segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Superpoderes
Bom, eu acho que todo mundo tem superpoderes. Somos uma máquina superpoderosa, com funcionamento requintado, de qualidade insuperável. Um sistema que ultrapassa qualquer máquina já pensada. O corpo humano, a capacidade de SER que temos, deixa qualquer nave espacial no chinelo. No chinelo mesmo.
E daí, é claro, também damos defeito. E um deles é uma tendência enorme a delegar às coisas, aos objetos, aos produtos, às máquinas, aquilo que temos capacidade de realizar. Porque esses utensílios "nos poupam". Só que essa "poupança", essa "economia" tem - como tudo na vida - seu lado bom e seu lado ruim.
Uma das coisas que mais me impressionaram até hoje foi a informação de que, com o surgimento do alfabeto, as pessoas foram aos poucos deixando de ter que memorizar informações; que com o advento da imprensa, a oralidade foi perdendo seu papel, sua importância. Sem dúvida o alfabeto e a imprensa alargaram nossas possibilidades perante o conhecimento. Mas deixamos de dispor de nossa memória em todo o seu potencial.
Hoje me espanto ao constatar que perdi grande parte da minha capacidade em fazer contas de cabeça. Mas ainda me salvo, porque a imensa maioria dos meus alunos é incapaz de realizar isso. As coisas, como a calculadora, fazem as coisas por nós.
Que bom que há coisas que fazem coisas por nós.
Que bom quando essas coisas - que fazem as coisas por nós- as fazem bem, as fazem tão bem ou melhor do que nós. Ou mesmo mais agilmente do que nós.
O problema é quando essas mesmas coisas fazem coisas ruins e, por serem coisas (e por elas supostamente sempre fazerem coisas boas por nós), lhes damos o aval de que fazem as coisas muito melhor do que nós.
Não fazem.
E no caso do leite, além de não chegarem nem no dedão do pé, fazem mal.
domingo, 11 de novembro de 2012
Mamadeira e leites artificiais: só tem mocinho e vítima, né? Tá faltando um bandido
Reproduzo aqui mais um trecho da tese, que será publicada no primeiro semestre de 2013 (está agora em fase de revisão).
Considero a consulta que fiz aos professores de design um momento-chave da pesquisa. Aqui foi discutida a malha de interesses que propicia a força da cultura da mamadeira, apesar das recomendações dos órgãos de saúde contra o seu uso:
Percebe-se a existência de um contexto intrincado que viabiliza e referenda a inserção dos leites artificiais e das mamadeiras na cultura:
— A questão, muito bem abordada na apresentação, é que há uma malha de interesses, quer dizer, é uma indústria farmacêutica pesada acenando com perspectivas de ganho muito grandes para os próprios médicos; essa medicalização dos cuidados com a parturiente, a criança e tudo mais, e até mesmo acenando nas campanhas como algo bom para a criança: eu vou ser uma boa mãe na medida em que fizer isso. Quer dizer, não há bandido nessa história, só tem mocinho, né?
— Só tem mocinho e vítima, né? Gozado, tá faltando um bandido.
— Na verdade as crianças são aquinhoadas.
Esse trecho do debate foi seguido de comentário, feito pela anfitriã, que agregava àquilo que havia sido dito informações sobre o recurso promocional empregado pela Nestlé em recente comercial de TV (a mãe, como expert em leites, recomendando os leites da empresa); o fato de recentemente indústrias alimentícias brasileiras terem fechado acordo de não realizar propaganda dirigida ao público infantil; o fato de o relatório do IBFAN ter demonstrado retrocesso nos níveis de controle da conduta pró-amamentação na União Europeia (sinal de que as indústrias estão investindo em suas estratégias) e o consequente lançamento da boneca que amamenta.
O raciocínio, simples e coloquial, que levou a identificar “mocinhos”, “vítimas” e ausência de “bandidos” é muito expressivo. Pode mesmo ser aplicado à questão como um todo, ou seja, referente a toda a problemática da necessidade de reavaliar a produção industrial. Pois o discurso das empresas é de recomendação enfática dos produtos; eloquentes são os danos de alguns produtos sobre seus usuários, silenciados tantas vezes pelo poder de penetração da voz dos produtores. Não há “bandidos”.
Prosseguindo,
— Você também não acha, como disse, que isso resulta também da forma com que funciona essa parceria com a comunidade médica? Eu vejo duas coisas. A primeira que a Nestlé pautou seu discurso na questão da confiança. Então quem é a sua primeira fonte de consulta, se você dá ou não peito, dá ou não leite de mamadeira? O médico, o pediatra que eles chamam de neonatal, que está na sala de parto. Esse pediatra, que talvez seja o que acompanhe o bebê depois, ele vai (teria que) dizer: olha, é assim mesmo, tem que tentar e se ficar machucado tenta o outro peito, que não está abaixo do peso, é assim mesmo. Não, mas ele tá magrinho! Mas é normal. Ele vai (deveria ir) te convencendo e te dando essa confiança.
— (O leite e a mamadeira) são economicamente mais rentáveis para os médicos e para os hospitais.
— O que o médico receita é porque que a indústria indica, e o médico é uma classe que goza de muita fé das pessoas, porque ele lida com a cabeça da gente, com a nossa vida, então acreditamos nele e precisamos acreditar nele. A gente coloca a vida da gente na mão do médico. Ele tomou o lugar do padre, da religião.
— Eu (sou designer, mas) quando fiz medicina, a aula inaugural da gente era com um professor bem velhinho, que dava as dicas de como se entrar na casa de um paciente: um pigarro antes da soleira para demonstrar sua autoridade, esconder as mãos pra aparentar segurança, demonstrar que você tinha uma sapiência.
Não é difícil identificar o comprometimento inicial entre a indústria e a área médica a partir do início do raciocínio sobre o alto nível de implantação da cultura da mamadeira e dos leites artificiais em nossa sociedade. Como já visto, a invenção dos leites industriais necessitou de uma “ponta de lança”, uma veia de penetração que garantisse a aceitação do novo produto no mercado. Mesmo que a área médica tenha sido a fonte dos estudos científicos que deflagraram o perigo do produto, a mesma área foi responsável por promover a expressiva penetração da mamadeira nos hábitos da população, uma penetração referendada por profissionais encarregados de zelar pela saúde das pessoas. E isso em grande parte se deve ao fato de que as empresas detêm capital para investimento em pesquisa. Empresas privadas, institutos de pesquisa estatais e universidades constituem pólos de pesquisa, mas a capacidade financeira e os objetivos estratégicos das empresas fomentam ali muito substancialmente a geração de resultados. A realização de pesquisas tende a gerar credibilidade sobre produtos. Sem a pesquisa, o que existe é acomodação sem evolução, como tratado no trecho a seguir:
— Às vezes recebemos uma crítica de algumas áreas: (a de) que um investimento tecnológico (que envolve pesquisa) pra gerar um produto, às vezes associava um consumo. […] (Com) uma baixa grande de consumo, a indústria vai dizer: então não vou investir em pesquisa e vocês não vão saber qual é o melhor plástico. É uma argumentação que vai surgir. E a indústria vai ficar sempre isenta de qualquer coisa.
Em outras palavras, o professor referia-se à pratica de as empresas contratarem pesquisadores de várias áreas (inclusive em universidades) visando à geração de produtos para o consumo. Vista por muitos como “conivência” entre pesquisador e indústria, a ausência dessa parceria acarretaria, hipoteticamente, uma estagnação tecnológica da produção, o que não é aceitável para o modelo econômico nem desejável pela sociedade. Mas o problema reside em que algumas descobertas científicas, como no caso das mamadeiras e do leite em pó, ficaram encobertas, a fim de não desestruturar sistemas econômicos e de consumo já instalados.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Código de honra
Acabo de assistir na TV a cabo ao filme "Código de honra", filme norte-americano de 2011. Diante de muitos acidentes e casos de infecção por HIV, hepatites etc., envolvendo profissionais da saúde e seringas plásticas, um engenheiro inventou uma seringa não-reutilizável, que soluciona o problema.
Mas ela não foi de interesse dos órgãos que controlam a compra de suprimentos hospitalares no país porque, além de mais cara, sua adoção acabaria com um esquema milionário que envolve o que poderíamos chamar de "a indústria da doença", que inclui a prática de exportar para países pobres as seringas, que são lá reutilizadas.
Obra de ficção? Não.
Depois de muita luta, jogos de pressão e mortes, o filme relata que alguns hospitais aderiram à seringa, alguns, e que permanece aquela prática de reutilização em países da África (eles denunciam no filme que esta foi a principal causa da disseminação da AIDS naquele continente).
As tensas reuniões que aparecem no filme me fizeram lembrar das algumas oportunidades em que eu e a equipe com quem trabalho no projeto do copinho tivemos de conversar com advogados, empresas ligadas a patentes, coisas assim.
Os problemas da mamadeira, quando apresentados, caem como uma bomba. Claro, mexem com uma indústria que é apenas a maior indústria de alimentos do mundo.
Numa dessas vezes, fomos alertados do seguinte: procurem se defender de possíveis interessados no projeto de vocês, pois a empresa pode querer financiar e patentear, justamente para nunca permitir que o produto vá para o mercado.
É, quando você entra numa de analisar em detalhe, muitas vezes percebe que as coisas mais cotidianas podem ser personagens de filmes como este.
Recomendo.
Mas ela não foi de interesse dos órgãos que controlam a compra de suprimentos hospitalares no país porque, além de mais cara, sua adoção acabaria com um esquema milionário que envolve o que poderíamos chamar de "a indústria da doença", que inclui a prática de exportar para países pobres as seringas, que são lá reutilizadas.
Obra de ficção? Não.
Depois de muita luta, jogos de pressão e mortes, o filme relata que alguns hospitais aderiram à seringa, alguns, e que permanece aquela prática de reutilização em países da África (eles denunciam no filme que esta foi a principal causa da disseminação da AIDS naquele continente).
As tensas reuniões que aparecem no filme me fizeram lembrar das algumas oportunidades em que eu e a equipe com quem trabalho no projeto do copinho tivemos de conversar com advogados, empresas ligadas a patentes, coisas assim.
Os problemas da mamadeira, quando apresentados, caem como uma bomba. Claro, mexem com uma indústria que é apenas a maior indústria de alimentos do mundo.
Numa dessas vezes, fomos alertados do seguinte: procurem se defender de possíveis interessados no projeto de vocês, pois a empresa pode querer financiar e patentear, justamente para nunca permitir que o produto vá para o mercado.
É, quando você entra numa de analisar em detalhe, muitas vezes percebe que as coisas mais cotidianas podem ser personagens de filmes como este.
Recomendo.
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Amamentação x mamadeira ilustrando colóquio internacional de História da Arte
Recentemente uma amiga compartilhou no Facebook esta imagem, cartaz de um colóquio internacional de História da Arte, ocorrido em uma universidade mexicana.
Muito me impressionou a perspicácia do autor ao conceber uma imagem representativa do assunto do encontro, "Os estatutos da imagem", abordando a questão amamentação x mamadeira. Por isso, penso que este cartaz inspiraria - só ele, ainda um outro encontro, para discutir o conflito entre ser mãe e ser mulher (aliás tema do mais recente livro de Elisabeth Badinter, que começo a ler).
Decupando a estampa:
1. a base é um detalhe de pintura renascentista;
2. a fotomontagem consta da inserção de uma mamadeira sob a mão do bebê;
3. o corpo desta mamadeira recebe tratamento gráfico De Stijl (Mondrian), um movimento artístico iniciado na Holanda que buscava na geometria uma conexão estética, científica e espiritual com o cosmo;
4. as cores do quadro foram revertidas para o preto e branco;
5. apenas o corpo da mamadeira exibe cores, atraindo o atenção do observador pra o produto e elegendo-o como foco principal na hierarquia da mensagem visual.
Na leitura que fiz de imediato, senti desconforto com a simultaneidade da presença do seio e da mamadeira. Mas depois percebi ser justo este desconforto o que capacita a imagem à discussão do tema do colóquio. Vivemos este dilema contemporaneamente. O seio materno prossegue produzindo alimento para os bebês, mas temos a mamadeira, e seu apelo estético suplanta o apelo do seio. A "natureza" da mamadeira é coerente com a "natureza" do mundo transformado pela indústria, pelas "coisas" que fazem coisas por nós. O estatuto do seio foi deslocado da função de alimentar para a função de seduzir.
É muito legal quando as imagens nos trazem questões, e não respostas. E isso tem se tornado cada vez mais raro hoje em dia, restrito a círculos cultos, intelectualizados. O comércio e a publicidade, com suas imagens prontas, bidimensionais, nos incapacitam à reflexão e tendem a reinar como única via estética.
As imagens podem e devem perturbar.
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Trabalhando
A loucura dos dias tem sido um obstáculo complicado pra seguir com minhas tarefas do blog numa periodicidade que eu consideraria legal. Mas o fato é que as coisas tendem a acontecer em meio a uma espécie de caos, e sigo produzindo.
Depois da viagem à Bogotá, onde minha conferência sobre os problemas da mamadeira "bombou" na Pontifícia Universidad Javeriana, e fiz um contato incrível com o médico que concebeu o Método Mãe-Canguru, me dediquei a finalizar a preparação dos originais do meu livro ("Amamentação e o desdesign da mamadeira; por uma avaliação da produção industrial"). Tudo já foi entregue à editora e agora aguardo as observações da revisão. Daí pra frente ele irá para a fase de design editorial e a previsão de publicação é primeiro semestre de 2013.
Paralelamente, seguimos projetando nosso "copinho". Agora, no almoço, acabo de ver os primeiros protótipos em vidro. Nós os produzimos neste material para testá-los com bebês, mães e profissionais de saúde em bancos de leite. E a partir das críticas que receberemos, voltaremos para ajustes e novos protótipos.
E segue também nosso trabalho para lançar o projeto do copinho num site de crowndfunding (vaquinha virtual). Temos trabalhado até aqui voluntariamente, contando com a preciosa e também voluntária colaboração de algumas pessoas e empresas. Mas a alma do projeto consiste em observar, projetar, prototipar, testar e repetir esse processo até chegar ao resultado final. E a vaquinha virtual irá nos ajudar a levantar grana pra isso. Estamos escrevendo o projeto, bolando o storyboard pra depois realizar um vídeo que será lançado na internet. A partir daí é que serão viabilizadas as doações, que podem ser de maior e de menor vulto.
Me tranquiliza pensar que o trabalho é realmente longo, ele tem um tempo diferente. E também que o blog, enquanto isso, prossegue sendo visitado com uma intensidade boa e constante.
sábado, 8 de setembro de 2012
Não há mesmo nada mais sábio....
Uma amiga mexicana recentemente teve uma filhinha.
Ontem ela postou a seguinte frase no Facebook:
Eu já era um grande fã da mãe natureza, mas agora que estou percebendo que as mudanças que acontecem na amamentação são sincronizadas perfeitamente com as mudança pelas quais o bebê passa ... eu simplesmente não consigo pensar em nada mais sábio :)
Quando, durante a tese, cursei uma disciplina na pós-graduação do Instituto Fernandes Figueira, fiquei sabendo de uma dessas mudanças que me tirou do chão: a de que quando se aproximam os seis meses de idade de um bebê, o leite materno vai, aos poucos, ficando salgadinho pra preparar seu paladar para os outros alimentos.
É, Brenda, também não consigo pensar em nada mais sábio :)
domingo, 2 de setembro de 2012
Mamadeira = turbina de hidrelétrica
No início da minha vida profissional, como designer, participei da realização da memória técnica da Usina de Itaipú. Na época, estávamos ousando por realizar todo o projeto no programa de computador Ventura, pois naquela época essas máquinas ainda não haviam substituído o fazer manual nos escritórios.
Acompanhei uma equipe de desenhistas técnicos na arte-finalização das inúmeras imagens da publicação, e me impressionavam especialmente aquelas que retratavam as turbinas - engenhos muito complexos, considerados uma espécie de "alma" da hidrelétrica.
E eis que recebo de uma amiga e colaboradora o filme aí de cima.
O bico da mamadeira é nada menos que uma turbina.
As bactérias vão adorar todos esses cantinhos, tobogãs e escorregas para se reproduzirem.
O leite é humano (no filme), mas avisem aos profissionais envolvidos no projeto que, em caso de impedimento da amamentação ao seio, foi inventado um produto incrível chamado COPO.
É bom avisar pra eles também que a "alma" de um projeto é a pesquisa, além - é claro - da ética.
Assinar:
Postagens (Atom)




