sábado, 29 de dezembro de 2018

2019, ano do XV Encontro Nacional de Aleitamento Materno, que será internacional



No ano que se aproxima, o Rio de Janeiro sediará o Encontro Nacional de Aleitamento Materno, que também abrigará eventos nacionais e internacionais sobre o tema e sobre Alimentação complementar saudável.

Essa história começou há muitos anos, por iniciativa das Amigas do Peito, que iniciaram contato com uma rede incrível que foi então se potencializando e se conectando cada vez mais.

Estive presente em três ENAMs (Santos, Manaus e Florianópolis), e vai ser um luxo ter a chance de ouvir e interagir dessa vez com esses ativistas de todos os cantos do mundo que, embora pouco se noticie, trabalham com muito amor e persistência em defesa da saúde de nossas crianças, procurando defendê-las do assédio das indústrias de fórmulas infantis, mamadeiras e afins.

Trata-se, sim, de um congresso científico, mas um congresso que tem na raiz o conceito de um encontro, onde mães, bebês, crianças, pais e avós serão muito benvindos, inclusive com programações especiais dedicadas a eles.

Bom, e como moro no Rio e sou designer, estou fazendo parte do Comitê de Comunicação da grande equipe organizadora do evento. Estamos trabalhando intensamente há um ano e foi com alegria e esmero que desenvolvi as ilustrações da identidade visual que vocês vêem aí em cima. O design gráfico está a cargo do Multimeios da Fiocruz, que também desenhou vários cenários para a coleção de ícones que compõem a identidade e podem ser vistos no site do ENAM.

Dêem um pulinho lá, vejam como vai ser legal e fiquem a par de modos de participação e preços de inscrição.

E coloco a seguir um pouquinho do making of dos desenhos, pois acho que vocês vão curtir:






E mesmo antes de me engajar nesse trabalho, venho preparando uma supresa muito especial que será lançada durante o evento: uma HQ sobre essa grande causa, em produção com a Editora Timo. Está ficando incrível e não vejo a hora dela ganhar as ruas!

Que o ano que vem seja muito bacana e produtivo pra todos nós!






sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Lembrando do essencial

A gente sabe que o ano foi barra pesada, mas proponho que valorizemos fatos que garantiram a todos coisas essenciais:

1. Todos os dias de 2018 amanheceram. Este é um sinal fundamental que nos assegura que a Terra prossegue girando direitinho em torno de seu eixo.



2. Mesmo que não dê pra dizer algo tranquilizador sobre as estações do ano, há fortíssimos indícios de que a Terra prossegue também com sua ciranda ao redor do Sol. Sobre esses dois primeiros itens da lista, tem um documentário encantador: Home, de Yann Arthus-Bertrand.



3. Importante sublinhar que os itens 1 e 2 nos trazem um dado valiosíssimo e inquestionável: habitamos essa bolinha que fica pairando numa imensidão pouquíssimo conhecida. E por ser tão perturbador pensar nesse tamanhão todo, a gente costuma fingir que o mundo é só o que a gente enxerga. Que nem naquele filme O show de Truman, de Peter Weil. Pra quem não viu, trata-se da história de um homem que, desde que nasceu, vive num mundo cenográfico onde - sem que ele saiba, todos são atores de um reality. Claro que o tal programa movimenta a economia e o comércio com a aparição de todos os produtos que ele consome, atingindo imensa audiência no "mundo real".  Mas vale a gente se perguntar o quanto esse nosso "mundo real" não será parecido (ou igualzinho!) ao mundo de Truman.



4. Estamos vivos. E queiramos ou não lembrar disso, o corpo da gente é um universo também. Assim como há um universo em cada coisa da natureza. De novo tendemos a considerar só aquilo que enxergamos, que super vale, mas não representa nem um bilhonésimo daquilo que somos. Daí me vem à memória a cena final de 2001, uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick. É arrepiante.



5. Somos capazes. Estamos dotados de capacidades impressionantes. O documentário O começo da vida, de Estela Renner, é lindo e pode nos explicar mais sobre isso.



Cinco coisas boas, quatro bons filmes, o desejo de um Natal gostoso e tranquilo e de um Ano Novo com esperança e coragem.





quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Parto, precisamos saber sobre isso



Cada vez mais a gente percebe que informação segura é uma preciosidade. E graças aos esforços de muitas pessoas e profissionais de várias áreas, situações que estavam condenadas a se perpetuarem na "cultura" estão sendo trazidas à luz, como é o caso da violência obstétrica.

É urgente e imperioso que a população, homens e mulheres de qualquer idade, tome conhecimento do assunto para que possa refletir, decidir sobre o nascimento de crianças e se equipar com informações que possibilitarão sua segurança nessas ocasiões ou mesmo o triste mas necessário reconhecimento de ter sido vítima desse tipo de opressão.

Ao assistir ao documentário "O renascimento do parto 1" (de Érica de Paula e Eduardo Chauvet), ao lado de minha filha já adulta, é que me dei conta do quanto o obstetra fez para me desviar do desejo de um parto normal.

Os documentários 1 e 2 estão disponíveis no Netflix. E o 3 -específico sobre violência obstétrica- está no Now.

Na última terça-feira o jornalístico Profissão Reporter sobre Violência obstétrica foi exibido muito tarde da noite, mas o link acima permite a sua reprodução.

O nascimento pode ser sublime ou traumático. Vale muito a gente adquirir conhecimento sobre esse tão premente assunto.

domingo, 25 de novembro de 2018

Infância roubada




Ontem, sábado, me programei pra assistir ao GloboNews Documentário sobre as crianças suecas apartadas de suas famílias pelo governo, pelo fato de suas mães serem adolescentes ou não terem marido, ou simplesmente por serem de famílias pobres. Encaminhadas a orfanatos religiosos, eram vistas como "fruto do pecado" e expostas a terríveis situações. Com "sorte", eram conduzidas (ou vendidas e até leiloadas) para fazendeiros, que as tratavam como empregados, muitas vezes em situação de escravidão mesmo, submetendo-as a abusos psicológicos e sexuais.

Eu já havia tomado conhecimento disso há alguns anos. Um de meus alunos, brasileiro mas de família sueca, surpreendeu a toda a turma ao revelar essa prática em país que elogiávamos momentos antes. Coincidentemente, naquele final de semana encontrei na TV este filme de 2011, dirigido por Markus Imboden, que recebeu o título internacional "The Foster Boy". "Der Verdingbub" pode ser traduzido como BUB / criança, pirralho; VERDING / contrato. Até meados do século XX essa realidade permaneceu no país, e só recentemente o governo reconheceu o fato, se desculpou com os afetados e deu cerca de R$ 100 mil a cada um.

Bom, foi apenas assistindo ao documentário ontem que me "caiu a ficha" de que convivi diretamente com pessoas que passaram por isso na família.

"Irmãos de criação", "Filhos de criação" de parentes, nem sempre negros mas sempre vindos de famílias pobres, sempre tratados como empregados e nunca como filhos adotivos. Algumas vezes negociados por seus pais, ou deles simplesmente apartados, trabalhavam pesado sob o véu social de filhos adotivos: _Foi quando adotei uma negrinha.

Já ouvi essa frase. Essas "casas de família" pareciam constituir a única saída para essas crianças, e elas chegavam com cinco, dez, doze anos lá. Abusos terríveis que nunca se apagaram e que vieram a afetar suas vidas, as famílias que formaram depois, a postura, o olhar. Conheci quatro pessoas, muito, muito próximas que passaram por isso, e que mesmo a um certo momento libertas, carregaram o peso o resto da vida.

Crianças ... Há muitos anos também levei um choque ao aprender com Philippe Ariès, em seu livro "História Social da Criança e da Família", que apenas a partir do final do séc. XVII a sociedade ocidental começou a deixar de ver as crianças como adultos pequenos, a deixar de impacientemente aguardar que crescecem para se tornarem produtivos, passando a infância a ser reconhecida como uma fase de desenvolvimento, formação.

Eu hoje troquei as carinhas que compõem o plano de fundo do blog. Estou bem mais craque em desenhar bebês e crianças, como poderão ver em um produto a ser lançado no ano que vem. Mas isso é só um parêntese.

A história da Suiça inclui esses fatos; a minha história inclui fatos semelhantes; o mundo nunca esteve para brincadeiras, embora tentemos nos agarrar às coisas belas, corretas e boas.

A infância precisa ser cultivada e respeitada.

Toda a minha admiração, respeito e reconhecimento por aqueles que tiveram a infância roubada.

domingo, 21 de outubro de 2018

Mamadeira, eleições e consumo




Eu fico me perguntando o que há de ter feito pessoas acreditarem que o candidato à presidência Fernando Haddad, implantaria nas creches do país mamadeiras cujo bico reproduz o órgão genital masculino ...

Eu diria que o absurdo está na notícia falsa, está nas falsas notícias que assolam o país neste momento tenso e surreal, mas nem tanto no produto asqueroso, montado mais do que grosseiramente, para causar pavor nas pessoas, já que meu arquivo de imagens inclui algumas propostas também inacreditáveis e chocantes que compartilho abaixo com vocês.

Talvez a pior delas seja esta. Acreditem, ela está à venda no site da Amazon. E por estar lá ... há de vender:



"Dando independência aos bebês desde 1972". Um produto que existe há tanto tempo ... E não se trata de fake news.

Na verdade, e acabo de ser avisada por uma leitora do blog, trata-se de um "produto-pegadinha", que tem como objetivo brincar com o presenteado:

"Nós nos orgulhamos de nossa incrível atenção aos detalhes. Pensamos em tudo, desde o ridículo produto fictício em si, até as imagens hilárias e a descrição detalhada do produto. Esta caixa terá qualquer destinatário realmente convencido de que você acabou de dar-lhes o presente mais bizarro de todos os tempos!"

Eu me impressioneie acreditei que era verdade ....

Mas vamos aos próximos produtos.

Que tal este aqui?



Muito feio? Traquitana? Mas foi pensado também para dar "independência" ao bebê!

Tá bom, tá bom, o pessoal reconheceu que tava feio e fez um mais fofinho, com bichinho e tudo:


Pra terminar, uma bem humorada mamadeira, pra brincar com os amigos e amigas, tão bem feitinha que parece até cerveja de verdade!





Acontece que estamos acolhendo tudo que nos é oferecido para consumo, sem parar pra pensar no que essas propostas representam ou significam.

1. Como assim dar independência para os bebês se alimentarem? Bebês são dependentes e seu contato com produtos precisa ser supervisionado por adultos sempre. Pouco se comenta, mas o risco de engasgo com mamadeira é grande, pois a vazão do leite precisa ser interrompida pelo bebê, que para engolir o líquido, precisa elevar a língua até o céu da boca (movimento este que ele não nasceu sabendo fazer e que ocasionará alterações na formação de sua arcada dentária e sistema respiratório).

Independência ao bebê limitando ao berço seus movimentos e acondicionando em um bebedouro uma grande quantidade de leite que, passadas duas horas de exposição à temperatura ambiente, inicia a proliferação de bactérias?

Caso não se pense nisso, como aceitar passivamente esse "curral"?

Poxa, caí feito "um patinho" acreditando que o produto era verdadeiro ...


2. Acessórios para bebês têm feito muito sucesso e são adquiridos antes mesmo de eles nascerem. Que interessante esse sistema que acopla a mamadeira ao moisés pra que a criança se alimente sozinha! É de feltro, molinho, em várias cores. Querem saber?, pode ser até bonitinho, mas duvido que funcione, pois exigirá um controle motor que os bebês ainda não adquiriram.


3. E que engraçada essa mamadeira que imita uma garrafa de cerveja ... Só que não, por motivos óbvios.


Há de tudo nesse mundo. E cada vez mais esse sortimento nos afasta da capacidade crítica. Isso nos fragiliza, nos expõe ao medo quando a ameaça de fato se esgueirar à nossa frente. E embota nosso senso de realidade, abrindo flanco para a crença em tudo que nos apareça pela frente, verdade ou mentira deslavada. No caso das crianças, apaga nosso compromisso com a responsabilidade que temos por elas. Que é nossa, e não dos produtos.

Que essa nefasta experiência das eleições brasileiras sirva para trazer à pauta o alerta feito há anos por Umberto Eco:

"Talvez seja mais sensato duvidar de tudo quanto depressa demais se nos apresente como definitivo".

Boa tarde. E boa sorte.


domingo, 9 de setembro de 2018

Pipoca doce ou salgada?



Gosto muito de pipoca. da doce e da salgada. 

Hoje comento aqui algumas notícias que reuni nas últimas semanas e, ao contrário dos tipos de pipoca - tão simples e ao mesmo tempo surpreendentes ao paladar que quer se alegrar, além de sinceros (doce e salgada)- seu gosto
pode enganar aos sentidos.


1. Me pareceu doce a série de matérias publicadas pelo jornal Metro sobre o que está por detrás das táticas da indústria de fórmulas infantis, porque constatei uma coragem elogiável no jornalista Rafael Neves em trazer à tona o gosto amargo da doçura cantada em verso e prosa da indústria do desmame. A coragem é doce. 

Em Indústria muda táticas para competir com leite materno, o primeiro dos cinco artigos, a gente fica sabendo da superioridade do leite materno, mas também do quanto isso vem atrapalhando o mundo dos negócios, que de maneira falaciosa só faz crescer a adesão aos modos artificiais de alimentação de bebês, fornecendo argumentos que insuflam o descrédito das mulheres-mães às suas capacidades biológicas. Sim, amamentar pode não ser simples ou pode não ser possível em alguns casos, mas a intimidade das empresas com pediatras, intimidade histórica - diga-se de passagem- não é a troco de nada. Vale muito a leitura. E não posso deixar de comentar a surpresa que tive ao deparar com a série jornalística, pois considero o jornal Metro uma leitura rasa de notícias de poucas linhas para atender ao triste fenômeno contemporâneo de não se ir a fundo em nada: leio rapidinho e estou atualizado. Então, reconheço aqui o esforço editorial empreendido por todos os profissionais envolvidos nessa mudança (mesmo que esporádica) de rota. 


2. Prova da força estratégica da indústria, outro artigo me chamou a atenção: Agosto dourado e o perigo da mamadeira no berçário: uma prática que precisa ser combatida. Em um sincero depoimento, a jornalista e nutricionista Mariana Claudino relata sua experiência de impotência diante do oferecimento de mamadeira com fórmula infantil a seu filho Mateus na maternidade, sem o seu conhecimento, alertando sobre a necessidade dessa prática ser denunciada e apontando que a informação (informação é doce) pode ser a alma do negócio. 

Quantas gestantes não devem estar lendo este texto agora? E é para elas que eu escrevo com muito amor: ajudem a mudar essa realidade, informem-se sobre o assunto, não deixem que seus bebês recebam o leite de vaca na maternidade. Questionem o médico, empoderem-se, peçam ajuda, perguntem, rebatam. Não fiquem conformadas se disserem que "o jeito é mamadeira".

3. E como "chave de ouro", recebi a notícia de que a Panda Feeding Bottle, uma mamadeira com jeitinho de urso panda, foi premiada no iF Design Talent Awards de 2018, tirando o décimo (e último) lugar. Mais uma vez, MAIS UMA VEZ um projeto de mamadeira é realizado por designers e premiado em um dos mais importantes concursos da área ... Repito: quem projeta mamadeira não pesquisou sobre os gravíssimos problemas provocados por esse produto; design sem pesquisa não é design, e sim total irresponsabilidade. Eu só fico imaginando que não havia de ter no juri desse prêmio uma mulher, uma mulher informada como aconselha a autora do artigo comentado acima, pra dar um basta nesse projeto e mandar os designers assumirem seus compromissos éticos.

Arg ... nem sei que gosto isso tem ....

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Improdutivas?!?!





Estive presente ao Seminário Estadual da Semana Mundial de Aleitamento Materno desse ano, no Auditório do Ministério da Saúde, e desejo comentar a fala de uma integrante da mesa de abertura (infelizmente não anotei seu nome, mas ela é gaúcha e representante do Governo Federal ... desculpem pela fragilidade da referência, tá?). Ao citar a questão das mulheres trabalhadoras que amamentam, uma de suas colocações ficou martelando na minha cabeça, pois alerta para uma mentalidade em vigor que precisa ser transformada:

As mães em licença maternidade são consideradas improdutivas.

Caramba ... E não é que são mesmo? De diferentes formas, a tendência geral é a de entender esse período como uma paralisação, um afastamento das atividades produtivas ...

Será que a palavra utilizada para nomear essa fase contribui pra esse entendimento? Será que a palavra LICENÇA contribui pra ideia equivocada de que nesta fase a mulher fica parada, improdutiva? Porque licenças costumam ser por motivo de doença, de impossibilidades e sempre significam uma paralisação da produtividade.

Mas a mulher que tem filho está no auge de sua possibilidade, tendo dado à luz a uma nova pessoa! Essa é a tarefa mais estrutural da humanidade. Só que a cultura capitalista faz com que ela seja considerada improdutiva ao produzir e cuidar, com proximidade, de um novo ser pra habitar esse mundo. Maluco demais, né?

Se você produz um relatório da empresa, ou projeta um edifício, ou organiza um evento, dirige um trem, opera um guindaste, cuida de pessoas doentes, limpa residências, varre as ruas, representa a população etc, você é produtiva. Mas se você gera e cuida de uma nova VIDA, é considerada improdutiva, afastada dos movimentos que movem o mundo, alheia a tudo o que acontece. Você está de licença do mundo.

Felizmente estamos em uma fase de intensa revisão de valores (questões de gênero, raça, preconceitos diversos a serem encarados). Então eu acho que devemos, também, rever o conceito de que a mulher se licencia do mundo para gerar e cuidar dos primeiros meses de uma nova vida.

Eu até tentei pensar em algum outro termo que pudesse substituir este, mas não encontrei nenhum, ainda mais porque qualquer afastamento da tarefa produtiva recebe esse nome, mesmo a licença prêmio. Mas fica a sugestão pra todo mundo pensar.

O fato é que as palavras são muito importantes, elas são definidoras, moldam as ideias que representam. Tanto que, realmente, as mulheres são consideradas e mesmo se consideram improdutivas ao cuidarem de seus filhos recém-nascidos.

Caramba ...