domingo, 15 de maio de 2016

Boas novas!



Dedico o post de hoje a propagar duas ótimas novidades. A primeira delas é o documentário "O começo da vida", dirigido por Estela Renner, que estreou no início de maio.

Aos poucos a vida dos bebês (Bebês, 2010), o nascimento (O renascimento do parto, 2013), e o problema da alimentação das crianças (Muito além do peso, 2012) tornam-se temas de importantes produções cinematográficas, constituindo fontes relevantes de conhecimento para todos nós, numa época em que a valiosa e milenar troca de experiências se faz, por força da tecnologia e da cultura do consumo, um raro artigo.

O documentário em questão faz um rico levantamento de detalhes sobre os quais nos desacostumamos a refletir. E penso que a abordagem ampla, internacional dos depoimentos de pesquisadores e famílias, eleva o tema a um status merecido: precisamos, todos, pensar sobre isso.

Veja o trailer aqui.




A outra grande notícia é o lançamento do aplicativo Aleitamento para android. Antes apenas disponível para IPhone, ele agora está capacitado a alcançar um público muito maior.

Leia detalhes e assista a vídeo sobre esta tão valiosa iniciativa.

Uma ótima semana a todos.

domingo, 8 de maio de 2016

Providenciando o dia seguinte

Menina ainda, eu decretava: não quero ser como minha mãe, que dedica a vida a proporcionar aos filhos o dia seguinte. Acordando as crianças, pondo o café, levando na escola, arrumando o almoço, passando os uniformes, mandando as crianças escovarem os dentes...

Enquanto isso, meu pai se arrumava todo, saía cedo naquele terno impecável e só retornava à tardinha, cansado e cheio de exigências à minha mãe e também a nós, filhos.

Eu não tinha ali um exemplo pra me espelhar... não me via frente ao fogão e àquele sacrifício todo de minha mãe pela família. E nem como ele, todo profissional e muitas vezes arrogante conosco.

Custei muitos anos a trajar um vestido; a roupa mais simples do mundo foi meu figurino por toda a juventude: calça de brim, camiseta branca e tênis. Quem era eu? Sei lá..., e me enfurnei naquele monte de livros que traziam algum descanso pra minha pergunta, alguma perspectiva.

Estive distante do blog porque meu pai morreu. Minha mãe havia morrido há quase um ano e me ocupei em preocupações e alguns cuidados ao meu pai, que decaiu dois dias depois da ida dela. Quando ele se foi, há poucos dias, é que realmente senti que nenhum dos dois está mais aqui. A cabeça pira, viu? Mesmo eles sendo bem idosos, mesmo sendo um alívio vê-los parando de tanto sofrer com as doenças que enfrentaram, a vida escorrendo de seus corpos.

A cabeça pira, e as fichas vão caindo, uma a uma, até sei lá quando.

Mas como hoje é Dia das Mães - uma data que nunca comemorei, por seu sentido comercial- utilizo esse espaço pra dizer que providenciar o dia seguinte da família é uma das mais nobres tarefas a que uma pessoa pode se dedicar, uma demonstração do valor que se dá à vida daqueles que não somos nós, uma marca que fica pra sempre naqueles que disso usufruíram. Mesmo que não percebam de pronto.

Nesse mundo tão maluco que a gente vive, expresso aqui meu profundo respeito a todas as ações de cuidado, de respeito, de atenção aos outros. E isso se realiza a cada instante da vida de mulheres e homens, com ou sem filhos, antes mesmo de tê-los projetado, mesmo depois de já tê-los perdido, e mesmo sem tê-los cogitado ou não os ter podido realizar por qualquer motivo.

Que esse dia sirva pra gente se aproximar daquilo que somos, sem panelas, sem ternos, sem vestidos: nus.

Aos meus pais, meu agradecimento pelo ingresso nessa grande aventura e minha compreensão pelo sentido de nossa história.

A vocês, todo o meu respeito.




domingo, 10 de abril de 2016

Ouvir e desenhar






Volta e meia ganho de presente alguns desenhos daqueles que me ouvem falar sobre as mamadeiras, ou de amigos.

Esse primeiro desenho aí de cima foi de um aluno de Design da PUC, das turmas das professoras de Português Fátima Santos e Lourdes Sette, sobre textos científicos.



A primeira vez que apresentei minha pesquisa foi no México, num congresso super marcante na Universidad Iberoamericana. Ganhei o desenho de um aluno de design que assistia à palestra. Não sei seu nome.



Aí vêm os amigos. André Cortes é meu colega na PUC e me deu de presente essa sereia-mãe.

Ah, e esse foi muito divertido. Ao chegar no aeroporto de Porto Alegre (lançamento do meu livro na UFRGS), eis que vejo esse cartaz nas mãos de quem veio me buscar. Era Roberto Issler, pediatra gaúcho. Rimos muito!


Pra terminar, essa me foi enviada por Daniela Fuscaldo (eu não a conheço), que fotografou a filha ou filho me assistindo no Congresso Virtual de Amamentação

Registros muito especiais :o)

sábado, 26 de março de 2016

Por que amamentar?



Reconhecimento é uma coisa importante.

O Brasil foi reconhecido por pesquisa publicada em artigo científico na revista The Lancet como o país onde os esforços em prol da amamentação vêm surtindo os melhores resultados do mundo.

Tais resultados são fruto de esforços governamentais no decorrer de muitos anos, somados à intensa atividade da sociedade civil, organizada em grupos tais como redes nacionais de iniciativas internacionais, grupos de mães, sites, blogs, atuação pessoal de profissionais de vários setores da saúde etc.

Vale a gente atentar, nesse momento em que a população brasileira se encontra tão dividida em termos políticos, que o empenho pelo aumento das taxas de aleitamento materno é uma política de Estado, como bem pontuou Marina Réa na rápida conversa que tivemos semana passada (no seminário sobre a NBCAL, na Fiocruz). Esgueirando-se da fortíssima pressão das corporações que fabricam fórmulas lácteas e da violenta força da cultura do consumo, a experiência multiplicável (e como!) dos Bancos de Leite persevera, assim como são alcançados resultados em tantas outras frentes.

Quisera muitos outros problemas que enfrentamos neste país conseguissem merecer essa atenção continuada do Estado...

Mas a pesquisa em questão -que na primeira parte linkada acima demonstra com números eloquentes (e completamente preocupantes) a situação do aleitamento materno no mundo- vem a ser completada pela segunda parte do artigo. Um texto forte, impressionante, do qual destaco a seguinte frase:

"A melhora nas práticas de amamentação poderia prevenir, a cada ano, as mortes de 823.000 crianças menores de 5 anos e de 20.000 mulheres por câncer de mama".

Por que amamentar? Por isso. Além dos 4.567.543.221.344.545.565 MIL motivos que ainda não foram quantificados por artigos científicos, mas estão na ponta da língua de quem protege e tem a chance de praticar a amamentação.

terça-feira, 1 de março de 2016

Sobre copos de transição: mas nem eles?





É mesmo complicado a gente se deparar com um monte de "senões" a produtos lançados pela indústria pra facilitar as nossas vidas...

Quero tratar aqui do caso do copo de transição, produto concebido para propiciar a passagem do bebê do aleitamento materno (ou alimentação artificial por mamadeira) para o copo comum.

Para a criança, deixar de realizar a sucção no seio materno ou a "apertação do bico da mamadeira contra o céu da boca" e passar a beber líquidos em um copo, de golinhos, é realmente uma mudança significativa, um processo delicado. Daí a indústria concebeu esse produto, o copo de transição, para solucionar a questão com conforto e segurança.

Conforto e segurança?

O conforto eu acho que ela nos possibilita sim ou pelo menos nos faz crer que possibilita. O fato é que a gente desenvolveu uma paúra, um terror pela ideia de que, ao beber num copo, a criança vá derramar tudo, sujar tudo, dando um trabalhão pra limpar e, pior ainda, vá se engasgar direto (pouco ou nada se fala sobre os muitos casos de crianças que se engasgam com a mamadeira, mas soube por colegas pediatras e fonoaudiólogos que esses casos são comuns em emergências de hospitais).

O medo da sujeirada conta, e conta muitíssimo, vamos admitir. Nessa "onda" de achar que podemos ficar livres da sujeira, já nos tornamos (muita gente) dependentes das fraldas descartáveis e estamos nos enamorando (muita gente) dos alimentadores ou "redinhas", aquele tipo de chupeta gigante que propõe que as frutas e alimentos sejam colocados em seu interior para, macerados e intermediados por um bico de silicone perfurado ou por uma rede de fios, "facilitarem" o contato das crianças com os novos alimentos.  Mas como já comentado aqui em posts anteriores, com esses produtos podemos até achar que nos "livraremos" da sujeirada, mas só num primeiro momento, porque o volume de lixo gerado pelo uso das fraldas é inimaginável, e cercear o contato das crianças com frutas, sua forma, textura, gosto natural é algo que beira a insensatez. Eu acho que é insensatez mesmo...

Agora, segurança as indústrias nem sempre nos possibilitam não, embora nos digam justamente o contrário em peças publicitárias lindas e até comoventes. E tenho arrepios quando ouço frases do tipo "a comunidade médica recomenda", "qualidade assegurada por renomados pesquisadores" e coisas do gênero, porque a gente sabe que muitas vezes isso é balela, fruto de combinações de interesses financeiros entre as partes ou mentira mesmo.

Daí conto uma história:

Logo que defendi minha tese, "O desdesign da mamadeira", o feito foi publicado em algumas revistas e links renomados. Numa bela tarde, recebi o telefonema de um fabricante de produtos para mães e bebês, e como eu já iniciava junto ao Banco de Leite do Instituto Fernandes Figueira o projeto de um copinho (esse projeto não foi adiante, infelizmente), fiquei toda animada. Mas eles me perguntaram se eu daria meu endosso, como pesquisadora de Design com tese de doutorado recém defendida, a um copo de transição com bico. Eu disse que não. De tudo o que estudara e ouvira durante minha pesquisa, o bico não é aconselhável para bebês, em quaisquer fases. Então sugeri que eles procurassem o Banco de Leite (só que eu sabia que eles não apoiariam). Argumentei que o endosso de especialistas da saúde seria o mais adequado para a iniciativa de produção de tal produto (o ok de uma pesquisadora de Design é valioso sim, mas essa minha profissão vem, erroneamente, sendo valorizada por conceder estilo aos produtos, e intuí que poderia haver um uso distorcido do meu trabalho).

Mas esse telefonema contribuiu pra que eu ficasse mais ligada ainda nos lançamentos da indústria voltada aos cuidados com os bebês. já que a minha questão de fundo é a necessidade de avaliação da produção industrial.

Então vamos ao cerne da questão. Por esses dias encontrei no Facebook, finalmente, um artigo que super merece leitura sobre os problemas do copo de transição. Crianças ficando doentes com muita frequência, sem motivo aparente, os pais vão lá, abrem a válvula (que é lacrada!) do copo de transição da Tommee Tippee (dinamarquesa) e encontram a seguinte situação:









Céus, não existe nome pra isso... eu fico pensando nos designers que projetaram um troço desses...

Vale a leitura, no final, da carta da Tommee Tippee, direcionada aos "pais preocupados" com a questão, dizendo que eles vendem esse copo a rodo pelo mundo e não tiveram queixas, que é um sucesso, que são muito preocupados com a segurança de seus produtos bla-bla-bla, que nas instruções é dito que só podem ser colocados líquidos frios, coados etc, bla-bla-bla, que no manual tem instruções para a limpeza do copo, mas que darão toda a atenção ao caso... Ok, o fato é que são raras as pessoas que lêem os manuais de produtos como mamadeiras e copos... lá tem uns avisos sinistros, mas ninguém lê e assim as indústrias se protegem, citando que avisaram no manual. Mas nada salva, o treco é lacrado, e mesmo que a gente coe, lustre ou seja o que for, qualquer saliva, qualquer resquício de açúcar, restinho de fruta tem que ser integralmente retirado dos locais onde colocamos a boca, senão estaremos expostos a mofos, ao crescimento de microoganismos nocivos à saúde.

O que venho defendendo é que nós, consumidores, temos todos a capacidade de olhar para os produtos e refletir: será que isso presta mesmo? Não precisamos ser especialistas pra percebermos falhas de projeto nas coisas, ao menos em algumas delas. Ok, o problema é que as marcas são confiáveis, suas propagandas são incríveis, seus produtos são lindos. A questão é essa, não confie nas marcas, analise você, com seu bom senso. Todos nós sabemos que as bactérias existem, por exemplo.

Daí, compartilho agora o link do blog Prolactare, da Dra.Cristiane Gomes, em artigo detalhado sobre os males causados por esse copo de transição do ponto de vista da fonoaudiologia. E também sua matéria de hoje sobre aquelas tais "redinhas" (blog de fonoaudióloga ) pro bebê comer fruta. Vejam o quanto esses textos são esclarecedores.

Céus....


domingo, 21 de fevereiro de 2016

Tão perdidos quanto cego em tiroteio




A cada dia que passa, leio notícias atribuindo o surto de microcefalia a diferentes motivos. Primeiro se falou de vacina, depois o governo brasileiro concluiu que era culpa do Zica vírus. Li artigos perturbadores culpando um componente químico da Monsanto, utilizado como fumacê para acabar com o mosquito, que acaba por infectar a água que consumimos. E hoje me deparei com artigo em blog de um jornalista independente que nos reporta pesquisa de instituição australiana, apresentando argumentos que culpabilizam a vacina dTPA (tétano, difteria e coqueluche acelular), introduzida no calendário obrigatório de vacinação de gestantes desde o final de 2014, como medida preventiva contra o ressurgimento da coqueluche no Brasil:

"O problema é que a vacina não estava plenamente testada e aprovada para gestantes, conforme o próprio fabricante e autoridades sanitárias estrangeiras".

Os argumentos apresentados pela pesquisa nos parecem muito coerentes. E o problema é que tudo o que lemos nos parece coerente...

Como é que a gente pode se proteger em meio a esse "tiroteio"? Eu não sei. É arriscado ficar sem passar repelente, arriscado não tomar vacinas etc.

O que eu consigo pensar não é nada tranquilizador: grosso modo, não sabemos onde estamos metidos. A indústria vive de nos ofertar soluções mágicas para os nossos problemas (como a mamadeira, os leites artificiais e tantas outras "facilitações" para a lida com os pequenos); agentes químicos que desconhecemos redondamente estão naquilo que comemos, respiramos, vestimos; as farmácias monopolizam o espaço comercial das ruas, demonstrando o quanto tem sido rentável se recorrer a remédios para quaisquer males.

Eu adoraria escrever aqui, agora, algo bem sensato e tranquilizador, mas esse artigo anda "em falta".

O que vibra em mim é, cada vez mais, uma consciência danada de que vivemos uma época muito doida, estamos expostos a coisas que desconhecemos, e que nossa participação ativa nesse roldão (por simplesmente viver e acreditar naquilo que nos dizem) o potencializa.

Bom dia e boa sorte.



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Uma boa notícia


Ilustração Cláudius Ceccon
A Rede Nacional Primeira Infância reúne um monte de iniciativas (pessoas, organizações da sociedade civil, do governo, do setor privado) na tarefa de garantir os direitos das crianças de zero a seis anos. Sua finalidade é edificar políticas públicas legitimadas por toda essa representatividade.

Há pouco venho me aproximando do entendimento sobre a importância das políticas públicas. Sempre achei esse termo muito vago, e meu cansaço de brasileira descrente na "coisa pública" me afastava da capacidade de dar crédito a ele.

Até que fui me embrenhando na pesquisa sobre os males da mamadeira e deparando com os esforços, tantas vezes frutíferos, de uma turma enorme de gente que se dedica a modificar coisas que precisam muito ser mudadas. Só pra citar alguns casos, a gente tem:

- a Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano (que já é Iberoamericana), considerada a tecnologia mais avançada do mundo pela OMS/ONU;
- tem a IBFAN Brasil que monitora o Código Internacional de Substitutos do Leite Materno (ou seja, as investidas da indústria) e alcançou recentemente a aprovação da norma de controle desses produtos;
- tem um monte de pessoas que nos garantem informação e pesquisa sempre atualizada sobre o tema, como o site aleitamento.com, o do Banco de Leite e o da IBFAN Brasil;
- tem os grupos de mães que saem fazendo mamaços pra divulgar as benesses da amamentação e reagir às coibições ao aleitamento em lugares públicos e acabam conseguindo leis que garantam esse direito (pelas quais temos sempre que seguir lutando, pois leis ajudam mas não resolvem tudo).

Essas pessoas trabalham pra caramba, há muito tempo, não em troca de um salário, mas de dignidade.

E cheguei a experimentar essa incrível sensação na prática quando, depois de um ano compondo um grupo que foi se organizando com muita fluidez, chegamos à adesão da PUC-Rio à Licença Maternidade de 6 meses (era de 4, o governo já tinha autorizado, mas as empresas particulares precisam aderir). Já falei sobre esse ponto aqui no blog, mas vale repetir que isso resultou numa melhora significativa de qualidade de vida para alunos, funcionários e professores. Uma coisa que veio pra ficar.


Como eu disse, as leis ajudam, mas não resolvem tudo. É necessário que depois de projetadas, aprovadas e implementadas, sejam divulgadas às pessoas pra que venham a ser usufruídas, defendidas e absorvidas pela cultura.

Daí é que volto pra Rede Nacional Primeira Infância, que comemora a recente aprovação -por unanimidade- no Senado Federal, do Marco Legal da Primeira Infância. Só falta a sanção da Presidente, já assegurada por sua equipe (programa do Alexandre Garcia na GloboNews). O "espírito da coisa" é integrar, a nível federal, estadual e municipal, todos os direitos da criança, cuja defesa se encontra até então setorizada por diferentes programas governamentais.

Leia no link da Rede os detalhes desse importante passo, de onde destaco os seguintes pontos:

1) O pai ou a mãe passam a ter direito de permanência em tempo integral em UTIs Neonatais como acompanhantes de seus bebês;

2) O pai terá direito de acompanhar sua mulher gestante a duas consultas ou exames durante a gravidez, e também direito a se ausentar um dia por ano para acompanhar seu filho a consulta médica, sem prejuízo de seu salário;

3) Amplia de 5 para 20 dias a licença paternidade, inclusive em caso de adoção.

Enfim, vale a pena ler o texto da notícia e acompanhar o andamento disso tudo.

Estamos em meio ao enigma da microcefalia (mosquito? Monsanto?), mas considero muito legal esse Marco. Vamos protegê-lo.