedimento para um parto normal porque era muito difícil garantir que, na ocasião do parto, a doença estivesse inativa. E, em caso de atividade, ela colocaria meu bebê sob o risco de hidrocefalia, sei lá... NA HORA eu concordei que o mais adequado seria fazer uma cesariana, claro! Como é que eu colocaria em risco a vida do meu bebê?

Bom, eu costumo dizer que meu parto, mesmo tendo sido cesariano, foi lindo. Meu marido, por ser médico, estava do lado; tudo transcorreu conforme o esperado; vi minha filha por alguns minutos e fiquei muito feliz. Depois, fiquei três horas agoniada esperando por ela no quarto. A sorte foi que ela mamou no meu peito sem problemas. Os pontos do corte custaram a cicatrizar, eu andava toda encurvada ... Mas isso passou.

Muito bem, depois de tantos anos, 25 pra ser mais exata, ao assistir o filme me dei conta do seguinte:

1) Eu nunca havia tido herpes genital;
2) Eu nunca vi esse tal exame que dizia que eu tinha herpes genital
3) Eu nunca voltei a ter herpes genital.

Ou seja, só agora eu percebi que posso ter sido redondamente enganada pelo meu obstetra. Pra que o parto fosse do jeito melhor pra ele. Tudo bem que, depois, por uma questão de grana, tive que mudar de equipe, mas o fato é que o "pacote cesariano" foi muito bem preparado e chegou prontinho pro outro médico.

O que percebi vendo o filme? Acaso minha impressão sobre meu parto mudou, deixando de ser "lindo"?

Percebi uma coisa importantíssima e grave: meu parto não foi pleno.

Ele poderia ter sido muito mais lindo, muito mais especial, muito mais meu e de Adélia.
Tive roubada a plenitude do meu parto.

E o que é plenitude? De que importa a plenitude, se tudo "acabou bem"?

Importa porque ninguém tem o direito de, por ameaças terroristas, diminuir a experiência de outrem.
Importa porque estamos vivendo num mundo em que isso vem sendo colocado em prática sistematicamente, em várias searas de nossas vidas.
Importa porque a vida é muito mais do que, muitas vezes, nos permitem que ela seja.
E, por fim, importa porque falar disso é imperioso pra que as mulheres se tornem aos poucos novamente donas de seus mais delicados e poderosos momentos, conforme a natureza as dotou.

Super-recomendo o filme.
Super-recomendo informação.
Super-recomendo a leitura das impressões que se seguem daquele bebê que saiu do meu corpo, Adélia, porque, saibam, eles crescem, e podem agir.

Agora, o texto de Adélia:


Acabei de assistir ao documentário "O Renascimento do Parto". Desde criança minha mãe comentava comigo, diante da minha curiosidade e de outras circunstâncias pertinentes, como parto normal era melhor pra mulher, apesar de eu ter nascido de cesár...ea. Lembro de me assustar com a ideia do corte, a ideia de ficar dias no hospital e a ideia de ficar horas separada do bebê, desde muito pequena.
Eu sonho que estou grávida/parindo/tenho um bebê pequeno na base de umas três vezes por semana. Tenho plena consciência da minha necessidade pela gravidez, parto e maternidade, e de uma forma bem mais animal do que existencial. Lembro de quando me disseram que eu tinha "anca boa", que seria "boa parideira", não soou nem um pouco mal aos meus ouvidos.
Eu (eu) acho que o dia mais importante da minha vida vai ser quando eu der à luz meu (primeiro) filho, e portanto acho que vale mais à pena gastar uma fortuna, se possível, pra garantir que esse dia corra como eu sempre sonhei desde pequena do que, por exemplo, um casamento. (Eu, tá?)

Pois bem, o que o documentário tem de riqueza fundamental é a variedade de depoimentos de diversos profissionais e estudiosos a respeito dos procedimentos-padrão com relação ao parto, como eles são (pra ser bem eufemista) questionáveis, como é necessário um reajuste de valores e vozes. Eu não vou replicar os argumentos expostos no filme, até porque ele precisa ser visto e divulgado (apesar da trilha musical sofrível, pqp).
Mas foi fundamental ver um compêndio de colocações favoráveis a uma via menos regida pela coisificação, pela conveniência e pelo vício de certas práticas que não se sustentasse somente em casos específicos e extremos - cujo conhecimento é igualmente importante, mas que não devem ser tomados como regra, como eu mesma tomei há uns meses atrás diante do meu primeiro contato sério com o assunto.

Basicamente, as sensações que ficam em mim do documentário são:
1) a mulher é esse ser com esse poder, essa potência natural de gerar e parir um outro humano, que privilégio o meu ser uma;

2) o hospital é um grande aliado do parto, se não vier junto com o espaço e os recursos toda a gama de procedimentos abomináveis a que está associado, graças a uma mentalidade regida pela falta de questionamento e de olhar específico sobre cada indivíduo;
3) a cesárea salva vidas, mas é absolutamente desnecessária na vasta maioria dos casos, e é impressionante como o sentimento de proteção e de medo de fazer mal ao próprio filho permite que cesáreas desnecessárias sejam sugestionadas às mulheres. nessas horas, é crucial estar cercada de pessoas com quem uma relação de confiança sólida tenha se estabelecido ao longo da gravidez, pra que no caso de um quadro de risco real a cirurgia não macule a autoconfiança da mulher;
4) mas se a mulher quiser realmente fazer a cesárea e realmente sentir que aquela é a melhor opção pra ela, ela não pode, pelo amor de deus, ser escrotizada pela polícia ideológica alheia;
5) dizer "mas o importante é que nasceu bem, nasceu saudável" minimiza o ato de parir, como se ele fosse secundário, e não é. claro que é importante nascer bem e saudável, mas nem sempre se dimensiona os efeitos psicológicos que certos procedimentos e linguagens causam na mãe E no bebê, ambos num momento tão delicado (porque não quero usar o termo "frágil"), e isso É importante, pra caramba;
6) o medo da dor, das horas, do cocô, sei lá, tudo que está negativamente associado ao parto normal precisa ser desmistificado (ou re-naturalizado), e tenho pensado muito em como há dias difíceis na vida, às vezes anos inteiros, acometidos por dores físicas ou não, mas que a gente gasta tanto tempo e energia pra entender seu sentido e blablablá, e aí você compara com um dia de, digamos, 12 ou 15 horas, em que o seu corpo tá lá, se preparando, e você vai sofrer, vai sangrar, vai talvez cagar na frente dos outros, mas porra, vai sair uma pessoa de dentro de você, que vai viver, sei lá, 80, 100 anos - pra colocar as coisas numa forma bem ingênua e simplista, eu no mínimo acho que a matemática vale a pena.

Enfim, tô com 25 anos. Acho que tá na hora certa pra se pensar nisso, por mais que em algum nível eu sempre tenha pensado. Filho deve rolar pra mim na próxima década. Pras minhas amigas. Eu quero. E quero me sentir confiante de que, até segunda ordem (quiçá terceira), tudo está a nosso favor, que estaremos cercadas de pessoas que vão nos respeitar e nos ajudar, e quero sentir que todas as mulheres têm essas mesmas condições.



Eu não vou aqui desejar um feliz dia das mães porque o que eu desejo é que todas as pessoas, homens e mulheres, pais, mães, filhos, se apossem do seu direito de viver plenamente as suas vidas.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Aula final - curso "O consumo infantil"

Finalizo minhas notas sobre o curso "O consumo infantil" comentando brevemente a aula ministrada pelo jornalista André Trigueiro.

Recém chegado de uma viagem de trabalho à China, ele expressou o quanto estava impactado com o que viu por lá, uma sociedade que convive rotineiramente com índices de poluição atmosférica muito, mas muito além do que seria concebível; uma juventude que, ao tentar migrar para outros países, alega perseguir com isso o direito a condições básicas, como ter acesso a ar pra respirar. Com essa introdução, André trouxe para a turma o resultado de sua busca em dicionários para a palavra CONSUMIR: destruir, dilapidar, causar ou sofrer dano, esclarecendo que o consumismo - fenômeno contemporâneo- é o consumo em excesso, um desperdício.

Ao citar Ladislau Dalbor, economista da PUC de São Paulo, trouxe para a turma a frase que considero ser a tradução exata da tal da alucinação (citada no post anterior) pela qual acho que estamos cada vez mais enredados, na avidez de comprar, de ter, de progredir, crescer:

"Crescer por crescer é a filosofia da célula cancerosa"

Eis o "dilema" contemporâneo: modelo de expansão econômica x modelo de equilíbrio econômico....

Nada melhor do que a leitura do artigo de Victor Margolin, "O design e a situação mundial", para poder refletir sobre isso:
http://www.esdi.uerj.br/arcos/arcos-01/01-03.artigo_victor(40a49).pdf



Foi muito bacana fazer esse curso, conhecer essas pessoas, partilhar com a turma tantas indagações e experiências.

A situação é pra lá de preocupante, e disso a gente já sabia. Mas é importante que isso seja falado, discutido, alertado. Quem sabe possamos contribuir na procura de uma saída.

sábado, 19 de abril de 2014

Sobre o curso "O consumismo infantil" - aula 2

Laís Fontenelle ministrou a segunda aula do curso. Ela é do Instituto Alana, de São Paulo, que dentre muitas outras funções importantes em defesa das crianças produziu o documentário "Muito além do peso" - uma denúncia sobre o quanto a infância brasileira vem sendo cooptada pela indústria de alimentos nada saudáveis. Pra quem ainda não viu, super vale à pena assistir!



A aula foi muito rica de informações, mas novamente aqui vou me restringir a compartilhar algumas notas que fiz e tecer comentários sobre o que mais me chamou a atenção.

Laís começou contextualizando o papel da criança na história, lembrando que apenas muito recentemente (séc XVII/XVII) a noção de infância surgiu, pois antes disso as crianças eram consideradas adultos pequenos, já que improdutivos, desconsiderados até mesmo nas representações pictóricas. Sugerindo a leitura do livro "O desaparecimento da infância", de Neil Postman, citou um trecho em que o autor sublinha a importância do surgimento da prensa tipográfica na configuração da noção de infância, pois aprender a ler foi desde então se tornando um divisor de águas no reconhecimento da criança enquanto sujeito da sociedade.

Hoje, diante de todos os aparatos de informação e de comunicação, antes e mais do que aprender a ler, o conhecimento é transmitido por imagens (na TV, nos Ipads, Iphones etc., mídias detentoras de eloquente papel pedagógico nessa nossa cultura), e alarmantemente o que define a criança como sujeito social é o fato de que ela pode consumir.

Pesado isso, não é? Mas real....

Um mercado imenso de produtos mercantiliza a infância; o ritmo alucinante da vida dos pais se torna permissivo à terceirização dessa mesma infância, delegando a produtos e serviços os cuidados com os pequenos.

Laís mostrou alguns anúncios voltados para as crianças realmente infames e falou da luta do Instituto Alana no sentido de proibir publicidade voltada a esse público, poucos dias depois da primeira vitória alcançada no Brasil: http://defesa.alana.org.br/post/82994668848/entenda-a-resolucao-que-define-a-abusividade-da

E daí veio, pra mim, a bomba da noite: a notícia de que hoje existe uma área do marketing com foco também para os pequenos, o merchantainment - a fusão entre propaganda e entretenimento. Segundo o blog Consumismo e infância:

"O merchantainment está em todos os lugares. A Disney World, por exemplo, realiza para seus funcionários cursos sobre o tema, com o objetivo de formar “merchantainers” que criem uma experiência positiva aos visitantes do parque no intuito de que eles comprem mais produtos. No entanto, é quando a prática chega ao mundo digital que ela ganha mais força, com a geração de conteúdo lúdico móvel, sites e redes sociais com objetivos mercadológicos. A Ralph Lauren Kids, por exemplo, começou nos Estados Unidos uma nova campanha chamada RL Gang, que consta de um livro e um filme na internet onde os personagens usam roupas da marca que estão à venda nas lojas. Ao assistir o vídeo, crianças podem clicar nos seus personagens preferidos para comprar seus guarda-roupas. Esse tipo de ação publicitária faz com que a criança crie uma associação entre o produto e a diversão, se aproveitando da vulnerabilidade da criança, que não percebe o intuito de venda."- See more at: http://www.consumismoeinfancia.com/16/12/2010/fusao-entre-publicidade-e-entretenimento/#sthash.eYTmtShi.XPHJt8P6.dpuf

Dos comentários que se seguiram à fala de Laís, fiquei com a exata noção de que o consumismo é uma droga, uma droga lícita, cujos efeitos são alucinógenos, criam uma dependência cada vez mais sem saída do consumo, uma vez que é difícil visualizar qualquer remédio pra isso.

Então me lembrei desse trecho do meu livro, sobre quando o marketing estava surgindo.


Em 1957, quando as relações entre indústria, comércio e consumidores pareciam viver uma fase tranquila, Vance Packard publicou uma estridente denúncia dos recursos de manipulação adotados por agências de publicidade e escritórios de marketing, intitulado The Hidden Persuarders: Em 1957, quando as relações entre indústria, comércio e consumidores pareciam viver uma fase tranquila, Vance Packard publicou uma estridente denúncia acerca dos recursos de manipulação adotados por agências de publicidade e escritórios de marketing, intitulado The hidden persuarders:
Estão sendo feitos, com êxito impressionante, esforços em ampla escala para canalizar nossos hábitos irrefletidos, nossas decisões de compra e nossos processos de pensamento, com o emprego de conhecimentos buscados na psiquiatria e nas ciências sociais. […] Parte da manipulação que está sendo tentada é simplesmente divertida. Outra parte é inquietadora, principalmente quando encarada como um prenúncio do que talvez esteja reservado a todos nós, no futuro, em escala mais intensa e efetiva. (Packard, 1959, p. 1)
O autor alertava que tais pesquisas se dedicavam a convencer o público tanto acerca da aquisição de mercadorias quanto da adesão a ideologias e atitudes. Preocupado com a questão moral, sinalizava que o princípio da manipulação abre espaço a questionamentos perturbadores, como o que indaga que tipo de sociedade ela é capaz de moldar, haja vista seu poder de penetração pelos meios de comunicação de massa:
Talvez os adeptos da geração de otimismo tanto nos negócios como no governo possam apresentar argumentos impressionantes sobre a necessidade de preservar a confiança pública para que tenhamos paz e prosperidade. Mas para onde isso nos está conduzindo? (p. 239)
Tentando considerar a possibilidade de haver espírito de pesquisa sobre o comportamento humano na atitude dos cientistas sociais e psiquiatras que cooperam com os métodos de persuasão comercial, Packard reivindicou a elaboração de códigos de ética profissional; e embora não tenha incluído os designers dentre os responsáveis pelo fenômeno (o que Ralph Nader e Victor Papanek fariam em breve), profetizou:
Além da questão das práticas específicas dos persuasores e dos cientistas a eles associados, há a questão maior de saber para onde nossa economia nos está levando sob as pressões do consumismo. Essa também é uma questão moral. De fato, suspeito que está destinada a ser uma das grandes questões morais de nosso tempo. (Packard, 1959, p. 243)
´



Sem dúvida alguma, caro Vance.