sexta-feira, 6 de março de 2015

Ó céus, onde estás que não respondes!



Eu consumo, tu consomes, ele consome, nós consumimos, vós consumis, eles consomem.

Este parece ser o mantra, a oração que se espera que pronunciemos com todo o ardor todos os dias de nossas vidas.

O que estamos dizendo? Ora, isso pouco importa. O Mercado, essa entidade que está acima de tudo e de todos, colocará incontáveis "sinais" de sua magnânima presença em frente aos nossos sentidos e, cada vez mais, os absorveremos sem nem mesmo perceber o que fazemos, para deles nos nutrir. A vida é uma coisa muito difícil e só o consumo pode nos salvar, com suas promessas de felicidade, alegria, estilo e humor.

E quanto mais cedo isso puder começar na vida das pessoas, melhor: respirou, pode consumir. E se um bebê ou uma criança não entende o que venha a ser isso, os adultos podem ensinar.


Chill, Baby Li'l Lager baby bottle é um lançamento da FRED and FRIENDS, uma empresa de Rodhe Island (EUA), que se diz (no texto de sua missão) focada em coisas bem concebidas, que solucionem problemas colocando um sorriso no rosto de quem as consome, sem que custem uma fortuna. Designers de todo o mundo projetam, em parceria com a empresa, produtos inesperados, engraçados e pessoais "que digam muito sobre você".

"Não!, não é cerveja, é apenas a velha boa fórmula infantil servida em uma garrafa plástica, livre de ftalato e de BPA, fácil de lavar".

"Eu sou o curador da minha própria vida" intenciona ser a frase a ser dita pelos consumidores desses produtos pretensamente tão inusitados e bem humorados.

O que dizer?
Só fico pensando no extenso e animado processo de desenvolvimento desse projeto, na empolgação dos designers profissionais e estagiários ao gerar ideias, arquivos, protótipos, pensando nas reuniões de apresentação, no dia da entrega para a produção, na chegada do produto final, na festa de seu lançamento, na produção esmerada dessa foto de divulgação.

Tanta energia dispendida, tanta ignorância reinante, tanta irresponsabilidade e impunidade.






quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Pálido de espanto - Milk Nanny



Faço parte da geração que assistiu (gostando ou não) às fortíssimas mudanças tecnológicas que hoje lotam nossa vida: tudo informatizado, tudo conectado, os telefones celulares inteligentes que cada vez fazem mais coisas por nós, entre nós.

A algumas dessas facilidades eu aderi. Mas resisto a várias outras, sabendo de cor telefones das pessoas mais próximas, fazendo contas de cabeça ou no papel, escrevendo cartas mesmo que raramente.

O fato é que vamos entregando para os produtos (que nos prometem tanto) funções que nossa natureza permite que executemos, e muito bem. Ao fazê-lo, tendemos a atrofiar essas nossas habilidades (aliás, eu me preocupo muito com essa coisa de GPS..., não nego que facilita, mas se a coisa se intensificar, onde irá parar a capacidade que temos de localização?).

Daí que, muitas vezes, ao demonstrar que minha adesão a essas modernidades tem limites, recebo olhares de... compaixão, por assim dizer. Como se estivesse sendo amigavelmente desculpada pela incapacidade de lidar com esses produtos tão atuais.

Por isso o poema de Olavo Bilac (cujo título agora me surpreende ser Via Láctea) me parece adequado aqui. Ele se refere à capacidade de percepção da natureza. Acontece que, inversamente, quando sou "avaliada" pela não-adesão às facilidades disponíveis nesse cenário em que vivemos, sinto como se ouvisse: "Certo perdeste o senso!".

Ao poema:


"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!" 
E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto 
E abro as janelas, pálido de espanto... 

E conversamos toda a noite, enquanto 
A Via-Láctea, como um pálio aberto, 
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, 
Inda as procuro pelo céu deserto. 

Direis agora: "Tresloucado amigo! 
Que conversas com elas? Que sentido 
Tem o que dizem, quando estão contigo?" 

E eu vos direi: "Amai para entendê-las! 
Pois só quem ama pode ter ouvido 
Capaz de ouvir e de entender estrelas". 


Não estou invocando romantismos, mas perturbada sobre o quanto a tecnologia está sendo absorvida como natureza. Ou seja, se torna anti-natural rejeitar seus avanços e suas novidades.

Tudo isso pra emitir meus comentários sobre a "Milk Nanny", projeto com vídeo disponível no site de financiamento coletivo Kickstarter, que está levantando a maior grana.




A ideia é produzir uma máquina que prepara leite para bebês em 15 segundos, acionável por aplicativo de celular.

Os argumentos expostos pelos idealizadores da máquina são... céus, não tenho palavras para descrevê-los (vazios, levianos, enganadores...). Apenas posso dizer que se enquadram perfeitamente nesse modo automatizado ao que a prática intensiva do consumo nos conduz. E as cenas em que os dois analisam desenhos do processo de projeto, para mim que sou designer, são violentas.

Prosseguem, assim, profissionais concebendo coisas que, mais do que desnecessárias, fazem mal e conseguem convencer as pessoas de que a Terra é o centro de tudo, de que tudo o mais nada importa, de que nem mesmo ela importa. Importa é uma ação conjunta e teleguiada para eliminar de vez o brilho inoportuno das estrelas, o choro inoportuno dos filhos e fazer girar a roda magnânima do mercado.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Pegar o bonde andando




Vamos dar ouvidos ao que vem sendo propagado, mas não sem conceber mais um produto para o mercado de consumo, ok?

Ok. 
Fala-se que o leite humano é o melhor alimento para o bebê. Mas o processo de retirada do leite, marcação dos reservatórios, sua organização, armazenamento, aquecimento e administração à criança pode ser facilitado por um moderno e inteligente sistema de produtos, a fim de facilitar a vida desses pais. 

"A nossa estratégia de design é definida pela combinação do talento de classes de engenharia do MIT (Massachusetts Institute of Thecnology) e desenvolvedores de produtos com uma filosofia de design-centrada-no-usuário". 

Eis então o sistema Kiinde Twist, que em seu texto promocional define:
"Somos nerds com uma boa dose de amor e carinho"

Mais uma vez identifico a perigosa influência da lógica de mercado conduzindo e embotando a pesquisa acadêmica na formação de jovens. Desta vez não se trata tão somente de um projeto de mamadeira, mas do projeto de um complexo sistema de objetos, concebido e estruturado sobre "um bonde que foi pego andando".

Tenho a impressão de que alguém gritou de lá: - Olhem, dessa vez é pra fazer pro leite humano, hein!
E, partindo daí, precisamente daí, tudo transcorreu.

Necas de atenção para a Organização Mundial de Saúde e suas diretrizes, necas para o histórico mundial de desmame, morbidade e mortalidade infantil, pra aliança internacional em defesa da amamentação, nem pro Código de Controle de Substitutos do Leite Materno, nada de pesquisa que conceda aos projetistas a noção aprofundada e responsável daquilo que estão fazendo. Vamos em frente que atrás vem gente!

Todas as roscas estão lá pras bactérias se esconderem; todos os bicos estão lá pra alterarem negativamente o desenvolvimento da arcada dentária, afetando futuramente o sistema respiratório, a fala e a deglutição da criança; tem armarinho pra guardar as bolsas que são DESCARTÁVEIS (com toda a crise ambiental que atravessamos, um bom produto não pode transitar assim, tranquilamente, pelo âmbito da descartabilidade); tem as escovinhas fininhas pra fingir que dá pra limpar todos os cantinhos do produto. E tem também a bomba pra retirada do leite materno ... é tanta coisa que acho que não coube só nessa imagem que reproduzo.

Toda essa traquitana pra fazer as vezes do seio materno, "tecnologia" insuperável em quaisquer dos aspectos defendidos pelo projeto em questão, conforme demonstra o spot espanhol abaixo:


E para aqueles momentos em que a mãe não está presente, o leite materno pode ser dado à criança em um copo de vidro, que pode ser daqueles de geleia de mocotó ou mesmo esse da imagem.



Para o copo, sugiro o seguinte texto promocional:
"Somos pessoas informadas, com uma dose suficiente de senso crítico"


https://www.kiinde.com/twist_product.php

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Ron Mueck e o mamaço na Pinacoteca de São Paulo




A primeira vez que soube do artista australiano Ron Mueck foi quando sua obra "Boy" foi exibida na Bienal de Veneza de 2001. A escultura representava um jovem refugiado da guerra da Bósnia, e o tema daquela edição do evento era "Plataforma da Humanidade".

Eu nunca tive pelo hiperrealismo maior admiração do que aquela que nos faz constatar a habilidade técnica do artista (como pode este quadro/escultura ser tão perfeito! Parece de verdade!). As obras, em si, nunca me sensibilizaram.

Mas o que Mueck faz com o hiperrealismo, entretanto, transita por uma outra esfera.
Ao variar as dimensões dos modelos originais, representando-os ora enormes, ora menores do que o real, o artista promove uma espécie de hipersensibilização do observador, como no caso do menino refugiado.
Uma espécie de lente nos permite perceber sentimentos de personagens que possivelmente nos passariam quase despercebidos numa fotografia ou num vídeo.
"Boy" adquire a proporção da intensidade de sua existência, da gravidade do momento que sua representação ao mesmo tempo congela e vitaliza.
E o curioso é que o mesmo acontece - esse engrandecimento de nossa percepção sobre sua presença- quando o artista reduz a escala na dupla de velhinhas, que parecem sentir-se verdadeiramente importunadas pelo olhar dos visitantes curiosos nas exposições.



Enfim, sou uma fã ardorosa do artista, comprei seu livro, persigo seus feitos. E fiquei muito triste ao visitar sua exposição no MAM, Rio de Janeiro. Irritada e mesmo traída pela profusão de selfies, de câmeras, de pessoas que diante DAQUILO, pareciam nem valorizar de verdade o que viam, fenômeno fartamente comentado na ocasião.
Achei certeira a expressão empregada em um dos artigos que li sobre esse fenômeno: "incontinência fotográfica".

Incontinência.
Como a incontinência urinária: a incapacidade de segurar a urina; ou a incontinência emocional: descomedimento no modo de agir, imoderação (Dicionário Online de Português)
Entendi a incontinência fotográfica como a automatização do gesto de fotografar, a incapacidade de conter a mão que saca o celular para bater uma foto, pois tudo tem que ser fotografado para provar que foi vivido. Vivido?

Daí que me impressionei muito quando soube que uma mãe que amamentava seu filho foi censurada por um funcionário da Pinacoteca durante visita à mesma exposição, agora em cartaz na capital paulista.
E antes que eu prossiga escrevendo, acho bacana reproduzir aqui  as esculturas incríveis que o artista elaborou sobre mulheres, gestação e maternidade, que não vieram para a mostra brasileira, mas que imprimem nos olhos da gente todo o respeito e admiração do artista pela natureza e pela natureza e sensibilidade humana:























Dificuldade, descomedimento? Eu poderia dizer que estamos em tempos de uma incontinência cultural?, essa vinculação automática  dos bebês às mamadeiras e aos leites artificiais, e a certeza de que, quando amamentados, isso não deve/não pode acontecer em público?

Que loucura essa "cultura" pela qual se censura os outros, pela qual se breca gestos correntes da vida em defesa daquilo que nos disseram e ainda dizem as indústrias, a propaganda e os modelos de comportamento "civilizado" que importamos sem nem sentir direito...

Daí eu fiquei pensando: a pessoa que sinalizou à mãe a necessidade de ela se recolher a outro espaço para alimentar seu bebê não viu a exposição (!). Pode ter olhado, mas não viu. Nem ele nem aqueles que o apoiaram nessa medida... porque, na minha cabeça, como ver as obras de Ron Mueck e não transcender a percepção rotineira que temos das coisas? ESSE é o efeito de suas obras, pra mim, ao menos. Um novo jeito de olhar para as pessoas, uma sensibilidade que sempre esteve lá, mas não percebemos de imediato, não costumamos acessar, não rola automaticamente...

......

Mas para cada ação, uma reação.

E São Paulo, mais uma vez, não deixou a cena passar em brancas núvens.
Coibição = mamaço.

A Matrice deu o recado, convidando as mães que amamentam para ver a exposição e lá amamentarem à vontade.










Tentando aqui, então, relacionar mamaço e Ron Mueck, o que pensei é que mamaço é uma espécie de hiperrealismo também, que lida com a escala também. Porém, diferentemente, ele não adiciona nem subtrai escala: a multiplica.
Ou seja, se uma mãe amamentando pode parecer estranho e censurável, muitas mães não o parecerão, devolvendo àquela mãe inicial a grandeza de sua atitude e dizendo a todos: vejam, é normal, é bom, e nos deixem com nosso sossego.

Além de fã de Ron Mueck, sou fã também de mamaços :o)

Coerente isso...



quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Crise hídrica



Fomos pegos de assalto por essa falta de água no sudeste brasileiro.

A coisa está mesmo feia, com represas no "nível morto", racionamento, corte de água e aumento de tarifas.

Confesso que, embora há muito tempo eu esteja consciente da finitude dos recursos hídricos, de jeito nenhum imaginava que pudéssemos senti-la tão forte e assim tão cedo.

Mas os bebês, felizmente, podem ser protegidos da crise, podendo até contribuir para o racionamento se forem amamentados.

O leite humano tem tudo de que um bebê, dos 0 aos 6 meses necessita. A Organização Mundial da Saúde recomenda que ele seja amamentado exclusivamente durante esse período, sem que seja necessário oferecer-lhe água, chá ou sucos (é claro que para isso a mãe precisa estar disponível para alimentá-lo em livre demanda: pediu, recebeu. E, em caso de necessitar ausentar-se, deixar guardadinho o leite humano pra ser administrado à criança por meio de um copo). Então, se a mãe tiver acesso a água de qualidade, tudo estará resolvido.

Se, no entanto, o bebê for alimentado por leites artificiais em mamadeiras, fazendo uma lista básica e rápida daquilo que faz parte da nossa rotina teremos:

- água para a mãe beber
- água para o bebê beber
- água para hidratar o leite em pó;
- água para lavar e esterilizar a mamadeira

Essa última água, então, não é pouca... porque pra realmente garantir que a mamadeira fique livre das bactérias (que começam a se proliferar após 1 hora e meia do líquido exposto à temperatura ambiente, e sei lá se é isso tudo mesmo nesse calor), a lavagem precisa ser completíssima, esmeradíssima. É só pensar no fato de que o produto é composto de muitas partes, que se conectam por roscas. Roscas que constituem um ambiente ideal pras tais bactérias de esconderem e se multiplicarem (!). Além do bico em material aderente, aquela coisa que "cola".

Ilustração de Fernando Carvalho

Por isso as agências internacionais de saúde recomendam que, em situações de emergência, o que mais poderá proteger as crianças é a preservação da amamentação.

A natureza está nos pondo à prova... mas acho que ela pensou em deixar guardadinho um recurso maravilhoso para proteger as crianças.





sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A voz da experiência




1990
Av. Rio Branco, Rio de Janeiro
Bilhete do chefe (venezuelano) para mim (designer)
Nossa tarefa: o livro que registra a memória técnica da Usina Hidrelétrica de Itaipu
Motivo do bilhete: agradecimento pelo empréstimo do livro abaixo




Minha filha já tinha perto de um ano quando a mulher do meu chefe engravidou.
Ele, Gustavo Reyes, havia sido muito paciente comigo perante as inúmeras solicitações que lhe fiz quanto a alteração de horário de trabalho, de modo a atender minha filha nas muitas solicitações que me fazia quando pequena. Gustavo franzia um pouco a testa, suspirava um pouco, mas acabava por consentir cada um dos meus pedidos com um sorriso pequenininho, assim, no canto da boca.

Até que um dia ele trouxe a notícia: estava grávido!

E quando o bebê nasceu, era ele quem chegava sempre atrasado, com aqueles olhos fundos de quem mal conseguira dormir.

O que há, Gustavo?
Estamos tendo problemas para alimentar o bebê...

Eu havia ganhado de uma colega, Anita, o livro do Dr. Carlos Beccar Varela assim que engravidei. No dia seguinte, o levei pra ele. E algum tempo depois o livro me foi devolvido com esse simpático bilhetinho.

Isso não foi suficiente para nos livrar da adesão às mamadeiras naquela época. Mas ajudou muito, garantindo que por algum tempo os bebês fossem amamentados.

Hoje as coisas evoluíram muito, felizmente. Há farta informação sobre o assunto disponível para contrabalançar a perigosa influência da cultura dos leites artificiais e mamadeiras.

As pessoas se ajudam, uma mão lava a outra, no melhor sentido dessas expressões.





quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Há também boas notícias




A gente sabe que a euforia com a chegada de um novo ano não demora a ver frustrada aquela esperança toda de felicidade, paz e prosperidade.

No mundo, começamos o ano com o atentado em Paris e o prosseguimento dos massacres na Nigéria. No Brasil prosseguimos com a sequência diária de violência contra inocentes, roubalheira nas instituições, esgotamento de recursos naturais etc.

Mas o fato é que precisamos seguir vivendo, e para isso precisamos nos alimentar com as coisas boas que felizmente também acontecem. Elas nos suprem com energia para aguentar as pressões e também para contribuir de alguma forma no sentido de que essas pressões diminuam.

Pelo segundo ano consecutivo o Papa Francisco incentivou a amamentação em público durante a cerimônia de batismo na Capela Sistina, em Roma.

Tive a alegria de ser consultada pela jornalista Dandara Tinoco, do jornal O Globo, na matéria publicada nessa última segunda-feira.

http://oglobo.globo.com/sociedade/religiao/declaracao-de-papa-em-defesa-da-amamentacao-em-publico-elogiada-por-mulheres-15024896

A repercussão das palavras do Papa, sem dúvida, está mudando o destino de muitas crianças e de suas famílias.

Isso é verdadeiramente valioso.